Longe de mim

altSe o meu chefe aqui na SU­PER não se distraiu, a fi­chi­nha de autor no final des­ta crónica traz indicação nova: “aposentada”. Sim, é isto. Fo­ram trinta e seis anos e nove meses na Universidade de Lisboa, pre­ce­didos de quatro e meio na Univer­si­dade Federal de Minas Gerais e mais sete desde o instante em que pe­la primeira vez entrei, como pro­fes­sora de ensino secundário, na sa­la de um colégio privado em Be­lo Ho­rizonte. Ia eu no segundo ano do cur­so universitário, tinha de­za­no­ve anos. Na carteira profissio­nal pro­vi­só­ria então emitida (cadernetinha feio­sa, páginas amareladas, capa de um castanho sujo) e que ainda guar­do, vejo carinha mais redonda, emol­durada pelo que na minha fa­mí­lia se chamava “cabelo massaran­du­ba” – pouco receptivo a pentes e escovas. A seriedade da pose su­bli­nha uma boca grossa, nada con­seguindo, contudo, quanto aos olhos apertadinhos que levavam mui­ta gente a me chamar índia, às vezes sertaneja. Pareço reserva­da, mesmo assustadiça, como se fu­gis­se da câmara. Quarenta e oito anos de­pois continuo avessa a fotos, ques­tão de princípio ou de pura cis­ma.


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Vai e...

altSuponha que num ataque de masoquismo lhe venha à cabeça regressar a momentos marcantes, pela negativa, na sua vida passada. Suponha que esse ataque de masoquismo a (o?) transporte à sua escolaridade, da primária à universitária, com muito seguras hipóteses de serem as masoquísticas recordações mais numerosas na primeira que nas últimas daquelas fases, isso porque quanto mais novos e imaturos mais capazes somos de sofrer o sofrimento. A menos, naturalmente, que o contrário seja a verdade. Mas nisso de verdades, quanto mais vivemos mais desaprendemos, ao contrário do que agradaria ao senso comum. Quando mais se vive mais se desaprende e quanto a isso muito pouco, seguramente menos que muito pouco se pode fazer. Posto isso, comecemos a enrolar, com a aconselhável cautela, a pescadinha da crónica.


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Questão de línguas?

altO aprendizado de línguas integrava, e julgo que ainda integrará, rituais de que alguns leitores certamente se lembrarão, outros muito seguramente ainda praticarão. Havia, por exemplo, e poderá ainda haver, a leitura em voz alta, feita por toda a classe, sob a regência (competente?) do professor. Era uma espécie de coral, onde a indisciplina das vozes desgarantia um mínimo de qualidade harmónica. Se recordo bem, a leitura-coral, integrando aulas de Francês, de Inglês e de Português, deixava ao mais total abandono o Latim. Se fizéssemos fé nesse aspecto da prática pedagógica, juraríamos que a língua do Lácio acabava, de certa forma, por ser muda, um corpo linguístico estranhíssimo feito só de sinais escritos em qualquer suporte, como a nossa ignorância pode fazer crer que ocorria com os hieróglifos egípcios ou com a misteriosa, a seu modo também sagrada, escrita cuneiforme. Em tempo pergunta-se: toda a escrita é sagrada e como tal de certa maneira muda? Se sim, safava-se o Latim dessa mudez com a ajuda dos celebrantes das missas de domingo. Introibo ad altare Dei, bichanavam eles aos coroinhas que contestavam, céleres, Ad Deum qui laetificat juventutem meam – e isso mesmo que a juventude fosse letificada pelo futebol, pela namoradinha ou pelas aventuras de agarrar passarinhos nas arapucas do quintal. Isso de letificar tem muito que se lhe diga…


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Tentáculos do Tempo

altEm epígrafe a um dos subcapítulos de The Past is a Foreign Country, põe David Lowenthal uma citação de Harold Pinter, onde se lê ser o passado formado pelo que lembramos, pelo que imaginamos lembrar, por aquilo que acreditamos lembrar, pelo que fingimos lembrar… A ser verdade, como parece, o passado não é um dado, é um constructo.


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Espelho

altPrecisava de um nome que garantisse o que a qualquer nome compete garantir. Precisava de um nome que não apenas o identificasse (quem?) mas que pelo menos sugerisse o onde e o para quê. Esta precisão não era do próprio, mas de quem o rodeasse e que a ele tivesse de achegar-se quando calhasse ou Deus fosse servido. Mas, mesmo não sendo precisão do próprio, a nomeação integrava, como sempre, a organização do mundo.


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Que palavra?

altDe cada livro lido guardamos passagens que nos tocaram o espírito, nos espicaçaram a sensibilidade ou ressuscitaram do fundo dos tempos, e por momentos mais ou menos longos, as memórias nítidas ou esborratadas que nos foram construindo ao longo da vida. De cada livro lido guardamos apenas passagens. Deitamos para o cofre do esquecimento aquilo que aquando de uma específica leitura, por razões que nos (ou me) escapam, fugiu por entre os frágeis dedos da memória.


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Obsessões

altHá dias em que você amanhece cismada. Por mais que se esforce, o seu pensamento ancorou forte e feio, não há maneira de se soltar. Você vai ficando irritada, olha para dentro e é sempre o mesmo. De irritada você passa a cansada, se tiver sorte fica exausta. Nesse caso vai dormir  – e acorda com outra âncora. As cismas podem ser músicas, fisionomias, lugares.


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Comboio à chuva

altNo filme África Minha, há duas sequências supinamente interessantes para quem se interesse por questões de discurso. Em ambas, estão Meryl Streep, Robert Redford e terceiro interveniente (quem seria?) a conversar, num serão, à luz e ao calor da lareira. Meryl está, no momento, a evocar aos dois companheiros coisas do seu passado. Conta, então, que era mestra em criar histórias a partir de uma frase qualquer que lhe dissessem. Ouvia a frase, pensava uns escassíssimos segundos e começava a contar a história. Robert Redford, querendo comprovar a veracidade do que acaba de ouvir, propõe uma frase, para servir de mote a Meryl. Ela ouve. Uma curtíssima pausa precede o contar.


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