Na pista da escuridão

Elena Aprile, física

altEsta italiana soube abrir caminho na ciência, um mundo tradicionalmente difícil para as mulheres. Hoje, lidera un projeto para detetar matéria escura.

Elena Aprile, nascida em Milão, em 1954, trabalha num campo apaixonante da física experimental: a procura da matéria escura, cuja existência apenas se deduz dos seus efeitos gravitacionais, pois é invisível aos instrumentos óticos. A fugidia matéria é da maior importância: estima-se que representa cerca de 23 por cento de tudo o que existe no universo.

Aprile, professora catedrática de física na Universidade de Columbia (Estados Unidos), tornou-se uma das cientistas mais influentes do mundo ao dirigir um projeto em que participam 120 investigadores de vários países. Fala-mos da experiência XENON, uma tentativa para detetar matéria escura que está a decorrer em instalações alojadas no interior de uma montanha: o Laboratório Nacional de Gran Sasso, situado nos Montes Apeninos, no centro de Itália. Foi ali que foi construído o XENON 1T, um tanque de 10 metros de altura que aloja um detetor concebido para conter até 2000 quilos de xénon líquido (no total, serão utilizados 3500), e dotado de sensores de grande sensibilidade para registar o sinal luminoso que se produziria no caso de uma hipotética partícula de matéria escura colidir com um átomo de xénon. A água do tanque protege o detetor de radiações externas.

Os cientistas envolvidos na iniciativa pensam que as WIMP (sigla inglesa de "partículas massivas de interação fraca") poderiam ser uma nova classe de partículas subatómicas que formariam a matéria escura, e é por isso que as procuram. Utilizam xénon porque a densidade deste elemento aumenta a possibilidade de colisões subatómicas, e trabalham a uma profundidade de 1000 metros sob a superfície da montanha para minimizar as interações com outras partículas, como as dos raios cósmicos que embatem contra o nosso planeta.

Conversámos com Elena Aprile, cientista que demonstra uma personalidade forte e magnética, característica de alguém que se sente seguro do que faz e possui objetivos claros. Com um sorriso cúmplice, assegura que foi "uma menina curiosa e má", e que sempre soube que queria fazer "algo invulgar" para o seu tempo, como estudar engenharia. A família não tinha recursos económicos, e poucas italianas entravam, na época, na universidade. A mãe foi o seu grande apoio: "Foi o meu pilar. Se ela tivesse ido à escola, ter-se-ia tornado uma grande cientista. Ela teria gostado de estudar engenharia, física ou química. Transmitiu-me a paixão pelas coisas e a curiosidade. Quando matava um coelho para cozinhá-lo, chamava-me para que eu examinasse a sua anatomia."

altFasquia mais alta

Havia muitas mulheres cientistas quando iniciou a sua carreira?

Não, era a única. Estou habituada a que haja muito poucas mulheres no meu trabalho. Não me importo.

Como conseguiu chegar à universidade, se a sua família não tinha dinheiro?

Em Itália, o ensino superior é gratuito. Queria estudar engenharia quando acabei o bacharelato, mas o meu pai disse-me que isso era só para homens. Por isso, decidi estudar física, apesar de ter tido uma professora muito má na matéria, no ensino secundário. Contudo, aprendi uma coisa com ela: a física pode ser explicada muito melhor.

Qual foi o passo seguinte?

 Matriculei-me em física na Universidade de Nápoles. É a terra natal da minha família, embora eu tenha nascido em Milão, porque o meu pai trabalhava lá. As aulas foram muito duras. Queria ser a primeira e decidi pôr a fasquia o mais alto possível. Assim, pedi uma bolsa de estudante para as férias de verão no CERN [a Organização Europeia para a Investigação Nuclear, em Genebra], algo que é ainda possível fazer hoje. Fiz o pedido juntamente com dois rapazes. Na primavera de 1977, recebi a resposta pelo correio, uma carta que iria mudar a minha vida. Era do CERN: aceitavam a minha candidatura.

Recorda-se bem desse dia?

Perfeitamente! Acabava de chegar da universidade e encontrei a carta. Não havia correio eletrónico, só papel... A missiva incluía bilhetes para ir de comboio de Nápoles a Genebra. Lembro-me do dia em que o meu pai, a minha irmã e os meus irmãos me acompanharam até à estação para se despedirem. Deixei Nápoles e já não regressei. O que aconteceu depois é algo que sucede a muitos cientistas jovens, e resulta de estar na altura e no sítio certos. Ao chegar ao CERN, fui parar ao grupo de Carlo Rubbia, que ganharia posteriormente o Nobel da Física. Poderia dizer que o Carlo me pôs debaixo da sua asa. Tornou-se o melhor mentor que poderia ter tido, embora fosse uma das pessoas mais difíceis que conheci. Eu tinha apenas 23 anos, era uma rapariga muito jovem e quase não havia mulheres no meio.

 

SUPER 220 - Agosto 2016

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