O grande peregrino

altFernão Mendes Pinto não foi herói nem santo, mas o retrato vivo do povo, nas suas grandezas e misérias. O seu livro, Peregrinação, é uma verdadeira confissão nacional.

Vinte e um anos no Orien­te. Treze vezes aprisio­na­do e dezassete vezes ven­dido como escravo; via­jante nas “partes da Índia, Etió­pia, Arábia Feliz, China, Tar­tária, Ma­cáçar, Samatra e ou­tras muitas províncias daquele orien­tal ar­qui­pélago”, para não falar do Ja­pão, onde deixou uma recorda­ção que ainda se man­tém, já que po­derá ter sido tes­temunha da in­tro­dução da es­pingarda naquele país, feita talvez pelo seu compa­nhei­ro Dio­go Zeimoto. Além disso: mer­cador, espião, diplomata, la­drão e pirata; guerreiro e no­vi­ço je­suíta. Que mais lhe faltou? Numa só vida, condensou a aventura dos portugueses no seu império orien­tal. Não se po­de, em curto es­pa­ço, fazer-lhe o retrato completo – e aqui fi­cam já declaradas as mui­tas la­cunas em que vamos in­cor­rer –, mas podemos, pelo menos, re­cor­dá-lo.

Antes de mais: é impossível não estabelecer uma compara­ção entre Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões, naquilo que os apro­xima e naquilo que os dis­tin­gue. São contempo­râ­neos, am­bos aven­tureiros, am­bos an­da­ram pelo Oriente e ambos can­taram o im­pério, mas de mo­do bem dis­tin­to, na for­ma e no con­teúdo. Há, po­rém, um traço de continuida­de: em Os Lusíadas, Camões can­ta os heróis, evo­ca a glória e a ele­va­ção espiri­tual da constru­ção do im­pério, ao mesmo tem­po que apon­ta a “apa­gada e vil tris­teza” que era já a sua épo­ca; na Peregrinação, Fer­não Men­des Pin­to aplica uma lu­pa à tal apa­ga­da e vil tristeza e dá-nos, em por­menor, um qua­dro es­pantoso des­se império onde os ideais já só sobreviviam no es­pírito de uns pou­cos, como D. João de Castro, S. Fran­cisco Xavier e, de certo modo, a pró­pria coroa, enquanto o gran­de corpo nacional estava cor­roí­do pela ruim sede do ou­ro. Pas­sara o tempo do Gama, dos Al­mei­das e de Albuquerque.

altSó isto não chega para clas­si­ficar essa obra magnífica que é Peregrinação, sobre a qual, de res­to, se multiplicaram teses e en­saios eruditos, atri­buin­do-lhe qua­li­dades diferentes, por vezes con­tra­ditórias, tal como são di­ver­sas as teses so­bre a própria per­so­nalidade do seu autor.

Digam o que disserem as te­ses: pa­ra nós, hoje, Fernão Men­des Pinto é indissociável da Pe­re­gri­na­ção, que se apresenta co­mo uma autobiografia. O livro, jun­ta­mente com três cartas es­critas por Fernão Mendes, é ain­da a prin­cipal fonte que te­mos sobre a sua vida, e pelo li­vro sabemos que nasceu em Mon­temor-o-Ve­lho, “na miséria e estreiteza da po­bre casa” de seu pai, e que um tio, querendo en­ca­minhá-lo para me­lhor for­tu­na, o levou para Lisboa, teria ele dez ou doze anos, e o pôs ao serviço de uma dama “as­saz nobre”. Ano e meio depois, fu­giu, por um caso que lhe pôs a vi­da em risco. O autor não explica mais; segundo parece – veja-se, por exemplo, o comentário de Fer­nando António Almeida na edi­ção de Fernando Ribeiro de Mello (Afrodite, 1989) –, a dama “as­saz nobre” em ques­tão era D. Joa­na da Silva e Castro, casada com Francisco de Faria, alcaide de Palmela; a re­ferida dama teria um amante; o marido soube – e tu­do aca­bou em sangue, incluindo o da adúltera, mas seguir-se-ia o in­quérito sobre o pessoal da ca­sa, para apurar cumplicidades; daí a fuga precipitada do jovem Fer­não Mendes.

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SUPER 206 - Junho 2015


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