Cinema pré-histórico

altUma invenção com 30 mil anos?

Os nossos antepassados pré-históricos sabiam contar narrativas complexas utilizando pinturas e gravuras rupestres e representar o movimento dos animais. Terão sido os primeiros cineastas?

Imaginemos uma cena que se passa há 15 mil anos, numa gruta profunda e escura de um lugar indeterminado da actual Europa. À luz de uma chama vacilante, um homem prepara pigmentos vermelhos e pretos e desenha numa parede de rocha um cavalo magnífico, que parece galopar como se surgisse do fundo da caverna. A arte rupestre desenvolveu-se há entre 32 mil e 15 mil anos atrás, em toda a Europa ocidental, desde o Cáucaso a Portugal. Foi sobretudo em cavernas, mas também em algumas zonas a descoberto, como no vale do Côa. Os cientistas que estudam estas manifestações artísticas continuam impressionados com a perfeição técnica dos pintores e o seu apurado sentido de observação em relação aos animais que desenhavam (cavalos, bisontes e bovídeos).

Muito recentemente, uma nova hipótese sobre a arte rupestre faz mais uma vez progredir a nossa visão sobre o assunto: os artistas da pré-história não só teriam inventado a pintura e a gravura há mais de 30 mil anos, como também saberiam representar o movimento e conheceriam a técnica da animação... Além disso, teriam mesmo inventado um antepassado do animatógrafo! Esta hipótese surpreen­dente acerca de uma origem pré-histórica do cinema foi avançada pelo cientista francês Marc Azéma, que faz parte da equipa que estuda a gruta de Chauvet, na região francesa de Ardèche, no Sul do país: “Ao longo da minha investigação das grutas pintadas, descobri que os artistas representavam imagens animadas e não fixas, e que contavam cenas complexas, com sequências sucessivas e um sentido de leitura, como na banda desenhada ou no cinema dos nossos dias.”

A intuição de que as imagens pré-históricas são talvez animadas com o fim de “dar vida” aos animais chegou há vinte anos. Nessa altura, Azéma estudava um osso com uma escultura de três leoas representadas numa pose de corrida, descoberto numa gruta francesa datando do período magdalenense (há entre 14 mil e 12 mil anos). O felídeo aparece representado em três posições sucessivas, justapostas e orientadas na mesma direcção. “O escultor foi capaz de decompor o movimento do leão, que parece correr à frente dos nossos olhos”, conclui o investigador. A partir desta primeira descoberta, o cientista procurou, noutros vestígios do Paleolítico, indícios da representação do movimento. Esta busca levou-o, por exemplo, às grutas francesas de Niaux, no Ariège, não tão célebres como as de Altamira, Lascaux ou Chauvet, mas que encerram bisontes e cabras selvagens de uma rara beleza, pintados há 13 mil anos.

Documentários em pedra

Na continuação da sua pesquisa, analisando no computador as fotografias das pinturas e gravuras tiradas nas grutas, Marc Azéma des­cobriu a maneira como as imagens eram animadas e confirmou, pouco a pouco, a sua primeira intuição: “Descobri que 41 por cento dos animais representados na arte rupestre em França eram reproduzidos numa situação activa correspondente a um comportamento bem determinado, como a emboscada, a pré-cópula ou a submissão. Através dessas acções, os pintores produziram verdadeiros documentários sobre animais nas paredes da gruta, numa sucessão de painéis e com um sentido de leitura, como na banda desenhada.”

Por exemplo, na sala do fundo da gruta de Chauvet, está relatada uma cena de caça: “Há vários leões que estão emboscados no lado esquerdo, com as orelhas inclinadas para trás e a cabeça baixa, para não serem vistos”, explica Azéma. “Do lado direito, é o ataque: a horda de leões aparece junto de uma manada de bisontes que tenta fugir. O que é surpreendente é que os dezasseis felídeos atacantes aparecem em dois níveis paralelos, que evocam dois planos diferentes. O conjunto das figuras aparece como uma vista panorâmica. Parece uma linguagem cinematográfica primitiva...”

Outra importante descoberta realizada ao longo das prolongadas estadas na obscuridade desses santuários pintados: os artistas tiveram a ideia, genial, de sobrepôr várias imagens muito semelhantes para representar o movimento do animal. Assim, na gruta de Chauvet, existe um bisonte que está representado com oito patas, em vez de quatro: “Temos a impressão de que ele galopa na parede, sobretudo nas condições especiais dessa gruta, na penumbra e com a iluminação trémula das tochas. Em França, 53 figuras em doze grutas pintadas utilizam esse método gráfico, que implica sobretudo os movimentos das patas e as deslocações rápidas (trote, galope), mas por vezes também o movimento da cabeça, e algumas vezes da cauda.”

Em Lascaux, duas dezenas de animais, sobretudo cavalos, estão representados com a cabeça, as patas e a cauda desmultiplicadas. Uma técnica que também foi utilizada em Altamira, em Espanha, num bisonte do “Grande Tecto” daquela gruta madgalenense.

Porém, foi em Portugal, no vale do Côa, que a técnica foi utilizada na sua forma mais aperfeiçoada. O vale do Côa é uma das mais importantes jazidas mundiais de arte rupestre, a maior colecção destas manifestações pré-históricas realizadas ao ar livre. Foram ali encontrados cinco dezenas de núcleos de arte rupestre que se estendem ao longo de 17 quilómetros, junto à confluência do Côa com o Douro. No vale do Côa existem milhares de gravuras pré-históricas, a maior parte datando do Paleolítico superior (há mais de dez mil anos atrás anos). A arte do Côa foi classificada pela UNESCO, em 1998, por ser “uma ilustração excepcional do desenvolvimento repentino do génio criador, na alvorada do desenvolvimento cultural humano, demonstrando, de forma excepcional, a vida social, económica e espiritual do primeiro antepassado da humanidade”.

Entre as gravuras do Côa, os investigadores identificaram a técnica de sobreposição e justaposição de imagens em muitas cenas gravadas na pedra. Aparece, por exemplo, na figura da cabra montês da rocha 3 da Quinta da Barca, cuja cabeça está orientada em duas direcções diferentes. “Mas há muitos outros exemplos representativos de animação na arte paleolítica conservada ao ar livre no vale do Côa”, explicam os arqueólogos Luís Luís e Thierry Aubry, do Parque e do Museu do Côa. “Por exemplo, no sítio de Fariseu, esta técnica foi utilizada em várias das 94 figuras da rocha 1, como cavalos e touros selvagens. Por outro lado, do estudo da sobreposição das várias camadas de imagens e a partir de datas obtidas a partir de diversos métodos, entre os quais o carbono-14, ficou demonstrado que essas gravuras datam pelo menos de há 18.400 anos. Isto significa que as representações do movimento no vale do Côa são anteriores ao Madgalenense, período em que aparecem com mais frequência nas grutas e em suportes mobiliários na Europa, e datam provavelmente do Gravetense.”

altA prova definitiva

Será que os nossos antepassados utilizavam a animação para transmitir os seus mitos mais profundos? Apesar de um grande número de observações realizadas, faltava ainda uma prova experimental indiscutível, que pudesse convencer os mais cépticos. Essa prova surgiu em 2007, a partir de uns curiosos objectos circulares em osso, descobertos em várias jazidas paleolíticas do Sudoeste de França, como Laugerie Basse, com 15 mil anos. Na altura da descoberta, foi Florent Rivère, investigador que realiza experiências em técnicas pré-históricas, que informou Marc Azéma da existência desses discos em osso, com quatro a cinco centímetros de diâmetro, decorados de ambos os lados com animais em posições diferentes.

Apesar de serem conhecidos desde há dezenas de anos, esses discos furados no centro deixaram os cientistas perplexos durante muito tempo. Seriam botões enfeitados, destinados a fechar os casacos de pele de animal usados pelos caçadores-recolectores da idade da pedra? Seriam pendentes, trazidos sobre o busto como sinal de filiação num grupo ou numa casta? Porém, Rivère e Azéma tiveram uma inspiração: e se cada disco fosse um pequeno brinquedo óptico, capaz de dar a ilusão do movimento do animal quando o faziam girar? Não era possível realizar uma experiência utilizando os objectos originais, guardados com grandes precauções nos museus. “Para verificar esta hipótese, Florent Rivère efectuou uma reprodução experimental, idêntica em tudo ao original, de alguns desses discos, em particular o de Laugerie  Basse, que representa um herbívoro em posição de pé e deitado”, conta Marc Azéma.

Depois de recortado, polido e gravado, bastou enfiar um tendão no furo central e fazer girar o disco a grande velocidade. Surpresa: o movimento circular provoca a sobreposição das duas imagens na retina, e o animal cai e levanta-se numa fracção de segundo (ou vice-versa). Segundo Azéma, “os artistas paleolíticos inventaram o primeiro thaumatropo, esse brinquedo óptico que se pensava ter surgido em 1825 e ser um antepassado directo do cinema.”

altA magia do movimento

Para que poderia servir o instrumento? “Observando os pequenos desenhos animados, os homens deviam contar histórias ligadas a cenas de caça, com os animais vivos e abatidos, ou levantar questões de carácter simbólico, existenciais e metafísicas, como no caso de discos com uma representação de um animal jovem e adulto, vivo e morto. De qualquer maneira, esse tipo de projecção permite-nos entrar no imaginário dos homens do Pa­leo­lítico”, responde o cientista.

Teriam sido os nossos antepassados pré-históricos os primeiros cineastas? Para o pré-historiador francês Jean Clottes, “estes estudos mostram que certos homens do Paleolítico tentaram captar o movimento dos animais utilizando os meios que tinham ao seu alcance, e a experiência óptica feita com esses objectos e o thaumatropo é muito convincente”. Esta descoberta revela-nos uma nova visão sobre os conhecimentos e o génio daqueles nossos antepassados remotos, cujas sociedades de caçadores-recolectores se baseavam em mitos certamente complexos. Mitos que eles eram capazes de animar como por magia, e que retomam vida hoje, diante dos nossos olhos.

P.L.

 

Da caça ao xamanismo e à astronomia

Porque é que os homens do Paleolítico superior, na Europa ocidental, desceram ao fundo das grutas de Lascaux, Chauvet, Niaux ou Altamira, há entre 32 e dez mil anos atrás, para lá pintarem e gravarem milhares de animais, reproduzindo o que observavam à sua volta? Sem vestígios escritos, é impossível ter uma certeza sobre o sentido exacto destas obras.

No princípio do século XX, avançou-se a ideia de uma actividade de magia ligada à caça, segundo a qual estes artistas pré-históricos pintavam os animais nas paredes para os “capturar” simbolicamente e assim facilitar a caça. Depois veio a teoria estruturalista, segundo a qual as grutas ornadas são um reflexo de mitos fundadores dos caçadores-recolectores, a representação da sua cosmogonia sob a forma de painéis organizados.

Uma hipótese xamânica foi avançada pelos cientistas Jean Clottes, em França, e David Lewis-Wiliams, na África do Sul; segundo esta teoria, as pinturas rupestres seriam a imagem de animais-espíritos que “visitavam” os xamãs (feiticeiros) nos seus momentos de transe. A teoria mais recente propõe a ideia de que essas pinturas teriam sido realizadas no âmbito de observações dos ciclos da Lua, do Sol e mesmo de algumas constelações mais importantes. A única certeza é que a arte rupestre foi realizada no âmbito de uma visão mágica ou religiosa que devia estruturar as sociedades do Paleolítico: como explicar de outra forma o tempo e a energia gastos no fundo dessas grutas pelos artistas da pré-história?

 

SUPER 158 - Junho 2011


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