Os portugueses da Malásia

altPrósperos, perseguidos, reabilitados

Apesar de ter perdido Malaca para os holandeses, em 1641, Portugal deixou no território um riquíssimo edificado religioso, além de uma ampla comunidade de luso-descendentes que ainda hoje comemoram os santos populares. Paulo Afonso evoca esse património arquitetónico e humano.

Para além do controlo do mercado das especiarias, Malaca ficou na história de muitos capítulos da nação portuguesa e dos seus mais distintos cidadãos. Entre outras memórias, em 1511, Fernão de Magalhães, ao serviço de Afonso de Albuquerque no ataque ao território, capturou o escravo Henrique de Malaca (que seria talvez nativo de Samatra), que o acompanhou durante toda a sua vida em Portugal e até à sua morte em Cebu, nas Filipinas, durante a primeira viagem de circum-navegação do mundo, onde Henrique também serviu como tradutor (e conspirador ?) malaio.

Como capitão de Malaca, morreu Paulo da Gama, filho do navegador Vasco, numa das muitas batalhas com Johor (Ujantana). É também em Malaca que Tomé Pires termina, em 1514, a sua aclamada obra Suma Oriental, que, para além de ser um rico inventário de plantas e drogas medicinais, descreve muita da geografia do Oriente, sendo o primeiro texto português de sempre no qual é mencionado o Japão. Pires escreveu sobre Malaca: “Quem a controlar terá a mão na garganta de Veneza.”

Demorou a construir-se a fortaleza que circundava a urbe lusitana. As residências dos oficiais e da população portuguesa foram construídas na encosta e essencialmente em torno da sinuosa colina de São Paulo, uma vez que era escasso o espaço plano intramuros. No terreiro à volta da Famosa, como era conhecida, situa­vam-se os alojamentos das tropas e os armazéns de munições e mantimentos. Dentro da cidadela viviam só portugueses; fora dela, em frente à torre de menagem no lado noroeste do rio, no bairro ou vila portuguesa da Tranqueira (hoje, Tengkera), viviam os luso-malaios e outros portugueses lá estabelecidos.

Dentro e fora de muros

Sendo a principal zona residencial de Malaca, a Tranqueira era defendida por paliçadas em toda a sua volta, como mostra bem o Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental Com as Descrições do Marítimo dos Reinos e Províncias Onde Estão Situadas e Outros Portos Principais Daquelas Partes, por António Bocarro (datado de 1635), com desenhos de Pedro Barreto de Resende, cujo precioso manuscrito se encontra na Biblioteca Pública de Évora. Na Tranqueira, ficavam ainda as igrejas de São Tomé (mais propriamente no Chelin, ou kampung, isto é, bairro ou vila, Kling ou Keling, como é conhecido hoje no Kubu, o subúrbio noroeste de Malaca) e de Santo Estêvão (na margem ocidental do rio, oposta à moderna rua de Bunga Raya, a norte da cidadela) no kampung China.

Já mesmo no início do século XVII, no essencial, os portugueses continuavam a viver dentro da cidadela. Fora desta, desenvolviam-se o comércio (sobretudo no bazar dos javaneses, na Tranqueira) e alguma indústria, e surgiam também mais igrejas portuguesas e templos de outras religiões. No terreiro da Tranqueira (também conhecida como kampung Bendara ou ainda Tanjon Upe), existia ainda um pelourinho, perto da ponte que atravessava para a cidadela.

Muito do que sabemos acerca do passado de Malaca deve-se a Godinho de Erédia, filho de João Erédia e da filha do rei de Supa (ou Suppa), antigo reino na ilha Celebes. Supa situa-se ao norte de Macaçar, que foi território português entre 1512 e 1665 e pertence hoje à Indonésia (Sulawesi), ao norte de Timor. Entre os seus grandes objetivos, Godinho de Erédia pretendia descobrir as ilhas do Ouro, ou a Índia Meridional, o que corresponderia à atual Austrália. Ainda hoje se discute se Erédia (re)descobriu ou não a Austrália, ou se “apenas” seguiu as pegadas de anteriores marinheiros portugueses e/ou malaios.

Matemático, cartógrafo, cosmógrafo, marinheiro e escritor, entre a extensa obra de Erédia, a planta de Malaca (de 1604) mostra pormenores da localização da destacada torre de menagem da Famosa, onde se situava a casa do capitão, para o lado oriental do rio Malaca, no sudoeste da cidadela. Na Fábrica da Cidade de Malaca Intramuros, pode ver-se ainda a Igreja Matriz (ou catedral) ao lado da Famosa, a câmara municipal da cidade, a Misericórdia, o Hospital dos Pobres e o Hospital Real, a Igreja da Anunciada (cuja torre teria cerca de 30 metros de altura), ao lado do Colégio da Companhia de Jesus, o Palácio do Bispo, a Igreja de Santo António, no convento dos agostinhos (na parte nordeste da cidadela, perto das muralhas), a Igreja de São Domingos, no convento dos dominicanos (no canto noroeste da cidadela, embutido parcialmente na muralha) e a Torre de Sinos. No interior da cidadela, existiriam ainda as igrejas de Nossa Senhora da Assunção e de Nossa Senhora da Visitação e das Mercês.

Mais longe, mais longe

Para sueste, ainda segundo Erédia,  situava-se o subúrbio de Yler (atual kampung Bandar Hilir), com a Igreja de Nossa Senhora da Piedade. A nordeste, na colina chinesa (Bukit China) ficava o convento (e a igreja e ermida) da Madre de Deus e o convento dos capuchinhos de São Francisco. A Igreja de São Lourenço ficava na margem oriental do rio, no kampung Java (Jawa), do lado de lá em relação à Igreja de Santo Estêvão, portanto no subúrbio de Sabac (ou Sabba), agora conhecido como Bunga Raya. A montante do rio Malaca ficavam ainda as igrejas de São Lázaro, da Nossa Senhora de Guadalupe (no kampung Tampoi, mais de dez quilómetros a norte da cidadela, na margem oriental do rio) e de Nossa Senhora da Esperança. Consta que Malaca teria então cerca de 7400 cristãos, oito paróquias, catorze igrejas e duas capelas dos hospitalários, para além de diversos oratórios e ermidas.

Seriam, porém, mais as construções religiosas portuguesas do que as inventariadas por Erédia, ou o seu número terá certamente evoluído no tempo, como se pode ler no Guia Histórico de Malaca, publicado pela Sociedade Histórica de Malaca em 1924. Citando o comissário holandês Justus Schouten, que visitou o território aquando da sua conquista pelos holandeses, há então ainda a considerar, dentro da cidadela, a Igreja da Misericórdia (no sopé da colina de São Paulo), a Capela do Espírito Santo, no Hospital do Rei, e a Capela de Santiago do Espírito Santo, no Hospital dos Pobres, na couraça das muralhas da cidadela.

Fora da cidadela, encontrava-se a Igreja de Nossa Senhora do Amparo, cerca de onze quilómetros a noroeste, na esquina da atual estrada de Batang Tiga. Já a Igreja de Nossa Senhora das Boas Novas situava-se cerca de 800 metros a norte da cidadela, na margem oriental do rio, no fim da estrada da Boa Vista (atualmente, a zona de Bachang), assim apelidada pelos portugueses de antanho dados os extensos arrozais e coqueiros que de lá se podiam avistar. Por fim, são ainda de registar as ermidas de São Guilherme (800 metros a norte da cidadela, na margem oriental do rio, num pomar dos monges agostinhos), de São Jerónimo (cerca de 1500 metros a norte da cidadela, na margem oriental do rio, num pomar dos jesuítas, por detrás da colina Peringgit) e de Nossa Senhora da Vitória (na parte alta da margem ocidental do rio, noutro pomar dos jesuítas).

altReligião banida

Com a ocupação holandesa, o catolicismo foi proibido e o bispo e os padres de Malaca fugiram para Timor, Macaçar e Negapatam (território português no Coromandel, entre 1507 e 1657). De todas estas construções, em termos de vestígios portugueses, lamentavelmente, apenas restam hoje as ruínas da Porta de Santiago e das igrejas da Madre de Deus e de São Lourenço e suas múltiplas sepulturas. A intolerância religiosa holandesa levou os novos ocupantes a destruir todas as igrejas católicas que não fossem utilizáveis como armazéns ou guarnições.

Desde então, muito mudou em Malaca, e já nem a fortaleza portuguesa estaria hoje junto ao mar, como quando foi construída.  A traça da Malaca lusa, que separava os bairros étnicos, com as suas longas ruas estruturantes, ainda hoje se encontra, porém, viva na cidade: lá estão os kampungs chinês, chelin e do bendara. Segundo o livro Património de Origem Portuguesa no Mundo (Fundação Calouste Gulbenkian, 2010), muitas das casas construídas pelos portugueses também ainda hoje sobrevivem em torno do antigo terreiro da Tranqueira, sendo das partes urbanas mais bem conservadas de entre todas as que Portugal teve na Ásia.

O espírito dos descendentes portugueses foi, porém, mais forte do que o tempo e outras construções se seguiram à perda de Malaca para os holandeses. Quando a Holanda permite finalmente a liberdade de religião, os descendentes lusos construíram a Igreja de São Pedro, em 1710, num terreno doado por Franz Amboer, um converso católico malaio-holandês. Trata-se da mais antiga igreja católica em funcionamento na Malásia, contendo um sino proveniente de Goa e datado de 1608. Localizada em Bunga Raya, atual centro da moderna Malaca, a igreja mostra uma mistura de estilos arquitetónicos ocidentais e orientais e é muito importante para os católicos de todo o país.

Já em Singapura (que foi parte da federação malaia apenas entre 1963 e 1965), os portugueses vieram a construir a Igreja de São José, entre 1851 e 1853, tendo o padre Francisco da Silva Pinto e Maia, originário do Porto, ido de Goa para iniciar a Missão Portuguesa em Singapura em 1825. Entre 1906 e 1912, uma nova igreja, de impressionante estilo gótico, foi construída sobre o velho templo dedicado a São José, tendo sido declarada monumento nacional de Singapura em 2005. Até 1981, as paróquias de São Pedro, em Malaca, e de São José, em Singapura, foram parte da diocese de Macau.

Um legado cultural

A lembrar este espírito de persistência da memória e das tradições portuguesas, está a Flor de La Mar, a famosa nau de Afonso de Albuquerque (de 400 toneladas) que se afundou à saída de Malaca com um dos maiores tesouros de sempre da história marítima universal. Uma impressionante réplica em tamanho real da nau constitui hoje o Museu Marítimo de Malaca, que se deve visitar nos seus múltiplos convés. Quanto à descoberta dos destroços da Flor de la Mar por caçadores de tesouros submarinos ao largo de Samatra, o assunto continua por esclarecer totalmente, tanto mais que envolve também disputas de soberania entre a Malásia e a Indonésia.

Lobo, Vera, Costa, Teixeira, Albuquerque, Monteiro, entre outros, são nomes de famílias, de ruas ou de restaurantes de marisco que se podem encontrar no bairro português ou noutras partes de Malaca. Sobrevivendo até hoje, são os nomes dos primeiros capitães e soldados portugueses a chegar a Malaca, que se casaram com mulheres locais. Estima-se que existam cerca de 29 mil euro-asiáticos na Malásia, dos quais uma parte significativa é de ascendência portuguesa.

altUma língua para todos

A língua dos portugueses em Malaca era e é chamada “cristão”, o que prova que a passagem e militância protestante holandesa não influenciou muito os malaios. Com a ocupação holandesa, os portugueses e os seus descendentes euro-asiáticos apenas falavam cristão entre si e com outros habitantes de Malaca, vendo-se os holandeses forçados também a aprender e usar o cristão com frequência. Malaios, indianos e chineses, que faziam negócios com os portugueses, falavam igualmente o cristão, e mesmo já em 1930 os miúdos do bairro da Tranqueira ainda falavam em cristão, quando brincavam entre si.

A palavra “nazareno” transformou-se em serani/sirani, como eram também conhecidos os luso-descendentes pelos outros malaios. No kampung Serani (a vila ou bairro cristão), um subúrbio ocidental de Malaca, vieram a viver os mais abastados, e era aí que se situavam também as lojas mais caras do comércio e as dos artesãos. Gradualmente, os chineses vieram a ocupar Serani, enquanto os portugueses se foram afastando para as casas de verão na Tranqueira, ainda mais para oeste. Hoje, a Jalan (“rua”, em malaio) Portugis, no coração de Serani, já não tem sinais maiores da presença portuguesa.

As perseguições religiosas holandesas foram muito cruéis em relação ao catolicismo, ao mesmo tempo que permitiam alguns templos chineses, hindus e muçulmanos em Malaca. Os luso-descendentes foram forçados a rezar escondidos em plantações de cana de açúcar, tendo a Capela de Nossa Senhora da Assunção acabado por ser construída já em 1888, perto dessas plantações e, hoje, da casa da família Theseira (Teixeira), como escrevem os jornais malaios. Com outros luso-descendentes, os Theseira vivem atualmente em Praya Lane, bairro que fica entre o kampung Bandar Hilir (a ocidente) e Melaka Raya.

Associação secreta

Entre outras respostas contra a intransigência holandesa, formou-se a associação secreta Irmãos de Igreja, que defendeu a permanência do catolicismo em Malaca e o rosário como seu símbolo de adoração. A Ermida do Rosário vem a ser construída em torno de 1710, depois de concluída a Igreja de São Pedro.

Dos luso-descendentes de Malaca, com sangue europeu, malaio, chinês e indiano, cerca de um quarto terá nomes holandeses, cuja comunidade acabou miscigenada com os luso-descendentes, apesar da rigidez e dos maus tratos da administração holandesa. Eram chamados os burghers livres de Malaca, à semelhança do que aconteceu no Ceilão.

Já a administração britânica tratou com mais justiça e benevolência os luso-descendentes, que assim ganharam relevância na sociedade local. Em atenção às famílias mais necessitadas, o governo britânico de Malaca decidiu comprar terrenos nos pântanos perto da vila piscatória de Bandar Hilir (predominantemente luso-descendente), perto de Praya Lane, onde veio a construir-se, em 1933, o­ ­atual bairro português, kampung Portugis.

Durante a Segunda Guerra Mundial, aquando da invasão japonesa da Malásia, o bairro português de Malaca esteve cercado pelos japoneses, que acusavam os luso-descendentes de serem colaboradores criminosos dos britânicos. Juntando-se à resistência e criando um batalhão de euro-asiáticos, entre as perdas humanas, cerca de um décimo dos nomes dos mortos honrados no município de Malaca eram portugueses.

Hoje, o bairro de Praya Lane já não fica junto à praia, para tristeza da sua antiga comunidade piscatória, dados os terrenos conquistados ao mar desde 1974. As ruínas da Ermida do Rosário, abandonada no fim do século XIX, localizam-se hoje sobre as ruínas da Igreja de São Lourenço, em Bunga Raya. Em 2006, breves trabalhos de restauro foram executados pelo ministério malaio da Cultura para preservar este local histórico, mas não o suficiente para evitar a sua contínua degradação. Os Irmãos de Igreja têm lutado por um restauro duradouro e pelo tratamento condigno das ruínas.

Em Malaca, podem encontrar-se ainda comunidades de luso-descendentes no kampung Tengah e no kampung Kubu, e todos eles celebram alegremente o Entrudo, tal como em Praya Lane ou no kampung Portugis. Também em Kuala Lumpur e em Seremban (capital de Negeri Sembilan, o estado vizinho de Malaca) se encontram comunidades prósperas de luso-descendentes.

Natal e santos populares

No Natal, as casas do kampung Portugis são iluminadas por velas nos seus muros e varandas, e a Igreja de São Pedro reúne muita gente também durante a Páscoa. Em Setembro, na capela da colina de Malim, celebra-se a Santa Cruz, mas são as festas de São João e de São Pedro, no mês de Junho, que trazem mais católicos de toda a Malásia a Malaca. Aliás, essa semana de festas, como se fosse um qualquer bairro de Lisboa ou do Porto, atrai muitos outros turistas ao kampung Portugis, onde se servem deliciosos pratos típicos da cozinha malaio-portuguesa e se podem ver as “minhotas” de Malaca nos ranchos folclóricos.

No kampung Portugis, onde conheci Sara Frederica Santa Maria, o número de habitantes não supera os 1500, mas a geração mais velha ainda fala o cristão, ou papía kristang. Aprendendo a falar o papía na família com a sua avó, os antepassados de Sara terão vindo também da China e talvez de Goa. O marido de Sara é de Sabah, na parte malaia do Bornéu, pertencendo às etnias Kadazan-Dunsun, típicas da área, o que só revela a multiplicidade étnica da Malásia.

Sara tem apenas uma dezena de alunos entre os sete e os onze anos, esforçando-se por manter o papía vivo e ensinando-lhes também os cantos e danças das tradições portuguesas. Seria muito importante que a Fundação Oriente ou outras entidades portuguesas dessem mais apoio a pessoas como Sara, que prestam um serviço inestimável para manter uma cultura única.

Para aprender umas palavras do papía, pode ver o blogue de Sara, em http://www.santamaria-familia.blogspot.com, ou o jornal Papía Português (http://malaca-portugal.blogspot.com). Neste último, pode ler-se também sobre o trabalho da portuguesa Bárbara Candeias, que foi bolseira do Instituto Camões, do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e professora de português em Malaca, entre 2009 e 2011. Por procurarem preservar a cultura dos luso-descendentes, merecem bem um mutu grandi merseh.

P.A.

 

Impressões pessoais

Malaca acabou por se juntar à Malásia, que foi uma das joias da coroa britânica, produzindo metade do estanho e da borracha mundiais, no início do século XX. Tal trouxe uma imigração massiva de chineses e indianos para trabalharem nas minas, nas plantações e na construção dos caminhos-de-ferro, pois os britânicos tinham feito a dragagem de pântanos e a limpeza de florestas para aumentar a atividade económica malaia.  É precisamente por necessitar destas matérias-primas que o Japão invade a Malásia durante a Segunda Guerra Mundial, depois de invadir a China, aproveitando-se das estruturas e vias de comunicação britânicas para ocupar o país entre 1942 e 1945.

A Malásia tem hoje uma população de 27 milhões de habitantes, da qual os malaios representam 57 por cento do total, sendo os chineses e indianos os outros grupos étnicos de maior importância, num país onde o Islão é a religião oficial, mas onde a tolerância por outros cultos é a norma. Assim, é natural ver em cada esquina letreiros escritos simultaneamente em chinês, bahasa malaio, inglês e árabe.

Os odores de Malaca e o exotismo dos tecidos dos sarongues juntam-se numa certa atmosfera “mágica” que se sente na Malásia, onde quase podemos imaginar que, de facto, existem os Orang Utang, “pequenos homens da floresta”. Malaca, em particular, é uma das mais turísticas cidades do país, um caldeirão onde se misturam as culturas malaia, baba-nyonya, chitty, islâmica, indiana, anglo-malaia, portuguesa e holandesa. Os baba-nyonya são os descendentes (peranakan, em malaio) dos chineses que primeiro visitaram Malaca, casando com mulheres locais e formando a comunidade dos “chineses do estreito”. As suas casas-museu são visita obrigatória na cidade, bem como o museu dedicado ao almirante Cheng Ho. Entre 1405 e 1433, o grande navegador chinês realizou sete expedições que ficaram conhecidas como “as viagens oceânicas ocidentais”. Estabelecendo entrepostos em Malaca, Samatra e Calcutá, a frota de Cheng Ho dividiu-se depois noutras direções. A primeira viagem deu-se em 1405–1407 e visitou Malaca, que passou a ser um porto importante para a China, ajudando-a a libertar-se da ameaça do controlo por parte do vizinho Sião.

A presença chinesa em Malaca é massiva, sendo o cemitério de Bukit China (e de outras colinas circundantes) uma das maiores e mais antigas necrópoles chinesas fora do seu país. Estima-se em cerca de 12 mil o número de túmulos, datando as mais antigas do tempo da dinastia Ming (1368–1644). O que mais me impressionou no cemitério chinês no sopé da colina de Senjuang (São João) foi ver tantas pequenas pedras (por vezes ladeadas por movimentadas estradas cheias de automóveis), como peões de xadrez a marcar tantas vidas idas, peças de dominó caídas em filas e filas, sem grande respeito por quem já viveu.

Apesar de, hoje, Malaca parecer uma cidade tranquila e de algum modo adormecida, é de facto a riqueza cultural que justifica a sua inclusão no património mundial pela UNESCO. A Igreja de São Pedro não foi, por exemplo, a única a surgir aquando da abertura religiosa dos holandeses: a mesquita do bairro da Tranqueira, uma das mais velhas de Malaca, foi construída em 1728, refletindo elementos arquitetónicos únicos, numa síntese de estilos e ornamentos indianos, chineses, malaios e indonésios.

Não existe apenas o bairro português de Malaca, mas também o kampung dos chitty (ou chetti), que hoje vivem maioritariamente no noroeste da cidade. Trata-se de uma comunidade de descendentes indianos, ou mais propriamente da costa do Coromandel, que vieram na idade do comércio das especiarias e, embora tenham adotado muito dos costumes malaios e casado com mulheres de Malaca, ainda mantêm o hinduísmo, apesar de já mal falarem o tamil. Seriam os chelins que já Erédia mencionava.

Outras comunidades encontram-se também hoje (e já no tempo da chegada dos portugueses) presentes em Malaca, com destaque para os minangkabau, que se estabeleceram a norte de Malaca, depois de emigrarem de Samatra, onde são das etnias mais importantes. Apesar de seguirem o Islão, os minangkbau constituem uma das maiores sociedades matriarcais no mundo, sendo conhecidos pelos holandeses pela sua ferocidade, e tendo ajudado à derrota de Portugal em 1641. Os bugis e os javaneses de Malaca apresentam igualmente vestimentas exóticas, mas as mulheres minangkabau são de longe as mais exuberantes.

O centro histórico de Malaca tem como ponto de referência a praça Holandesa. Aqui fica a Igreja de Cristo e o imponente Stadthuys, datado de 1645 (provavelmente, a mais velha das construções holandesas no Oriente), que era a antiga residência dos governadores. No Museu de História e Etnografia de Malaca, pode visitar-se também uma enorme estátua de Cheng Ho, e no centro da praça fica ainda a fonte da rainha Vitória, construída pelos ingleses. Daqui pode apanhar-se um colorido triciclo (riquexó) a pedal, em que o motorista nos leva em cinco minutos à Porta de Santiago e à copia do século XV do palácio do sultanato de Malaca.

 

SUPER 167 - Março 2012


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