O rio-estrada da Beira

altDa nascente à foz do Mondego

Antes de o alcatrão e o comboio chegarem à Beira Alta, era pelo Mondego que se fazia a troca de produtos comerciais entre o litoral e o interior. Descubra o maior rio português: a sua história, o seu importante papel como via de comunicação entre regiões e os seus curiosos habitantes, tanto os da alta montanha, como os dos pauis e das salinas.

Qual é o maior rio português? Se respondeu Tejo, Douro ou Guadiana, errou. Na verdade, o maior curso de água a correr inteiramente em território nacional (daí o epíteto "português") é o Mondego, com cerca de 234 quilómetros de extensão. Embora sejam mais extensos (o Tejo faz um percurso total de aproximadamente 1100 km, o Douro de 927 km e o Guadiana de 260 km), corram e desaguem em Portugal, nascem em território espanhol, pelo que devem ser considerados rios ibéricos. Estes cursos de água (que também incluem o Minho) delimitam, desde os séculos XII e XIII até à atualidade, parte da fronteira luso-espanhola, constituindo a chamada "raia húmida".

Tal como as pessoas, cada rio tem a sua personalidade. Reza a lenda que, numa contenda entre os três grandes rios ibéricos, ocorrida quando o mundo ainda era jovem, o Douro mostrou-se mandrião, tendo sido o último a escolher o seu caminho em direção ao mar. Enquanto o Guadiana serpenteou placidamente pelas planícies do sul e o Tejo se dirigiu às vastas campinas e fartas lezírias do centro, onde calmamente se espraiou, o Douro nasceu ciclópico e arrogante, cavando o seu leito através dos fraguedos bravios das terras nortenhas. Consta que a sua força lhe adveio das águas que foi bebendo nos diversos afluentes, altque acabaram por torná-lo a maior bacia hidrográfica da península Ibérica, arrecadando ainda o terceiro lugar no ranking das maiores estradas fluviais que atravessam a Ibéria.

Muito mais haveria para dizer sobre os cursos de água ibéricos, de modo a enaltecer as suas singularidades e beleza. Porém, daqui em diante, só teremos olhos, palavras e imagens para o "nosso" maior rio, o Mondego, ao qual Estrabão, escritor grego do século I a.C., se referia como "Muliades", e a que os romanos chamavam "Munda", pela transparência, claridade e pureza das suas águas.

Registe-se que a origem do nome "Mondego" não é consensual, podendo resultar da palavra "Mundecus", que exprimiria "o nosso Munda" ou "o querido Munda", uma vez que o sufixo "ecus" significa "carinho". Todavia, também há quem defenda que foi inspirado nas lendas luso-mouriscas alusivas ao nome "Diego". Uma dessas narrativas fala-nos de uma bela princesa que gritava pelo seu amado "Mon Diego… Mon Diego", enquanto vertia copiosas lágrimas que acabariam por originar o curso de água a que o povo chamou "Mondego".

Berçário de um rio

Quem atravessa as fartas águas do Mondego na Barragem da Aguieira, em Coimbra ou na Figueira da Foz está longe de imaginar que o maior rio inteiramente português nasce numa singela fonte, chamada "Mondeguinho", que brota por entre penedos graníticos, rodeados por torgas, piornos e tramazeiras. Localiza-se na serra da Estrela, a 18 km de Gouveia e 1425 metros de altitude, e há quem diga que não podia ser de outra forma, pois o maior rio português só poderia nascer na serra mais alta de Portugal continental.

altEmbora pareça igual a tantas outras fontes que existem na mais grandiosa e enigmática montanha portuguesa, esta é uma nascente especial, um lugar de romaria, de passagem obrigatória, quase tão importante como subir à Torre: afinal, não é todos os dias que se assiste ao nascimento de um rio, ou melhor, ao nascimento do "nosso" maior rio, que inspirou poetas e prosadores, que serviu de muralha defensiva e de fronteira e se tornou a principal via de comunicação entre o interior beirão e o litoral, permitindo o acesso a novos mundos.

O rio Mondego marcou (e ainda marca) de forma indelével as paisagens e vivências do centro de Portugal, contribuindo para a fundação da velha urbe romana de Aeminiense, que haveria de tornar-se mais tarde a capital do Reino Portucalense e, mais recentemente, na terceira maior urbe do país (Coimbra). Além disso, este rio "foi berço de culturas e leito de civilizações que nas suas margens floresceram e pereceram, renasceram e evoluíram, dando ao mundo novos mundos e novos modos de vida", salienta José Gomes dos Santos, professor auxiliar do Departamento de Geografia da Universidade de Coimbra.

O trecho superior do Mondego está inserido no Parque Natural da Serra da Estrela, uma área protegida com mais de cem mil hectares, que escolheu para símbolo a imagem estilizada de um cristal de gelo, aludindo ao papel da água na modelação do perfil da montanha, nomeadamente durante a última glaciação. O maior parque natural de Portugal alberga mais de 900 espécies de plantas, 40 de mamíferos, 100 de aves, 30 de répteis e anfíbios e oito de peixes.

A história geológica do berçário do Mondego começou há muito, muito tempo, quando ocorreu a colisão dos continentes primitivos Laurásia e Gondwana, com alta consequente formação do supercontinente Pangea. Este fenómeno aconteceu no Paleozoico e ficou conhecido como "orogenia hercínica" ou "varisca", um período de formação de montanhas que ocorreu há entre 380 e 280 milhões de anos. Há aproximadamente 90 a 70 M.a., as placas tectónicas euroasiática e africana colidiram, dando início a um período de compressão de toda a microplaca ibérica (orogenia alpina), que haveria de culminar, há entre 37 e 24 M.a., na formação dos Alpes e no alteamento da serra da Estrela em cerca de 1500 metros. As maravilhas geológicas relacionadas com o frio (de origem glaciária) são, no entanto, muito mais recentes: originaram-se há cerca de 20 a 18 mil anos, na glaciação Wurmiana do Plistocénio Superior.

A bacia hidrográfica do Mondego tem cerca de 6650 quilómetros quadrados, inclui aproximadamente quinhentos cursos de água e abrange os concelhos de Carregal do Sal, Celorico da Beira, Coimbra, Figueira da Foz, Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Mangualde, Montemor-o-Velho, Mortágua, Nelas, Oliveira do Hospital, Penacova, Santa Comba Dão, Seia, Tábua e Vila Nova de Poiares. Curiosamente, de todos os rios que nascem no maciço da Estrela ou drenam o planalto beirão, o Mondego é o único a atingir o mar. Os restantes, como o Alva, o Ceira e o Dão, por exemplo, acabarão por prestar-lhe vassalagem, oferecendo-lhe as suas águas.

Águas bravas

Após brotarem no Mondeguinho, as águas começam a correr e a saltitar velozmente, formando rápidos e cascatas. Enquanto jovem, o rio desliza num vale estreito e profundo, que ele próprio esculpiu durante milénios, descendo cerca de 750 metros nos primeiros 50 km. Inicialmente, corre em direção a nordeste. Nas imediações de Lageosa do Mondego, inicia a grande curva à volta de Celorico da Beira que o levará para sudoeste, rumo a Coimbra, numa orientação inversa e quase paralela à anterior.

As águas bravias e cristalinas arrastam consigo material solto no leito rochoso, obrigando as plantas e os animais a fixarem-se fortemente ao substrato para evitarem ser arrastados. Os especialistas nesta matéria são os chamados "macroinvertebrados bentónicos", pequenos seres que incluem larvas e ninfas de insetos, que costumam ser utilizados como bioindicadores da qualidade da água e dos ecossistemas dulçaquícolas.

Os macroinvertebrados que surgem no troço montanhoso do rio, de correntes rápidas, são geralmente seres de aspeto bizarro, totalmente intolerantes à poluição, que apenas sobrevivem em águas puras. Falamos, por exemplo, de blefaricerídeos (dípteros), que vivem nas pedras, têm até 40 milímetros de comprimento e possuem ventosas ventrais em cada segmento do corpo, usadas para aderir às rochas, ou de ninfas de moscas-das-pedras (plecópteros), que habitam nas pedras ou na folhagem do fundo, têm até 30 mm, não possuem brânquias nos lados do abdómen e apresentam duas caudas (cercos).

 

SUPER 223 - Novembro 2016

Leia a SUPER numa das nossas versões digitais:

http://www.superinteressante.pt/digital

 


( 0 Votos )
 

Últimas publicações

GuiaTV

Escolha abaixo o canal.

Canal:

Data:

You need Flash player 6+ and JavaScript enabled to view this video.

Playlist: 0 | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11

Your are currently browsing this site with Internet Explorer 6 (IE6).

Your current web browser must be updated to version 7 of Internet Explorer (IE7) to take advantage of all of template's capabilities.

Why should I upgrade to Internet Explorer 7? Microsoft has redesigned Internet Explorer from the ground up, with better security, new capabilities, and a whole new interface. Many changes resulted from the feedback of millions of users who tested prerelease versions of the new browser. The most compelling reason to upgrade is the improved security. The Internet of today is not the Internet of five years ago. There are dangers that simply didn't exist back in 2001, when Internet Explorer 6 was released to the world. Internet Explorer 7 makes surfing the web fundamentally safer by offering greater protection against viruses, spyware, and other online risks.

Get free downloads for Internet Explorer 7, including recommended updates as they become available. To download Internet Explorer 7 in the language of your choice, please visit the Internet Explorer 7 worldwide page.