A revolução dos organoides

Laboratório e fábrica de tecidos

altEstas estruturas vivas, obtidas de células estaminais, apresentam a mesma organização e funcionamento de um órgão, o que irá permitir testar fármacos e tratamentos e, no futuro, produzir tecidos.

Quando, em 1818, Mary Shelley publicou Frankenstein ou O Moderno Prometeu, a sua imaginação não conseguiu alcançar o que, quase dois séculos depois, a ciência já conquistou em laboratório. A invenção dos chamados "organoides" é, sem dúvida, um dos avanços recentes mais notáveis e representa, salvaguardando as devidas distâncias, mais um passo rumo a esse conceito de homem artificial que Victor Frankenstein almejava na obra de ficção. Neste caso, a ideia consiste em recriar o funcionamento de diferentes orgãos com recurso a tecidos extraídos de células estaminais que se comportam como a verdadeira víscera. Segundo a investigadora Núria Montserrat, "atualmente, a principal utilização é permitir testar fármacos que evitem a progressão de doenças, e compreender como se desenvolvem os nossos tecidos e órgãos".

No laboratório de Núria Montserrat, trabalha-se com rins em miniatura, obtidos a partir de células reprogramadas de pacientes com problemas nesse órgão. "Assim, podemos efetuar estudos sobre a toxicidade de medicamentos que irão ser utilizados na prática clínica", explica a especialista.

Tudo começou no Instituto Hubrecht, em Utrecht (Países Baixos). Em 2009, Hans Clevers, especialista em biologia do desenvolvimento e células estaminais, e a sua equipa descreveram pela primeira vez um intestinoide de rato. Hoje, as investigações desenvolvidas pelo chamado "pai dos organoides" conhecem um grande avanço. Segundo Sylvia F. Boj, uma cientista que faz parte do grupo de Clevers, "dentro de dois anos, poderemos utilizá-los para determinar a reação a medicamentos em pacientes com fibrose quística e, a seguir, em doentes com cancro do cólon". A verdade é que em breve estarão disponíveis organoides de praticamente todos os tecidos epiteliais. "Há pessoas a trabalhar com a mama, a próstata, os pulmões... Todavia, o processo é mais complexo com essas partes do corpo, pois têm uma capacidade de regeneração muito inferior à dos epitélios intestinais", indica Boj.

altTakanori Takebe, professor de medicina regenerativa na Universidade Nacional de Yokohama (Japão), trabalha há anos com organoides de fígado. "Estamos prestes a estabelecer um processo de produção muito eficiente para doenças pediátricas e, a par desse avanço, tencionamos implantar, pela primeira vez, um ensaio clínico em seres humanos, lá para 2019 ou 2020", afirma Takebe. Considera que o passo seguinte consistirá em estudar a importância dos órgãos e dos tecidos vizinhos. "O fígado, por exemplo, está ligado ao sistema biliar e, por fim, ao intestinal. Esse tipo de conectividade é fundamental para assegurar o desempenho e a resistência dos tecidos, embora ainda não saibamos como funciona", sublinha.

Exercício de coordenação

Seja como for, o modo como se cria um organoide tem de imitar os processos que ocorrem durante o desenvolvimento embrionário. Para isso, é necessário um complexo exercício de coordenação para incorporar e promover a maturação de diferentes tipos de células. "Conseguir um decalque da verdadeira organização é muito complicado", afirma Antonio Bernad, investigador do Departamento de Imunologia e Oncologia do Centro Nacional de Biotecnologia de Madrid. "Todavia, isso não é impedimento para obter organoides com uma função semelhante à desempenhada pelo orgão completo; são, por conseguinte, um modelo muito superior aos atuais sistemas de diganóstico."

A plena utilidade dos organoides só será conhecida a longo prazo, mas o que permitem já hoje? Em abril, uma equipa de investigadores do Centro Alemão de Doenças Neurodegenerativas (DZNE), em Bona, anunciou na revista Stem Cell Reports que tinha conseguido cultivar organoides de retina a partir de células estaminais humanas e de rato. O avanço permitirá conhecer melhor a forma como esse tecido se desenvolve e as técnicas que poderão ser aplicadas para tratar lesões, sobretudo no caso de doenças como a cegueira associada à idade.

Os atuais sistemas de avaliação pré-clínica de medicamentos, utilizados para testar de forma rápida a sua eficácia, baseiam-se fundamentalmente no estudo de cultivos em laboratório. Contudo, nessa fase, não se produzem habitualmente as interações entre células que se verificam numa estrutura tridimensional. Nesse sentido, os organoides poderão representar um grande avanço. No entanto, os especialistas advertem que, para a sua utilização na avaliação pré-clínica de novos agentes terapêuticos ser eficaz, será necessário empregar uma grande quantidade. "A sua utilidade em termos de terapia celular irá depender dos resultados obtidos em ensaios pré-clínicos regulamentados, nomeadamente em animais de grande porte, quando for possível efetuá-los, mas não estarão disponíveis tão cedo para aperfeiçoar a avaliação de novos tratamentos", afirma Bernad. Boj concorda: "Com essa tecnologia, seria possível fazer crescer tumores de pacientes em laboratório e testar fármacos para comprovar a sua eficácia."

 

SUPER 223 - Novembro 2016

Leia a SUPER numa das nossas versões digitais:

http://www.superinteressante.pt/digital

 

 


( 1 Voto )
 

Últimas publicações

GuiaTV

Escolha abaixo o canal.

Canal:

Data:

You need Flash player 6+ and JavaScript enabled to view this video.

Playlist: 0 | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11

Your are currently browsing this site with Internet Explorer 6 (IE6).

Your current web browser must be updated to version 7 of Internet Explorer (IE7) to take advantage of all of template's capabilities.

Why should I upgrade to Internet Explorer 7? Microsoft has redesigned Internet Explorer from the ground up, with better security, new capabilities, and a whole new interface. Many changes resulted from the feedback of millions of users who tested prerelease versions of the new browser. The most compelling reason to upgrade is the improved security. The Internet of today is not the Internet of five years ago. There are dangers that simply didn't exist back in 2001, when Internet Explorer 6 was released to the world. Internet Explorer 7 makes surfing the web fundamentally safer by offering greater protection against viruses, spyware, and other online risks.

Get free downloads for Internet Explorer 7, including recommended updates as they become available. To download Internet Explorer 7 in the language of your choice, please visit the Internet Explorer 7 worldwide page.