O preço da desevolução

Diabetes, dores nas costas, miopia, alergias

altDurante milhões de anos, a evolução moldou-nos para sobrevivermos num meio muito diferente do que hoje nos rodeia. No mundo artificial que criámos, essa adaptação transformou-se num problema que causa doenças.

Grande parte da população mundial vive em sociedades ricas ou em vias de desenvolvimento e, nos últimos dois séculos, os avanços médicos e científicos fizeram disparar a esperança de vida. Contudo, terá essa maior longevidade sido acompanhada por uma saúde melhor? Usufruímos de mais bem-estar do que os antigos povos do Paleolítico? O nosso estilo de vida é melhor do que o dos agricultores neolíticos?

Para responder a estas incógnitas, Daniel Lieberman, paleoantropólogo e professor de biologia evolutiva na Universidade de Harvard (Estados Unidos), refletiu sobre o nosso desenvolvimento como espécie: das adaptações locomotoras dos primeiros hominídeos, a sua alimentação e o seu modo de vida até às cruciais transformações culturais e sociais associadas à invenção da agricultura e à Revolução Industrial. No livro A História do Corpo Humano – Evolução, Saúde e Doença (Temas e Debates, 2015), Lieberman, à semelhança de um moderno Charles Darwin, fala-nos da importância da seleção natural e dos processos adaptativos que configuraram a biologia dos nossos corpos.

Um dos argumentos centrais da obra de Lieberman defende que, apesar dos êxitos obtidos pela medicina e pelo controlo das doenças infeciosas, a saúde das nossas sociedades ressente-se cada vez mais por culpa da chamada "hipótese desadaptativa". Trata-se de um conceito essencial no emergente campo da medicina evolutiva, disciplina que aplica as noções desenvolvidas pela biologia evolutiva. A verdade é que crescem doenças como a diabetes de tipo 2, a obesidade, a ansiedade e a depressão, e o mesmo acontece com a insónia, a miopia, as dores nas costas ou as alergias. São todos males quase desconhecidos nas escassas sociedades de caçadores-recoletores que ainda subsistem no nosso tempo.

altA diabetes como processo

Segundo Lieberman, esses males tão pouco frequentes em épocas anteriores surgem devido a um desequilíbrio. Durante milhões de anos, o nosso organismo foi-se adaptando ao meio circundante. Porém, tais alterações, forjadas a fogo lento, representam um entrave no mundo artificial que criámos. Esta ideia resume a hipótese desadaptativa tão em voga na medicina de perspetiva evolucionista.

Vejamos o caso da diabetes de tipo 2, comum em muitos países. A doença surge quando as células do corpo deixam de reagir à insulina, uma hormona que extrai açúcar da corrente sanguínea para o acumular na forma de gordura. Quando ocorre a diabetes, os níveis de açúcar não cessam de subir, o que leva o pâncreas a produzir mais insulina, mas sem resultados eficazes. Após alguns anos, o extenuado órgão não consegue produzir suficiente insulina, e os níveis de glicose no sangue mantêm-se persistentemente elevados; algo tóxico, que causa graves poblemas na saúde e pode mesmo provocar a morte. Felizmente, sabemos reconhecer e tratar os sintomas numa fase muito precoce da doença, o que permite a milhões de diabéticos conviver durante décadas com o seu mal.

Contudo, porque será que há tantos diabéticos na sociedade atual? Por uma causa evolutiva. Milhões de anos de seleção natural permitiram que os nossos antepassados armazenassem de forma eficiente substâncias de elevado teor calórico; por exemplo, os hidratos de carbono simples (como o açúcar), raros na natureza. Tais excessos eram transformados em gordura como reserva energética para épocas de escassez. Muito poucos dos nossos antepassados se tornariam diabéticos, pois a luta pela sobrevivência obrigava-os a uma constante atividade física, e precisavam das reservas de gordura para se manterem vivos.

Hoje, acontece precisamente o contrário: muitas pessoas passam a maior parte do dia sentadas no emprego, no carro ou em casa. Se juntarmos a isso uma alimentação rica em doces e bebidas açucaradas, a possibilidade de contrair diabetes de tipo 2 torna-se elevada. O que funcionou às mil maravilhas, durante altmilhões de anos, para garantir ao nosso organismo boas reservas de energia acabou por se converter num superavit prejudicial das ditas reservas. No caso de algumas pessoas, esse excesso cobra uma fatura na forma de elevados níveis de açúcar no sangue.

Os nossos antepassados mais antigos eram recoletores e caçadores que se organizavam em pequenas tribos ou clãs nómadas, sempre em busca de territórios com abundância de alimentos. Durante um processo de, pelo menos, um milhão de anos, a evolução adaptou os seus corpos e comportamentos às condições do meio ambiente. A seleção natural encarregou-se, de forma aleatória, de favorecer as características que permitiram a sobrevivência e a reprodução dos indivíduos. Porém, tudo se alterou com a mudança climática do Holoceno, que principiou há cerca de 11 700 anos e produziu uma progressiva subida global das temperaturas e o final da última glaciação.

Revolução agrícola

Estas transformações reduziram o número de espécies cinegéticas, adaptadas a meios mais frios, e favoreceram o cultivo de vegetais. Há provas de que a população mundial era mais numerosa no final da última glaciação, e talvez os caçadores-recoletores vissem na agricultura a melhor forma de alimentar mais bocas. Assim, não é de estranhar que tenhamos optado, há cerca de dez mil anos, por desenvolver a agricultura e instalarmo-nos em regiões férteis.

A chegada dos cultivos quebrou o lento equilíbrio adaptativo alcançado pelos seres humanos. A vida em colónias permanentes começou a expô-los velozmente a novos alimentos, doenças e costumes. Segundo Jared Diamond, professor de geografia e ciências do meio ambiente da Universidade da Califórnia e galardoado com o Prémio Pulitzer pelo livro Armas, Germes e Aço (Relógio d'Água, 2002), a agricultura foi "o maior erro da espécie humana".

A agricultura permite produzir mais alimentos (e ter, assim, mais descendência) do que o modo de vida dos caçadores-recoletores, mas exige muito mais trabalho e empobrece o regime alimentar, pois a carne torna-se escassa. Os agricultores enfrentam as recorrentes crises de fome provocadas por inundações, secas e outros desastres. Vivem também em lugares com elevada densidade populacional, o que favorece a transmissão de doenças infeciosas e o stress social. Segundo Lieberman, a agricultura pode ter conduzido à civilização e a outro tipo de progresso, mas também à miséria e à morte em grande escala. Muitas das doenças desadaptativas que sofremos provêm dessa transição da caça e da recolha para os cultivos.

Há outra revolução na nossa história tão fundamental (ou mesmo mais) do que a agrícola: a industrial. Foi um terramoto económico e tecnológico através do qual começámos a utilizar combustíveis fósseis para gerar potência destinada às máquinas encarregadas da manufatura e do transporte de quantidades maciças de produtos.

As primeiras máquinas a vapor tinham por objetivo escoar água das galerias das minas. O engenheiro escocês James Watt (1736–1819) melhorou o seu desempenho de modo a que o recurso à força do vapor se generalizou na indústria, e as primeiras fábricas surgiram em finais do século XVIII, em Inglaterra.

Da perspetiva da biologia evolutiva, o termo "revolução" não podia ser mais apropriado do que neste caso: no decurso de algumas décadas, os seres humanos alteraram o seu contexto existencial e o meio ambiente, num processo que continua em marcha e que é hoje objeto de profunda preocupação pelas suas consequências nos ecossistemas.

 

SUPER 219 - Julho 2016

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