O outro lado do Côa

Inovação na conservação

altFala-se no rio Côa e pensa-se de imediato em gravuras rupestres que ficaram famosas por não saberem nadar e por ganharem pergaminhos de património mundial. Porém, há ali outros motivos de interesse além da arte paleolítica e dos magníficos cenários. Descubra os segredos do património do vale do Côa e da primeira área protegida privada de Portugal, que integra a rede europeia Rewilding.

Embora poucas pessoas saibam disto, a bacia do troço terminal do rio Côa, com um impressionante relevo montanhoso, decorado com majestosas escarpas, está classificada, desde 1999, como zona de proteção especial (ZPE), no âmbito da Rede Natura 2000. Esta rede ecológica europeia, criada em 1992, resultou da publicação da Diretiva Habitats, assim chamada porque visava proteger os habitats naturais mais vulneráveis e as espécies de fauna e flora mais ameaçadas. As ZPE são áreas destinadas a garantir a conservação das espécies avícolas e dos seus habitats, bem como das aves migratórias de ocorrência regular no espaço europeu.

A área classificada da ZPE do vale do Côa é de cerca de 21 mil hectares, distribuídos pelos concelhos de Figueira de Castelo Rodrigo, Meda, Pinhel e Vila Nova de Foz Côa, correspondendo às encostas rochosas e escarpadas que se estendem ao longo dos rios Côa e Massueime.

O Côa, que dá nome à ZPE, nasce na serra de Mesas (concelho de Sabugal) e possui um regime torrencial: no inverno, corre com elevado caudal, que se reduz significativamente durante o estio, ficando confinado a pequenos pegos (poças) interligados.

altO coberto vegetal inclui matos e pastagens naturais, assim como sobreirais, azinhais e zimbrais. Os setores de atividade mais evidentes são a pastorícia e as culturas cerealíferas, do olival, do amendoal e da vinha. No entanto, a sua integração na Rede Natura 2000 ficou a dever-se, sobretudo, ao facto de ser uma área importante para a avifauna rupícola, ou seja, para as aves que vivem sobre pedras, paredes, muros ou rochedos.

Os céus do Côa são patrulhados por majestosas aves de rapina, como a águia-real (Aquila chrysaetos), a águia de Bonelli (A. fasciata), a águia-calçada (A. pennata), a águia-cobreira (Circaetus gallicus), o milhafre-preto (Milvus migrans), o milhafre-real (M. milvus) e o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), entre outras.

A imponente águia-real, também conhecida localmente por "ave-caçadeira" ou "vergadinha", pode atingir um metro de comprimento, dois de envergadura e 12 quilos de peso. Trata-se de uma espécie ameaçada que restringe a sua ocorrência quase exclusivamente aos vales encaixados e menos acessíveis. Outra espécie rara é a águia de Bonelli, também conhecida como "águia-perdigueira". Identifica-se sobretudo pelo ventre branco, contrastando com as asas mais escuras. Ambas as espécies alimentam-se de coelhos, pombos e répteis, a que a águia-real acrescenta mamíferos carnívoros, diversas aves e até cadáveres.

No entanto, as rainhas dos penhascos, com populações nidificantes, são as espécies necrófagas, como o grifo (Gyps fulvus) e o britango (Neophron percnopterus). As aves necrófagas desempenham um papel sanitário muito importante, uma vez que se alimentam de cadáveres. Estes organismos alados altconstituem importantes barreiras naturais à propagação de doenças, pois, ao consumirem os corpos em decomposição, tanto de animais selvagens como domésticos, impedem que estes possam contaminar os solos, os recursos hídricos e outros seres vivos. Alimentam-se principalmente de tecidos macios (músculos e vísceras) de cadáveres, sobretudo de mamíferos de médio e grande porte, que localizam através da visão (os grifos, por exemplo, conseguem detetar um cadáver a mais de 300 metros de altura) ou seguindo o movimento de outras aves igualmente comedoras de bichos mortos.

O grifo é uma ave residente, gregária, acastanhada, com pescoço claro, que ocorre principalmente nos vales alcantilados, onde nidifica. É uma excelente planadora que se move a energia solar: usa as correntes térmicas ascendentes para galgar os céus e voar grandes distâncias quase sem bater as asas. Por isso, não é de estranhar que nos dias mais frios ou enquanto os raios solares não aquecem o ar permaneça pousada nas fragas associadas aos barrancos fluviais onde habita.

O britango ou abutre do Egito tem na ZPE do vale do Côa um dos mais significativos núcleos do nosso país. O restritivo específico "percnopterus" significa literalmente "galinha do faraó" (daí o nome vulgar "do Egito"), mas na Beira Interior Norte e no Nordeste transmontano chamam-lhe "fateiro do cuco", "almocreve do cuco", "criado do cuco" ou "correio do cuco", dado ser a ave que vem à sua frente (costuma chegar no princípio de março, enquanto o cuco só retorna na segunda quinzena do mesmo mês). Como se não bastasse, ainda há outras denominações locais, como "alcaforro branco" ou "corvo branco", aludindo à plumagem alva característica deste que é o mais pequeno dos nossos abutres.

altNas zonas mais áridas do vale do Côa também se pode avistar o chasco-preto (Oenanthe leucura), que é fácil de identificar mas difícil de encontrar, devido à sua escassez e à inacessibilidade da maioria dos locais onde ocorre. Como se infere do seu nome vulgar, é uma ave que se veste de negro (as fêmeas têm coloração castanha) e que se distingue facilmente pela cauda pintada de branco.

A grande extensão de matos das margens do Côa proporciona ainda a ocorrência e uma certa abundância de diversos passeriformes, como a toutinegra-tomilheira (Sylvia canspicillata), a toutinegra-de-bigodes (S. cantillans) ou a toutinegra-dos-valados (S. melanocefala), entre muitos outros. Além disso, são comuns os passeriformes migradores de matos, bosques, caniçais e galerias ripícolas, ou não estivéssemos a falar de um curso de água que marca de forma indelével a paisagem da região.

Embora estejam inventariadas mais de uma centena de espécies de aves no vale do Côa (onze das quais ameaçadas: duas estão criticamente ameaçadas, quatro em perigo e cinco vulneráveis), não se pense que o seu inventário faunístico se resume a seres alados e emplumados, pois a sua fauna é muito diversificada e integra pelo menos mais meia centena de espécies de vertebrados, nomeadamente seis de peixes (uma ameaçada), nove de anfíbios, outras tantas de répteis (incluindo um endemismo ibérico) e 25 de mamíferos, três das quais ameaçadas.

No que respeita aos valores florísticos, a ZPE insere-se na zona fitogeográfica da Terra Quente Duriense, de características fortemente mediterrânicas. O relativo isolamento desta zona, circundada por outras de cariz submediterrânico e atlântico, confere-lhe uma certa pobreza florística. Porém, a proximidade e o contacto com a zona fitogeográfica da Terra Fria Duriense, dá-lhe uma interessante diversidade (estão referenciadas 147 espécies), nomeadamente a presença de espécies mediterrânicas exclusivas, como Prunus mahaleb, Thymelea procumbens, Evonymus europaeus, Cronilla minima e Dorycnium pentaphylium, e a ocorrência de espécies pouco frequentes no resto do país, como Acer monspessulanum e Securinega tinctoria.

 

SUPER 222 - Outubro 2016

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