O fim da leucemia

Vêm aí as bombas genéticas

altNo século XX, disseram-nos que cancros como o do sangue poderiam ser curados com um simples comprimido. Estamos mais perto do que nunca da concretização dessa promessa, graças a tratamentos personalizados baseados na investigação genética.

Manuel é um homem a quem foi diagnosticada, há uma década, uma leucemia linfoide crónica. Nessa altura, tinha 72 anos e estava bem, pelo menos aparentemente, pois a doença pode não apresentar sintomas e não provoca mal-estar. A leucemia mostra o seu rosto nas análises de sangue, através de uma contagem muito elevada de glóbulos brancos, e fá-lo, por vezes, sem qualquer aviso. No caso de que falamos, os médicos decidiram vigiar a evolução da doença. Manuel passou três anos sem problemas e sem tomar medicamentos.

Quando completou 75 anos, a doença começou a progredir e obrigou os oncologistas a receitar quimioterapia convencional. Os fármacos funcionaram e o cancro esteve um ano em remissão. Pouco tempo depois, regressou. Aos 77 anos, Manuel teve de se submeter novamente à pesada fatura do tratamento químico. Após seis meses de reação positiva, a esperança desvaneceu-se: o cancro voltara para acabar com a sua existência.

"Nesse momento, decidimos administrar-lhe quimioterapia paliativa", relata Júlio Delgado, hematólogo e investigador. O adjetivo "paliativo" envolve um significado terrível que todos conhecem: surge quando a medicina admite o seu fracasso no combate à doença. Perante a impossibilidade de fazer seja o que for para obter a cura, pretende-se pelo menos evitar, na medida do possível, a dor e o sofrimento.

altQuando tudo indicava que a sorte de Manuel estava selada, a ciência ofereceu-lhe uma nova oportunidade. "Iniciámos um ensaio clínico com um fármaco novo, a título experimental", explica Delgado: um comprimido diário de uma molécula chamada ibrutinib, à qual Manuel se agarrou durante 2012 e 2013. Era o seu último cartucho. Correu bem.

No ano passado, com quase 82 anos, Manuel deu uma volta ao mundo. Continua a tomar diariamente o comprimido. O cancro está em remissão e ele sente-se bem. "Tem uma excelente qualidade de vida e fez uma viagem muito exigente", comenta o médico e investigador. Delgado admite que se trata de um caso excecional. Passados os 80 anos, os tratamentos contra qualquer tipo de cancro são geralmente tão agressivos que o organismo não os suporta. Felizmente, o excecional poderá tornar-se a norma, num futuro não muito longínquo.

Mais de 200 doenças diferentes

No século passado, ouvimos frequentemente vaticínios de teor mais ou menos científico a assegurar que, um dia, se poderia curar o cancro com um simples comprimido. Proclamava-se que os avanços na investigação conseguiriam fazer vergar uma doença que continua a apavorar: há alguns anos, um diagnóstico de leucemia era sinónimo de uma sentença de morte.

A verdade é que a palavra "cancro" abrange mais de duzentas doenças diferentes, e que cada tipo de tumor é único em cada indivíduo. É possível que não exista doença mais personalizada e que faça tanto jus à expressão de que "não existem doenças, mas doentes". O objetivo dos médicos é criar tratamentos à medida de cada pessoa, da mesma forma que um alfaiate faz um fato para que assente como uma luva. O caso de Manuel mostra que não se trata apenas de um sonho.

altQuando se fala em cancro, o primeiro pecado jornalístico é, geralmente, a utilização da palavra "cura". Há casos confirmados em que é total, mas não é frequente. De facto, os oncologistas mostram-se muito cautelosos nesse sentido e não são partidários de que se utilize o termo. "A cura é um objetivo que estabelecemos a longo prazo", esclarece Delgado. "Com estes tipos de cancro, as duas opções atuais são estar vivo e morrer. O termo mais preciso é 'remissão'. A pessoa está livre da doença e faz a sua vida normal."

Estaremos perante um fracasso, ou trata-se apenas de linguagem incorreta? "Na realidade, os médicos quase nunca curam uma doença. A hipertensão não se cura: trata-se e controla-se. O mesmo acontece com a diabetes, a artrite reumatoide ou a esclerose múltipla. A única coisa que curamos verdadeiramente são as infeções, graças aos antibióticos", diz o especialista. "Fora isso, os médicos curam pouquíssimo. O que fazemos é tratar e aliviar."

A leucemia é uma doença do sangue que se caracteriza por apresentar uma tipologia diversificada e uma origem comum: a proliferação maligna de leucócitos, ou glóbulos brancos, as células que nos defendem dos agentes infeciosos e das substâncias estranhas. As leucemias agudas são mieloides ou linfoides: no primeiro caso, as células proliferam anormalmente e interferem no trabalho da medula óssea, o tecido mole do centro dos ossos em que se formam as células sanguíneas. Nas linfoides, o número de linfócitos (um tipo de leucócitos) dispara. As células cancerosas multiplicam-se rapidamente e desalojam as normais da medula óssea. São estes dois tipos de leucemia que associamos à imagem das pessoas que perderam muito peso e todo o cabelo devido à quimioterapia. As leucemias crónicas, menos conhecidas, também abrangem uma tipologia variada.

Em todos os casos, o número exagerado de glóbulos brancos malignos implica que estes soldados do sistema imunitário não funcionam como deviam. Deixam-nos indefesos perante as infeções, que avançam a seu bel-prazer. Além disso, como se trata de uma doença do sangue, as células malignas já se encontram distribuídas por todo o organismo quando surgem os primeiros sintomas.

 

SUPER 222 - Outubro 2016

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