Voluntários da ciência

Descubra como pode ajudar

altSabia que durante os seus passeios pode ajudar os biólogos a mapear plantas e animais, ou auxiliar cientistas a identificarem células cancerosas ou manchas solares? O biólogo Jorge Nunes revela-lhe curiosos projetos de ciência cidadã e convida-o a envolver-se neles.

Já imaginou tirar uma fotografia de uma planta, partilhá-la no Facebook e, passado algum tempo, um botânico contactá-lo a dizer que a sua imagem mostra uma espécie nova para a ciência? Pode parecer incrível, mas aconteceu recentemente a um naturalista amador brasileiro.

A história conta-se em poucas palavras. Durante um passeio nas montanhas próximas da cidade de Governador Valadares (Minas Gerais), Reginaldo Vasconcelos captou um retrato de uma planta carnívora e partilhou-a na rede social. Por mero acaso, a imagem chegou através do Facebook a Paulo Gonella, biólogo do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, que pressentiu tratar-se de uma espécie desconhecida: "Ao ver a foto, deu para levantar a suspeita de que era uma nova espécie. Ela parecia muito diferente. Entrei em contacto com o fotógrafo e três meses depois estávamos viajando para estudá-la."

A investigação que se seguiu, levada a cabo por botânicos profissionais, confirmou as suspeitas iniciais: era uma nova espécie e foi batizada Drosera magnifica, devido ao seu tamanho e à aparência excecional. Descobriu-se que pode atingir metro e meio de altura, com folhas que podem chegar a 25 centímetros de comprimento, constituindo a maior planta do género Drosera do continente americano e uma das três maiores do mundo.

Devido às suas avantajadas dimensões e, sobretudo, à forma singular como foi descoberta, constituindo a primeira espécie botânica a ser achada a partir de imagens publicadas numa rede social, a Drosera magnifica rapidamente se tornou notícia: "Nova planta carnívora é descoberta no Brasil graças a foto em rede social" (Globo), "Cientistas descobrem uma nova espécie de drósera no Facebook" (Discover), "Ninguém conhecia a existência desta planta até ser publicada no Facebook" (Smithsonian), entre outros.

Do lado de cá do Atlântico

Registe-se, como curiosidade, que as plantas carnívoras do género Drosera também estão presentes em Portugal, originando duas espécies distintas: a Drosera rotundifolia e a D. intermedia, vulgarmente conhecidas como "orvalhinhas", "orvalhos-do-sol" ou "rorelas", devido a libertarem substâncias pegajosas que lembram gotículas de orvalho.

altAs orvalhinhas portuguesas, porém, não vão além de uns modestos dez centímetros de comprimento, surgindo, sobretudo, em zonas húmidas ou pantanosas. A D. rotundifolia encontra-se geralmente em zonas montanhosas, exclusivamente a norte da bacia hidrográfica do Tejo, em prados encharcados e turfeiras ricas em musgos do género Sphagnum. Já a D. intermedia surge de forma pontual na faixa litoral que vai desde o Minho ao Alentejo, tanto em prados e turfeiras com Sphagnum como em depressões húmidas intradunares, margens de charcos, açudes e linhas de água, brejos e outros locais temporariamente encharcados. Ambas apresentam as folhas dispostas em círculo em torno de um eixo central e são constituídas por um pecíolo relativamente comprido, terminando num limbo verde, aproximadamente arredondado (D. rotundifolia) ou oblongo (D. intermedia), cuja página superior se encontra coberta por numerosos pelos viscosos, vermelhos e reluzentes.

Se quiser saber mais sobre as orvalhinhas, as restantes cinco espécies de plantas carnívoras portuguesas ou qualquer outra espécie botânica nacional, pode consultar o portal Flora-on (http://www.flora-on.pt), coordenado pela Sociedade Portuguesa de Botânica. Trata-se de uma gigantesca base de dados na qual se sistematiza informação fotográfica, geográfica, morfológica e ecológica de todas as espécies de plantas vasculares autóctones ou naturalizadas listadas para a flora de Portugal continental, dos Açores e da Madeira.

O Flora-on foi concebido para facultar ao público o acesso gratuito, simples e intuitivo à informação científica sobre as plantas que ocorrem em Portugal. Assim, funciona de modo dinâmico e interativo, tornando intuitiva e simples a procura de informação e a identificação de espécies, tanto através do computador como do telemóvel.

O projeto Flora-on está a ser desenvolvido desde 2012 com base no trabalho voluntário de naturalistas amadores e botânicos profissionais que, até ao momento, já fizeram mais de 280 mil registos de ocorrência, correspondentes a 2108 espécies. O cidadão comum pode, se quiser, ser mais do que um simples consumidor passivo de conhecimentos botânicos, contribuindo ativamente para ampliar a base de dados disponibilizada, nomeadamente no que se refere ao banco de imagens e à distribuição geográfica das espécies. Isto porque "o projeto visa criar laços de colaboração com um maior número de botânicos, investigadores e instituições científicas, apelando sobretudo à disponibilização de registos fotográficos e geográficos das espécies vegetais, com o objetivo de construir um atlas atual e rigoroso da flora de Portugal", dizem os promotores da iniciativa.

Coca-bichinhos

altAo contrário do que se possa imaginar, são muitos os exemplos de cidadãos, amadores e voluntários, que, de forma imprevista ou intencional, colaboram com os cientistas nos seus projetos de investigação e até, imagine-se, na descoberta de novas espécies. Um bom exemplo é o de Francisco Barros, naturalista amador oriundo de São Salvador (Cadaval), que, em 2011, fotografou e capturou uma cigarra-dos-arbustos, nas imediações da Nazaré, e enviou o material recolhido a Joan Barat, um entomólogo de Barcelona. Passado algum tempo, recebeu de volta um inusitado veredicto: tratava-se de uma espécie nova. O melhor, porém, ainda estava para vir: o novo inseto foi apresentado à comunidade científica em 2013 com a denominação de Neocallicrania barrosi, em reconhecimento a Francisco Barros, "pela sua decisiva intervenção na descoberta desta espécie", lê-se no artigo científico redigido pelo especialista espanhol.

Registe-se, como curiosidade, que a Neo-callicrania barrosi pode ser encontrada na faixa litoral entre Leiria e Setúbal e pertence ao grupo dos ortópteros, que inclui os grilos e os gafanhotos, no qual estão atualmente listadas sete espécies e duas subespécies exclusivas do território continental português.

O exemplo de Francisco Barros pode ser inspirador para outros cidadãos que venham a interessar-se pelo mundo fascinante dos insetos e queiram, voluntária e graciosamente, ajudar os cientistas a conhecer melhor a nossa fauna entomológica. Segundo o artigo "Os insetos endémicos de Portugal continental", coordenado pelo investigador João Farminhão, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no nosso país "o conhecimento sobre os insetos é ainda escasso, o que é crítico tendo em conta as taxas de endemismo conhecidas de diferentes grupos". Assinale-se que, até 2014, data de publicação do referido estudo, estavam identificadas como endemismos lusitânicos 369 espécies e 33 subespécies, "embora a listagem não esteja ainda finalizada e haja carência de informação geográfica", lembram os entomólogos.

Recorde-se que os insetos representam mais de três quartos de todos os animais conhecidos, mas ainda há muito para descobrir. Até ao momento, só foram classificadas pouco mais de um milhão de espécies, estimando-se que haja entre cinco e 30 milhões. Se assim for, falta encontrar e descrever mais de oitenta por cento destes magníficos invertebrados que desempenham um papel essencial no funcionamento dos ecossistemas e na economia mundial.

Não se pense, porém, que o envolvimento dos cidadãos com a ciência se resume à descoberta de novas espécies (até porque esse é um acontecimento muito raro), havendo muitas outras formas de contribuir para o desenvolvimento científico.

altCiência cidadã

Antes de conhecermos melhor alguns projetos nacionais e internacionais em que qualquer de nós pode participar, é chegada a hora de descodificar o conceito de "ciência cidadã", que começa a vulgarizar-se.

Ciência cidadã é a adaptação da expressão inglesa citizen science e refere-se, geralmente, a ações que envolvem amadores na recolha e no tratamento de dados científicos. "A ideia subjacente da ciência cidadã é que a investigação científica, ou pelo menos parte dela, pode ser realizada por pessoas que não são cientistas profissionais, envolvendo toda a sociedade na aventura do conhecimento", defendem António Granado e José Vítor Malheiros, na obra Cultura Científica em Portugal – Ferramentas para Perceber o Mundo e Aprender a Mudá-lo, publicada recentemente com a chancela da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Durante décadas, o conhecimento científico não esteve acessível ao público em geral, mantendo-se isolado nos gabinetes académicos e laboratórios de investigação das universidades e dos institutos. Como se não bastasse, era geralmente transmitido através de uma linguagem hermética, acessível apenas a profissionais, através de publicações científicas específicas. Porém, nos últimos anos, a ciência tem vindo a mudar de paradigma, abrindo-se, progressivamente, à sociedade civil. "Nos últimos 20 anos, mercê do investimento feito na área da investigação científica e tecnológica em Portugal, a promoção da cultura científica e tecnológica cresceu extraordinariamente, tendo-se multiplicado as iniciativas", lembram António Granado e José Malheiros.

Com o propósito de aproximar a ciência do cidadão, foram criadas e consolidadas instituições dedicadas especificamente à divulgação científica, como os museus e os centros de ciência espalhados pelo país e responsáveis por múltiplas atividades. Além disso, tem havido maior investimento na área da comunicação da ciência, da tecnologia e da promoção da cultura científica, por parte de universidades e institutos de investigação, que realizam cada vez mais ações para divulgar os resultados do seu trabalho e contactar o público em geral.

Granado e Malheiros constatam que "há uma maior consciencialização da relevância de divulgar a ciência e a tecnologia a um público o mais alargado possível, e há cada vez mais pessoas interessadas, empenhadas e capacitadas para levar a cabo essa tarefa". Não podemos também esquecer o papel do jornalismo de divulgação científica, como a SUPER.

Nas últimas duas décadas, mais precisamente desde a criação do primeiro Ministério da Ciência e Tecnologia, em 1994, e do Programa Ciência Viva, em 1996, assistiu-se a uma melhoria significativa da literacia científica em Portugal. Todavia, ainda estamos longe da situação ideal. Segundo Liliana Oliveira e Anabela Carvalho, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, no nosso país, "o envolvimento dos cidadãos na ciência ainda é reduzido e as práticas para incrementar a sua participação são escassas". Entre outras razões, "a democratização de alguns assuntos é vista pelas instituições públicas como um entrave ao seu bom funcionamento e como sinónimo de instabilidade", defendem as autoras do estudo Envolvimento e Participação dos Cidadãos na Ciência em Portugal e em Espanha – Evolução e Estado Atual, publicado em 2012.

A comunidade científica é crucial na compreensão pública da ciência, uma vez que é responsável pela produção do conhecimento e por grande parte das atividades de divulgação. Porém, não se pense que o problema da participação dos cidadãos na ciência se fica a dever apenas a entraves institucionais. Os cidadãos exigem uma concretização efetiva dos princípios democráticos, mas, na realidade, não se implicam pessoalmente neles, adotando uma atitude passiva e demonstrando escassa capacidade de intervenção.

Sem a participação pública efetiva, não é possível falar de ciência cidadã, pois esta não se refere apenas ao acesso e à compreensão do conhecimento científico, mas também, e sobretudo, ao envolvimento dos cidadãos na sua produção. A crescente instrução da população portuguesa, a melhoria da sua literacia científica e a facilidade de acesso e utilização das tecnologias de informação e comunicação permitiram que alguns indivíduos amadores se tornassem especialistas em áreas científicas como, por exemplo, a botânica, a ornitologia e a astronomia. Em muitos casos, acabaram por dar contributos valiosos para o progresso científico. Afinal, a aplicação do método científico e o cumprimento das regras básicas da ciência, como a objetividade, o rigor e a submissão a factos, não são algo exclusivo dos cientistas profissionais, mas estão acessíveis a qualquer pessoa.

 

SUPER 219 - Julho 2016

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