A apoteose dos castrati

Super-estrelas do barroco

altEram operados na adolescência para o timbre da voz soar sobrenatural, entre a delicadeza feminina e a potência masculina.

Farinelli canta Lascia ch'Io Pianga e todo o teatro vibra. Luxuosamente trajado, o castrato projeta a sua envolvente voz de soprano enquanto as damas parecem prestes a desmaiar. O próprio Händel, autor da composição, parece estar à beira de desfalecer. Trata-se de uma cena do filme Farinelli, com o qual o realizador belga Gérard Corbiau obteve grande êxito, em 1994, ao recordar a esquecida transcendência daqueles cantores.

A película, apesar dos elementos fictícios, recriou com realismo a glória e as misérias dos castrati, que conheceram o êxito e se converteram, por vezes, em grandes ídolos, rodeados de brilhos e opulência e seguidos por fãs enlouquecidos, como uma Lady Gaga ou um Justin Bieber.

Por detrás das bambolinas que envolviam a vida dos que triunfavam (e ainda mais a dos que não passavam do coro paroquial), permaneciam as sequelas da operação que lhes assegurara a preservação dos agudos vocais, quando eram ainda adolescentes, e os convertera em seres incompletos. A castração, além da óbvia privação sexual, tinha consequências físicas e psicológicas difíceis de suportar.

Desde os sumérios

Como tantos outros maus costumes humanos, os eunucos estiveram presentes nas civilizações mais antigas, como a suméria, a egípcia e a chinesa, nas altquais chegaram mesmo a adquirir relevância política. Seria lógico pensar que as suas aptidões musicais eram disfrutadas nas cortes de que faziam parte, mas só foram encontradas referências na Suméria, e não muito claras. As primeiras alusões diretas surgem apenas na época da corte bizantina, com toda a sua pomposa solenidade.

No final do século IV, Élia Eudóxia, mulher do imperador Arcádio, menciona o apreço pelo eunuco que dirigia o seu coro privado. Presumivelmente presentes em muitas mansões aristocráticas de Constantinopla, os cantores castrados deixam de ser referidos a partir de 1204, ano em que a cidade é saqueada pelas hostes ocidentais da Quarta Cruzada.

A partir de então, não há sinais da sua presença até à Ibéria muçulmana, onde poderiam ocultar-se por detrás dos denominados "falsetistas". Esses sopranos que forçavam a voz para agudizá-la ao máximo poderão ter sido, na realidade, eunucos que viviam nas cortes do sul da península Ibérica, tão associadas às tradições orientais. O falsete era um registo vocal conhecido em vários países, como a Itália, onde se alude abertamente aos castrati, pela primeira vez, em pleno Renascimento.

Contudo, essa primeira referência é encapotada pela denominação soprano maschio (soprano masculino), utilizada por Luigi Dentini no texto Due Dialoghi della Musica, publicado em Roma, em 1553. É com o termo cantoretti francesi que são referidos pelo cardeal Hipólito II d'Este, numa carta escrita a 9 de novembro de 1555 a Guglielmo Gonzaga, duque de Mântua. No mesmo período, são já diretamente mencionados como castrati em textos encontrados em Roma e Ferrara.

Proibição papal

altA denominação estendeu-se pela Europa, embora houvesse variações: na península Ibérica, eram conhecidos por "capões". Qualquer que fosse o nome, o seu êxito cresceu quando o papa Paulo IV proibiu, em meados do século XVI, a presença de mulheres em palcos, invocando uma sentença da primeira epístola de São Paulo aos coríntios: "As vossas mulheres estejam caladas nas congregações, porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei." Foi assim que igrejas e teatros se encheram de falsetistas, que seriam depois substituídos por castrati. Aconteceu no coro da Capela Sistina, no qual o mesmo pontífice, promotor da Inquisição romana e violento repressor, vetou a presença de cantores casados.

No âmbito papal, o vocábulo castrati só começaria a ser oficialmente utilizado em 1599, quando foram admitidos no coro Pietro Paolo Folignato e Girolamo Rossini. Oficializado assim o seu papel no Vaticano, é de supor que a presença dos angelicais intérpretes fosse habitual em palácios e igrejas de todo o Velho Continente, embora só se tenha encontrado testemunho das suas atuações em Munique, cuja capela da corte ducal tinha um coro de eunucos dirigido pelo compositor Orlando di Lasso.

Principiava assim a época dourada dos castrati, que iria transformar alguns em verdadeiras estrelas do momento, adorados por numerosos e entusiastas seguidores, que eram igualmente admiradores da parafernália de luxo e ostentação que envolvia a vida dos seus ídolos: as enormes somas de dinheiro que recebiam pelas suas atuações ultrapassavam folgadamente os salários de quaisquer outros artistas.

É o caso recuperado pelo filme de Corbiau: Farinelli (1705–1782), que se chamava na realidade Carlo Broschi, foi um dos maiores divos do século XVIII. Houve árias especialmente criadas para as 3,4 oitavas que a sua voz alcançava, o que lhe permitiu sair vitorioso, em mais do que uma ocasião, dos duelos de resistência e tom travados com outros cantores e mesmo com trompetistas.

 

SUPER 223 - Novembro 2016

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