A herança dos filhos

Microquimerismo fetal

altAnos depois do nascimento de um bebé, o corpo da mãe continua a albergar células que lhe pertencem, as quais colonizaram alguns dos seus órgãos e influenciaram a saúde materna. A ciência está a desvendar os segredos deste fenómeno.

Todos nós somos formados por células; em média, cerca de 37 biliões. Essas pequenas fábricas de vida que nos constituem enfrentam as tarefas quotidianas de acordo com um manual de instruções personalizado, intitulado O ADN: todas as células do indivíduo contêm a mesma versão. Pelo menos, era isso que se pensava, até que, no início dos anos 70, se descobriu uma exceção com uma origem natural: tinham sido detetadas células masculinas no sangue de mulheres grávidas. A descoberta indicava que algumas células do feto tinham conseguido atravessar a placenta e ter acesso ao sistema circulatório da mãe.

A maior parte dos investigadores não considerou, na altura, que essa pequena transferência pudesse ter uma repercussão biológica significativa. Sem um suporte adequado, o mais provável era que as intrusas degenerassem e acabassem por desaparecer num período relativamente curto de tempo. Por outro lado, a tecnologia da época não permitia uma análise aprofundada das suas características. A surpresa surgiu no final dos anos 90, quando se descobriu que havia células dos seus filhos no sangue, nos pulmões, no fígado, no cérebro e noutros órgãos de mulheres que tinham estado grávidas há décadas.

Em todos os estudos publicados até à data, a identificação das células fetais foi efetuada através da deteção do cromossoma Y, exclusivo dos homens, devido à facilidade com que se podem distinguir células masculinas no corpo de uma mulher.

O processo mais conhecido para consegui-lo consiste em amplificar uma região específica situada no cromossoma Y através da reação em cadeia da polimerase (PCR, na sigla inglesa): trata-se de uma técnica extremamente sensível de análise que permite identificar uma célula masculina entre um milhão altde congéneres femininas. Um método complementar utiliza a chamada "hibridização fluorescente in situ" (FISH) para visualizar as células que contêm o cromossoma Y. O recurso a ambas as estratégias permitiu demonstrar que a aquisição de células fetais constitui um acontecimento comum durante a gestação: embora os estudos se tenham concentrado, por questões metodológicas, em células provenientes de fetos do sexo masculino, presume-se que as células fetais femininas se comportem da mesma maneira.

Seres compostos

Segundo um estudo publicado na revista Lancet por Nicholas M. Fisk, especialista em medicina fetal, a persistência dessas visitantes no corpo da mãe poderá dever-se à capacidade para se estabelecerem na medula óssea, tecido que funcionaria como um reservatório a partir do qual as células poderiam migrar até ao sangue e dispersar-se pelos órgãos. Em concreto, estima-se que milhões de células provenientes do feto poderiam fazer parte do corpo das mães. Essa dádiva inesperada é conhecida pelo nome de "microquimerismo fetal", em honra de Quimera, uma criatura da mitologia grega que vomitava chamas e tinha cabeça de leão, ventre de cabra e cauda de dragão.

A espantosa descoberta amplia substancialmente a perspetiva convencional do vínculo materno-filial. A relação entre as mães e os seus rebentos ultrapassaria o âmbito emocional para alcançar, de certo modo, uma ligação física. Os nossos filhos não só fazem parte da nossa vida como, também, do nosso organismo, mesmo a partir de fases muito precoces da gestação.

Logo às cinco semanas de gestação, já é possível detetar células fetais no sangue periférico materno. Uma migração tão precoce, aliada à capacidade de permanência das células no corpo da progenitora, possui uma implicação importante para as mulheres que sofreram um aborto, situação muito frequente que altocorre em 50 a 70 por cento das fecundações, e em 15 a 20% das gravidezes clinicamente comprovadas, segundo dados da Associação de Gestação norte-americana.

Apesar de um aborto implicar sempre uma grande perda, os malogrados descendentes teriam encontrado forma de viver para sempre no corpo das mães, como células que passam a fazer parte delas. Segundo o professor Ralph P. Miech, da Faculdade Alpert de Medicina, na Universidade Brown (Estados Unidos), é precisamente durante um aborto que se produz maior transferência de células fetais para a progenitora, talvez numa última tentativa do feto para se agarrar à vida.

A pergunta que surge de imediato é se essas células, que possuem uma versão do material genético diferente daquela da mãe, cumprem alguma missão no corpo da hospedeira. A seleção natural, o processo de "sobrevivência dos mais aptos", descrito por Charles Darwin há mais de 150 anos, age sobre o fenótipo, isto é, sobre o conjunto de caracteres que um organismo apresenta em consequência da interação dos seus genes com o ambiente. Deste ponto de vista, a escolha de parceiro poderia ser considerada, em última instância, uma forma de selecionar características que possam otimizar a sobrevivência dos descendentes. Contudo, o facto de as células que exprimem genes paternos fazerem parte do corpo da mulher abre a possibilidade de a sua aquisição poder afetar a própria sobrevivência da mãe, ao dotá-la, por exemplo, de genes provenientes do pai que poderiam protegê-la de certas doenças.

Guardiãs da saúde da mãe

É a abordagem seguida por investigadores como o francês Denis Vinatier, professor de ginecologia na Universidade de Lille, que publicou, em 2011, juntamente com os seus colaboradores, um estudo sobre o efeito das referidas células na progenitora.

Provas recentes de uma implicação ativa das células fetais na biologia materna revelam-se fascinantes, ao ponto de serem cada vez mais os investigadores a sugerir que poderiam agir como guardiãs da saúde da mãe. Segundo esta hipótese, o feto proporcionaria células com capacidade para regenerar os tecidos afetados do organismo que o hospeda. Trata-se de uma doação com potencial terapêutico, da qual já foram encontrados vestígios: comprovou-se que as células fetais se podem diferenciar em epidérmicas, a fim de contribuir para a cicatrização de feridas, incluindo as provocadas por uma cesariana. É o que defende um estudo publicado, em 2014, na revista especializada Chimerism.

Outros órgãos, como o coração, poderiam beneficiar desse potencial regenerativo. Num estudo efetuado com ratos, constatou-se que, após um enfarte do miocárdio, algumas células fetais migravam para a zona afetada, onde se transformavam em células endoteliais, células de músculo liso ou cardiomiócitos, que podem contrair-se e fazer bater o coração. Foram também identificadas em seres humanos células de origem fetal transformadas em cardiomiócitos. Outra possível função seria a de combater as células tumorais, pois já se constatou que o número de células fetais nos tecidos de mulheres saudáveis é maior do que nas que sofrem de cancro.

 

SUPER 224 - Dezembro 2016

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