Na pista dos templários

A epopeia lusa dos monges

altOs cavaleiros do Templo viveram sob um manto de mistério e magia, originando inúmeros mitos e lendas que ainda hoje nos fascinam. Percorremos o país e revelamos-lhe alguns segredos da primeira ordem militar da história, fundamental para a formação de Portugal e para a Reconquista cristã, tanto na Terra Santa como na península Ibérica.

Estamos no ano da graça de 1190, e o Castelo de Tomar está cercado pelos mouros há seis dias. De repente, rasgando a escuridão da noite, sob a luz das estrelas e das labaredas dos archotes, surge, no cimo da Mata dos Sete Montes, uma hoste muçulmana formada por milhares de guerreiros árabes chefiados por Iacub Al-Mansur (Almansor), rei de Marrocos. Estas forças mouriscas têm vindo a conquistar e saquear castelos e povoações, desde o Algarve até ao Ribatejo, e prometem tomar agora o principal bastião dos templários portugueses.
Reza a história que esta terá sido uma contenda muito desequilibrada, pois dentro das muralhas do castelo estariam apenas cerca de duas centenas de defensores da Ordem do Templo, comandados por um velho guerreiro, Gualdim Pais, de 72 anos. Porém, estes eram homens afoitos, com uma coragem e determinação férreas, que pertenciam à instituição mais promissora e prestigiada da cristandade, cujo lema era "Jamais virar as costas a qualquer inimigo da fé cristã".

Os monges guerreiros intramuros uniam a fé e a espada com o objetivo de levar a cabo uma guerra em nome de Deus, tendo por isso conseguido repelir várias tentativas de assalto à fortaleza perpetradas pelos árabes. Um dos combates mais violentos aconteceu na porta de Almedina que, nesse tempo, dava acesso à povoação dentro das muralhas. Terá sido um confronto tão sangrento que, desde aí, o acesso passou a chamar-se "Porta do Sangue".

altPorém, esse foi um sangue de boa memória: apesar da enorme diferença entre o número de beligerantes de ambos os lados da barricada, a luta terminou com a vitória dos cristãos, "com a valentia de D. Gualdim e a força de Deus, para bem de Tomar e de Portugal", ouviu-se nos altifalantes da recriação histórica, a que assistiram centenas de pessoas, no passado mês de julho, exatamente no mesmo local onde há 826 anos ocorreu a memorável escaramuça.

Aqui chegados, impõe-se perguntar: quem eram, afinal, estes (des)temidos guerreiros do Templo?

Primeiros cavaleiros

Nos séculos X e XI, institui-se na Europa o feudalismo. Num ambiente de insegurança reinante, os camponeses, cada vez mais pobres, não têm outro remédio senão recorrer aos senhores em busca de proteção. Assim, das cinzas de uma Europa arrasada pelas invasões (bárbaro-germanas, muçulmanas, vikings, normandas, eslavas, magiares, etc.), surgiu uma aristocracia guerreira, que construía castelos e se propunha reunir contingentes armados, formados sobretudo por guerreiros a cavalo, capazes de proteger os seus patrimónios e os seus subordinados, tanto dos invasores como dos senhores feudais rivais, que pretendiam ampliar a sua riqueza e o seu poder.

Naquele tempo, os senhores feudais asseguravam a continuidade do seu poder através da herança, que era atribuída exclusivamente aos filhos varões primogénitos, ou seja, aos mais velhos. Assim, aos restantes filhos varões restavam duas soluções: optar pela carreira eclesiástica ou pela das armas, tornando-se cavaleiros, sendo que esta última deveria ser desenvolvida longe da casa-mãe, de modo a evitar a todo o custo as rivalidades entre irmãos.

altAs convulsões socioeconómicas da Alta Idade Média, entre os séculos V e XII, não levaram apenas ao surgimento e à expansão do feudalismo, mas contribuíram também para um crescimento acentuado do cristianismo. Através da fé, a religião cristã impôs-se como elemento aglutinador de uma Europa dividida e decadente, onde se assistia à precaridade da subsistência, ao crescente barbarismo dos costumes e a um clima de permanente instabilidade e insegurança.

Como os clérigos eram, naquele tempo, os únicos que sabiam ler e escrever, assumiam-se como depositários fundamentais do legado cultural greco-romano na Europa, granjeando o respeito dos senhores feudais e da nobreza. Estes não só apoiaram a propagação da fé cristã, como concederam benefícios especiais aos clérigos e doaram bens valiosos à Igreja na esperança de assegurarem a salvação das suas almas pecadoras. Desde modo, embora a Igreja criticasse as guerras e os guerreiros movidos por instintos demoníacos, acabou por integrar-se na lógica feudal para poder defender e ampliar o seu património, aumentando consideravelmente a sua importância económica e social.

Legalmente, o clero não podia usar armas nem combater. Assim, tal como os senhores feudais, recorreu ao serviço de cavaleiros para se proteger. Surgiram então os exércitos ao serviço da fé, que ficaram conhecidos como "defensores da Igreja" ou "soldados da Igreja". Em complexas cerimónias cheias de simbolismo, os monges entregavam-lhes as armas e o estandarte do santo patrono do mosteiro sob o qual lutariam e matariam, se necessário. Foi o primeiro passo para a sacralização da cavalaria e para o culto dos santos de cariz militar ou cavaleiresco, como S. Miguel ou S. Jorge, o santo cavaleiro por excelência. Assim, criaram-se diversas confraternidades ou irmandades de cavaleiros, que se propunham defender a Igreja, os templos, os mosteiros e os inermes.

altGuerra santa

Durante o século XI, assistiu-se à procura de um cristianismo mais autêntico, que tentou estancar o relaxamento de costumes que havia invadido a vida monástica e eclesiástica, levando ao surgimento de várias organizações monacais, como a Ordem de Cister (fundada em 1098), cujos monges faziam voto de pobreza e tinham como único sustento o trabalho na comunidade.

A pobreza assumida e a renúncia ao supérfluo dos monges cistercienses, inspiradas no pensamento de Bernardo de Claraval, eram evidentes nos seus mosteiros, que sempre pugnaram pela simplicidade, e nos seus hábitos brancos, que simbolizavam a pureza e a luz de Deus. Um bom exemplo desta arquitetura despojada, simples e fria, mas luminosa, encontra-se no Mosteiro de Alcobaça, fundado em 1153 e concluído em 1252.

Em 1095, o papa Urbano II proclama a Cruzada no Concílio de Clermont, que deveria envolver todos os cristãos, do mais importante dos nobres ao mais humilde dos deserdados, e que pretendia restaurar a honra de Deus, manchada pela presença de infiéis nos Lugares Santos. Aos participantes era prometida a mais apreciada das recompensas: o perdão dos pecados, para os que sobrevivessem, e a salvação das almas, para os que morressem nessa campanha militar.

Essa primeira Cruzada, constituída por cerca de 7000 cavaleiros e 80 mil peões, haveria de dar os seus frutos em 1099, quando os cruzados (assim chamados porque estavam "marcados com a cruz": eram abençoados pelo Papa e ostentavam uma cruz de tecido cosida na parte superior dos braços dos fatos) conquistam Jerusalém aos mouros fatimitas (uma das designações dadas aos xiitas ismaelitas). Jerusalém, uma das cidades mais antigas do mundo, tem sido disputada desde tempos seculares por vários povos, pois constitui uma referência fundamental para três religiões abraâmicas (religiões monoteístas cuja origem comum é reconhecida em Abraão): o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

 

SUPER 224 - Dezembro 2016

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