Estranhos besouros

Insetos voadores ancestrais

altJá foram catalogadas mais de um milhão de espécies de insetos, e quase metade são escaravelhos. Foram dos primeiros seres vivos a conquistar os céus e, volvidos quase 300 milhões de anos, continuam a impressionar-nos. O biólogo Jorge Nunes revela as singularidades biológicas do grupo animal mais prolífico da Terra.

Estima-se que metade das espécies animais vivas sejam coleópteros, vulgarmente conhecidos por "escara-velhos", "besouros" ou "carochas". Esta designação, oriunda do grego (koleos, "estojo", e pteron, "asa"), refere-se a uma ordem de insetos que apresentam um par de asas anteriores rígidas, denominadas élitros. Estes juntam-se sobre o eixo do corpo do animal para cobrir e proteger, como um "estojo" (coleópteros, asas em estojo), o abdómen e as asas posteriores. Geralmente, as asas posteriores, membranosas e delicadas, permanecem ocultas pelos élitros, sendo visíveis apenas durante o voo, uma vez que são elas as principais responsáveis pela deslocação e pelas manobras aéreas (os élitros servem, sobretudo, para a sustentação durante o voo).

O representante mais conhecido deste vasto grupo biológico é, provavelmente, a joaninha-de-sete-pontos (Coccinella septempunctata), protagonista da lengalenga "Joaninha voa, voa, que o teu pai foi a Lisboa…". Trata-se de um escaravelho benéfico e emblemático do controlo biológico, uma vez que os adultos e as larvas se alimentam ativamente de pulgões (insetos vegetarianos prejudiciais).

Todavia, há muitos outros organismos repletos de curiosidades biológicas, como o besouro-tigre (Cicindela lusitanica), um feroz predador que também é considerado o inseto corredor mais rápido do mundo: por essa razão, há quem ache que seria mais correto chamar-lhe "besourochita".

altAs próximas páginas mostram o mundo fascinante dos besouros, que, ao longo da história humana, tem fascinado tanto os naturalistas como os monarcas, os cientistas e os colecionadores. Registe-se, como curiosidade, que alguns espécimes, como o escaravelho-dourado (Chrysina sp.), com os seus reflexos de metal precioso, são autênticas joias voadoras e podem valer mais de 600 euros cada.

Antigos aeronautas

Os primeiros insetos surgiram na Terra há cerca de 396 milhões de anos e, segundo o registo fóssil, tinham um aspeto idêntico ao dos peixinhos-de-prata ou traças-dos-livros (Lepisma saccharina), que ainda hoje vivem nas nossas casas.

Volvidos aproximadamente 96 M.a., surgiram os primeiros insetos voadores, como as libélulas e os coleópteros. Na atualidade, os odonatos (libélulas e libelinhas) contam perto de 6000 espécies em todo o mundo, enquanto os coleópteros atingem quase 67 vezes mais, sendo o grupo de insetos mais diversificado: conhecem-se cerca de 400 mil espécies, das quais 3800 ocorrem em Portugal.

Os coleópteros são organismos que existem sob os mais variados tamanhos, formas e cores, podendo ir de menos de 0,25 milímetros a 20 centímetros de comprimento. Os cientistas acreditam que a presença dos élitros foi determinante para o seu sucesso evolutivo, uma vez que lhes confere uma elevada resistência e a capacidade de colonizar uma grande variedade de habitats. Assim, não é de estranhar que sejam cosmopolitas, surgindo em praticamente todo o lado, exceto na água salgada (sim, leu bem: vivem na terra, no ar e até na água doce).

altAlém das couraças resistentes, os coleópteros apresentam, igualmente, adaptações adequadas aos diferentes meios e modos de vida: por exemplo, as patas costumam ser longas e finas, de modo a assegurar uma boa velocidade de deslocação à superfície da terra, nas espécies terrestres; largas e denteadas, nas que escavam o solo; e curvas e espatuladas, semelhantes a remos, nas que se deslocam por natação. Quanto às asas, também estão adaptadas ao tipo de voo (que tanto pode ser muito rápido como adequado a viagens de longo curso), havendo espécies que, tendo perdido a aptidão de voar, apresentam as asas rudimentares ou os élitros soldados.

Mudar de hábitos

As descrições que temos vindo a fazer são, obviamente, dos insetos no estado adulto, pois, no estado larvar, o seu aspeto é totalmente diferente, tendo levado a que, nos primórdios da classificação dos seres vivos, tivessem sido consideradas espécies distintas. Tal como acontece com abelhas, borboletas, formigas, melgas, moscas, mosquitos e vespas, nos besouros também se verifica metamorfose, ou seja, "mudanças de forma" e "transformações", bastante evidentes a nível morfológico, fisiológico e, por vezes, ecológico. Neste caso, trata-se de metamorfose completa (são seres holometabólicos), verificando-se a existência de quatro estádios, com uma duração variável conforme a espécie: ovo, lagarta (larva), crisálida (pupa) e adulto (imago).

Os estádios imaturos são, geralmente, menos exigentes quanto aos recursos do meio e mais resistentes no que respeita às condições ambientais. Os ovos de muitas espécies, por exemplo, entram em diapausa e só eclodem após um período de hibernação (ou estivação). Além de estarem camuflados no meio, apresentam, normalmente, uma estrutura coriácea impermeável à água, permitindo-lhes resistir à submersão provocada pela chuva ou à dessecação. Além altdisso, costumam ser depositados em locais abrigados, de modo a resistirem melhor às condições atmosféricas adversas.

As crisálidas caracterizam-se por uma morfologia extremamente simples, permanecendo imóveis e em letargia quase total, enquanto vão consumindo as reservas nutritivas que conseguiram armazenar na forma de lagartas (em geral, esta é a fase mais voraz do ciclo de vida).

Todavia, também ao nível da metamorfose os coleópteros são muito diversificados, como se pode constatar se atentarmos nos ciclos de vida do escaravelho-da-batata (Leptinotarsa dece-mlineata) e do melolonta (Melolontha melolontha), duas espécies comuns no nosso país.

O escaravelho-da-batata é um coleóptero que pode atingir 1,5 cm de comprimento e que se distingue facilmente pela cabeça e pelo tórax de cor escura, corpo amarelo alaranjado e linhas negras nos élitros. Os ovos são ovais e de cor amarela, surgindo, amiúde, nas páginas inferiores das folhas das batateiras, em grupos de 10 a 25. As larvas são volumosas, de cor vermelho-alaranjada, com a cabeça preta e manchas negras nos lados do abdómen, originando ninfas vermelhas ou alaranjadas, que costumam enterrar-se no solo durante o inverno (registe-se que, por vezes, alguns adultos também conseguem resistir ao período invernoso enterrados no solo).

 

SUPER 220 - Agosto 2016

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