O treino mental

Como fabricar super-atletas

altHá um segredo que liga Éder e Michael Phelps, e que até inclui as melhores empresas mundiais: o trabalho mental, uma preparação feita na sombra mas que é cada vez mais visível, à luz de designações como coaching, consultoria emocional ou programação neurolinguística.

O ano de 2016 será inesquecível para os portugueses amantes do futebol: pela primeira vez, a Seleção Nacional sagrou-se campeã da Europa, vencendo a França, em Paris, na final. Melhor do que isso, tudo se passou num cenário totalmente surpreendente: sem o melhor jogador, Cristiano Ronaldo, lesionado na fase inicial do encontro, e com um golo do avançado mais menosprezado, o sempre minimizado Éder. A juntar a este cenário, mais dois pormenores com total significado: embora lesionado, Ronaldo passou toda a segunda parte e o prolongamento junto à linha, incentivando e dando apoio moral aos seus colegas de equipa; no final, Éder agradeceu o golo à sua mental coach, Susana Torres. Uma palavra comum aos dois, Cristiano e Éder, o super-atleta e o menosprezado: a mente. Um transmitiu a força mental aos colegas, o outro absorveu uma força mental que lhe foi destinada e concretizou o objetivo.

A visualização de Phelps

Este episódio provou que no mundo do desporto (e não só...) há algo mais para além do treino e da força física. A preparação mental é atualmente uma das chaves do sucesso no desporto de alta competição. Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos no Rio de Janeiro, que sucederam ao Europeu de Futebol, mostraram que um super-atleta é hoje, acima de tudo, o produto de um grande treino mental. Os paralímpicos são muitas vezes designados como super-atletas porque a sua persistência, tenacidade, coragem e confiança lhes permitem ultrapassar as limitações físicas, mas gigantes como Michael Phelps e Usain Bolt não são apenas músculos e técnica...

altO treino mental de Phelps é, aliás, bem conhecido, pois foi divulgado pelo próprio treinador, Bob Bowman, que trabalha com ele desde os 11 anos: recorrendo à visualização, e ao poder do hábito, Bowman pedia a Phelps que, no final de cada treino, fosse para casa e colocasse um vídeo a correr; devia fazê-lo antes de dormir e ao acordar. Esse vídeo não era real, era apenas uma visualização da prova perfeita. Graças a este método, às qualidades físicas e técnicas de Phelps juntou-se uma força mental que o tornou praticamente imbatível. Mesmo quando aconteceram adversidades, como nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008): nos 200 metros mariposa, os seus óculos encheram-se de água, mas Phelps completou os restantes 75 m de olhos fechados e ganhou a medalha de ouro. Devido à repetição do filme, decorara o trajeto, dominara-o mentalmente, e mesmo de olhos fechados continuou totalmente ciente dos seus movimentos!

Bowman contou, em diversas entrevistas, o segredo de Phelps: "Ele é o melhor que eu já vi (e provavelmente o melhor de sempre) em visualização. Quando vai nadar, já programou todo o seu sistema nervoso para fazer tudo o que for necessário para vencer, mesmo quando existem imponderáveis", disse o treinador ao Business Insider, em junho.

O caso de Michael Phelps é provavelmente o mais conhecido e o mais estudado, e terá contribuído para que o treino mental se tenha tornado cada vez mais indispensável no desporto de alta competição.

Da Hungria para o mundo

altEm Portugal, apenas episódios ocasionais foram dando conta, nos últimos anos, de uma nova realidade na preparação desportiva. Antes da tirada de Éder após a final do Europeu ("Foi um golo trabalhado desde o primeiro minuto. Quero dedicar o golo à Susana Torres, a minha coach de alta performance. Deviam conhecê-la"), ficou célebre a forma como Luiz Felipe Scolari, selecionador nacional de futebol entre 2003 e 2008, motivava os seus jogadores: primeiro com a leitura de A Arte da Guerra, do general chinês Sun Tzu, escrito há 25 séculos, e depois com trechos de Voando Como a Águia, do brasileiro João Roberto Gretz.

Na verdade, a referência a uma obra tão antiga como A Arte da Guerra mostra bem como vem de longe a técnica do treino mental. Aliás, há quem atribua a invenção do coaching a... Sócrates! Claro, não se chamava coaching, mas já era um método filosófico para fazer as pessoas refletirem e identificarem o seu próprio potencial.

A palavra inglesa coach tem origem na cidade húngara de Kocs, nos séculos XV ou XVI, onde surgiram os primeiros coches, que viajavam entre Budapeste e Viena. Em finais do século XVIII, em Inglaterra, as corridas a cavalo com coches tornaram-se um desporto de elite, que se denominou coaching; no século seguinte, os universitários passaram a utilizar o termo coach para designar um tutor, uma pessoa que se interessava pela sua evolução; é também nesta linha de pensamento que, no mundo do desporto, o coach passa a ser o treinador, o preparador ou o técnico desportivo.

Quando, em 1974, o técnico de ténis Timothy Gallwey publicou o livro The Inner Game of Tennis, abriu-se uma nova era na preparação desportiva: Gallwey defendia que o maior adversário do jogador era ele mesmo, e por isso era preciso trabalhar competências emocionais. A partir daqui, abriu-se espaço para um novo tipo de técnica, direcionada para o estímulo mental, mas destacando-se dos métodos filosóficos e psicológicos até então conhecidos: nos Estados Unidos, o Instituto Esalen criou programas de consciencialização para grandes grupos, que passaram a formar a base do coaching ontológico.

Na década de 80, Thomas Leonard idealizou um curso denominado Design your life (Projete a sua vida) e fundou o College for Life Planning (Universidade para o Planeamento da Vida); mais tarde, Leonard fundaria a International Coach Federation, que se fundiria com a Personal and Professional Coaches Association, dando lugar à atual ICF, estabelecendo o coaching como entidade profissional.

Nesta altura, o coaching já não era apenas algo aplicado ao desporto: utilizando técnicas e ferramentas de ciências como a psicologia, a sociologia e as neurologia, o coaching passou a ser procurado em todas as áreas, para melhorar performances, estabelecer visão e missão de vida e elaborar projetos de acordo com os valores e as crenças pessoais. Não por acaso, Jack Welch, um dos CEO mais famosos do mundo, profetizou um dia: "No futuro, todos os líderes serão coaches." 

 

SUPER 223 - Novembro 2016

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