A primeira defesa

altOs fortes de São Julião da Barra e de São Lourenço do Bugio nasceram para se complementarem um ao outro, cruzando fogo para defender a barra e a cidade de Lisboa. O poder dos bastiões era de tal modo impressionante que chegaram a vencer batalhas sem precisarem de disparar um único tiro: o inimigo acobardou-se.

Santo António de Cascais, São Sebastião da Caparica e São Vicente de Belém: a Lisboa seiscentista estava já protegida por um decente triângulo defensivo, mas a cidade continuou a enriquecer pelo século adentro, o que a tornava cada vez mais apetitosa para corsários, piratas e rivais da expansão marítima portuguesa. Era imperioso erguer uma fortaleza que, de uma vez por todas, dissuadisse a ganância alheia.

Os projetos de ampliação da defesa do Tejo foram criados ainda no reinado de D. Manuel I. O rei, que já havia sido responsável pela Torre de Belém, passou os planos em herança ao filho, o príncipe D. João. D. Manuel morreu em 1521, um ano depois de a emblemática torre ficar terminada, e o seu descendente fez bom uso dos conselhos bélicos do pai. Em 1549, D. João III nomeou um "mestre das Obras dos Muros e das Fortificações do Reino, Lugares d'Além e Índias", encarregado de pensar e executar a política defensiva nacional, incluindo o forte que serviria de pedra basilar à proteção da barra lisboeta. O escolhido seria, sem grande surpresa, Miguel de Arruda – filho de Francisco de Arruda, o arquiteto principal da Torre de Belém, que seguira as pisadas do pai na arquitetura e na engenharia militares. À chamada Ponta de São Gião, ou Julião, no concelho de Oeiras, caberia a honra de servir de poiso à maior fortificação marítima do país: o Forte de São Julião da Barra.

As obras começaram em 1553, mas com uma lentidão exasperante. Seis anos depois, ainda a empreitada estava longe de ser concluída.Nesse entretanto, D. João III morreu, sem deixar descendência direta (morreram-lhe dez filhos), ficando a Coroa na cabeça do neto, Sebastião. Em 1559, na regência da rainha altCatarina de Áustria – o neto tinha cinco tenros anos –, criou-se um imposto extraordinário para financiar a tarefa. Miguel de Arruda decidiu também tomar pessoalmente as rédeas da construção, em 1562. Então, sim, a obra acelerou (apesar de o arquiteto ter morrido no ano seguinte), com a preciosa ajuda forçada de prisioneiros condenados ao degredo, que eram obrigados a trabalhar no forte enquanto aguardavam a extradição.

Lacunas importantes

Em 1568, terminaram oficialmente as obras no robusto forte. O desenho original de Miguel de Arruda, porém, apresentava lacunas importantes, acima de tudo do lado terrestre. As debilidades eram do conhecimento dos castelhanos, que tiveram acesso a um plano do baluarte, da autoria do espião napolitano João Batista Gésio, adjunto do embaixador espanhol em Lisboa. Em agosto de 1580, na primeira vez que foi efetivamente posta à prova, a fortaleza não resistiu mais do que cinco dias ao cerco imposto pelo duque de Alba, líder do exército castelhano que invadiu Lisboa em nome de Filipe II de Espanha. O falhanço culminou na derrota definitiva das forças de D. António, prior do Crato, tio do desaparecido D. Sebastião e pretendente ao trono. Ironicamente, o espião ao serviço de Castela, que havia sido decisivo para a queda do forte, sucumbiu no mês seguinte, na absoluta miséria.

Conquistado o trono português, Filipe apressou-se a ordenar trabalhos de melhoramento do Forte de São Julião da Barra. Contratou, para o efeito, um experiente arquiteto italiano, que logo remodelou e aumentou o fosso em redor dos muros, além de reforçar o poder de fogo na frente ribeirinha. Em bom tempo, Filipe I (II de Espanha) mandou avançar com obras de reforço. Mais do que nunca, Lisboa precisava de uma defesa inexpugnável – a junção dos reinos ibéricos sob a mesma Coroa pôs Portugal debaixo das atenções dos inimigos dos castelhanos, o que, naquele tempo, era meio mundo.

Com as alterações sob batuta espanhola, o forte impressionava até os mais afoitos. Não foi preciso esperar muito tempo para entrar em ação. Mesmo sem disparar um tiro. Em 1589, depois de derrotar a Armada Invencível ao largo de Inglaterra, Francis Drake rondou a barra do Tejo, à frente de uma esquadra gigantesca, que chegou a incluir 230 navios. Era suposto o almirante inglês avançar sobre Lisboa, mas a imagem intimidante da fortaleza bastou para o derrotar. Drake acabou por decidir não enfrentar os 60 canhões do baluarte e manteve-se vários dias ao largo, até ser repelido por uma frota ibérica. Depois disso, São Julião da Barra ganhou fama, entre os ingleses, como a mais poderosa fortaleza marítima da Europa.

Mesmo assim, a fortificação continuou a mostrar-se vulnerável a ataques de terra, mas só com a ajuda de um subterfúgio que tudo facilita: o dinheiro. Em dezembro de 1640, os apoiantes do duque de Bragança, futuro D. João IV, cercaram o Forte de São Julião e convenceram o governador Fernando de la Cueva e as suas forças da guarnição a render-se, em troca de uma recompensa. Foi o princípio do fim da união das coroas ibéricas e da dinastia filipina em Portugal.

 

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