Fífias do século XX

altDocumento: Ciência falhada

Poucas investigações do século passado criaram semelhantes expectativas e produziram resultados tão exíguos (ou mesmo nulos) como a psicanálise, a Estação Espacial Internacional ou a Biosfera 2.

No início da década de 1970, a jornalista austríaca Karin Obholzer conseguiu localizar e entrevistar Serguei Pankeyev, um aristocrata ucraniano, nascido em 1886, conhecido como “o homem dos lobos”. A par de outros casos raros, Pankeyev foi um dos pacientes mais famosos em que Sigmund Freud se baseou para estabelecer as bases da psicanálise. A alcunha provinha de um dos seus sonhos: pela janela do quarto, via lobos brancos sentados nos ramos de uma nogueira. No entender de Freud, era evidente que a imagem ocultava uma escabrosa experiência infantil que o paciente tinha esquecido: assistira, como voyeur, a um coito entre os progenitores feito por detrás; uma posição perfeita para observar, segundo Freud, “os genitais da mãe e o membro do pai, tendo compreendido a essência da coisa”.

O facto é que a capacidade do fundador da psicanálise para extrair as memórias mais incríveis das pessoas parecia inesgotável. Neste caso, partindo da nogueira e dos lobos, deduziu que tudo acontecera num “dia quente de Verão”, e que “os pais se tinham deitado, meio vestidos, sobre a cama para fazer a sesta”. Uma vez descoberta a causa reprimida das angústias de Pankeyev, Freud declarou, em 1918, que conseguira curá-lo. Nada mais longe da rea­lidade. Uma das suas colaboradoras, Ruth M. Brunswick, psicanalisou igualmente o ucraniano e chegou à conclusão de que era também vítima do complexo de castração, um conceito associado ao medo infantil de perder o pénis às mãos do pai. Como chegou a semelhante diagnóstico? Ao vê-lo a andar pela rua a olhar-se nos vidros das janelas, convencido de que lhe tinham furado o nariz.

Outro caso é o do “pequeno Hans” (Herbert Graf, que, posteriormente, se tornaria produtor de óperas). Quando tinha quatro anos, viu um carro ir abaixo com o peso da carga que transportava. Esse facto provocou-lhe um terror patológico de cavalos e carroças cheias de mercadorias. Com Hans, Freud pisou o risco. Nem precisou de ouvi-lo para concluir que também sofria de complexo de castração, associado, por sua vez, ao complexo de Édipo.

A terapia psicanalítica baseia-se na procura de memórias reprimidas (que, provavelmente, nem sequer existem), em presumir que as experiências vividas na infância são a causa dos problemas dos pacientes (o que, seguramente, é falso) e em asseverar que se consegue curar a pessoa afectada ao extrair-lhe essas memórias (o que, muito provavelmente, não é verdade). Resultado: a Associação Psicanalítica Internacional publicou, em 1999, um estudo intitulado An Open Door Review of Outcome Studies in Psychoanalysis, no qual destacava, com base em casos clínicos documentados sobre a eficácia da psicanálise, que “a maior parte dos estudos apresenta graves limitações”, e que “não conseguem demonstrar de forma inequívoca que a psicanálise seja eficaz relativamente a um placebo ou a outras formas de tratamento”.

Esbanjamento sem justificação

Se a psicanálise é o grande fiasco intelectual do século XX, o mesmo se aplica à Estação Espacial Internacional (EEI) no campo da tecnologia. “Vendida” ao público como um grande laboratório de investigação na área da microgravidade, a verdade é que esta poderia ser desenvolvida, de forma muito mais barata, com recurso a um avião em voo parabólico. Se juntarmos a isso o facto de se ter cancelado, ao longo dos anos, a instalação de numerosos equipamentos de alta tecnologia, como o ambicioso módulo de centrifugação que iria proporcionar um ambiente de gravidade controlada entre 0,01 e duas vezes a do nosso planeta, o que resta na EEI são apenas expe­riên­cias para estudar as reacções biológicas de seres vivos no espaço.

Não é grande coisa, pois as estações Mir e Skylab já demonstraram que processos como o da regulação celular e da embriogénese funcionam em microgravidade. Não é, igualmente, merecedor de um Nobel descobrir que esta afecta os ossos e os músculos dos grandes mamíferos. Robert Park, físico da Universidade do Maryland, não tem dúvidas: “A EEI é tecnologia de ontem, e os seus objectivos são ciência de ontem.” O megalaboratório orbital é o buraco negro da exploração espacial, um projecto em que já foram injectados milhares de milhões de euros. Nesse caso, por que foi construída? Alguns consideram que se tratou de uma espécie de balão de oxigénio para a indústria aeroespacial e para o programa dos vaivéns espaciais, cujo arranque também foi bastante questionado.

O fiasco mais extravagante

Todavia, se quisermos entregar um galardão ao fiasco mais extravagante, teremos de recuar até 2 de Setembro de 1991, quando oito pessoas decidiram isolar-se durante dois anos num recinto construído a 50 quilómetros de Tucson, no Arizona. Tratava-se da Biosfera 2, uma construção de aspecto extraterrestre que englobava um bosque tropical, um micromar, zonas desérticas e uma savana.

O seu director científico, Tony Burgess, chamou-lhe “a catedral de Chartres da Hipótese Gaia”, uma singular homenagem à ousada proposta da microbióloga Lynn Margulis e do ecologista James Lovelock que considera a Terra um organismo vivo. Ali, pretendiam averiguar se o ser humano conseguiria sobreviver num ambiente auto-sustentável, uma ideia que poderia servir de inspiração para colonizar outros planetas.

O resultado revelar-se-ia desastroso. Perderam-se 150 milhões de dólares por terem sido ignorados ou mal interpretados os dados ecológicos e biológicos disponíveis. Pior ainda: alguns meses antes de os bionautas se fecharem no recinto, o jornalista Marc Cooper revelou que o projecto fora idealizado por uma espécie de culto New Age liderado por John Allen, um visionário convencido de que a sociedade alcançara a decadência total e era melhor estabelecer-se em Marte.

Dois meses depois do início da experiência, descobriu-se que não existia verdadeiro isolamento: fora instalado um sistema para captar dióxido de carbono, pelo que foi necessário bombear 17 milhões de metros cúbicos de ar para compensar a queda de pressão; 16 meses depois da selagem, injectou-se uma atmosfera enriquecida. No final, quase 30 por cento das espécies introduzidas tinham desaparecido, e outras estavam fora de controlo: as abelhas tinham morrido, os ratos comiam as culturas, os peixes-porco tinham devorado a maior parte dos seus companheiros e as baratas tinham invadido tudo. Hoje, a Biosfera 2, um monumento à estupidez humana, está sob a gestão da Universidade do Arizona.

SUPER 147 - Julho 2010


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