Sábio, artista e vítima

altExcelente pintor, oceanógrafo premiado, ornitólogo notável: isto lhe basta para ser um super-português. Como rei, foi vítima de um crime e de uma injustiça, ambos históricos.

Em setembro de 1898, na ci­dadela de Cascais, D. Carlos I dizia a Mouzi­nho de Albuquerque, pres­tes a ser nomeado aio do prín­cipe real D. Luís Filipe: “Tenho grandes imperfeições como homem e como rei…”

Ao falar assim, D. Carlos pecava por excesso de modéstia – uma mo­déstia atestada por várias per­so­nalidades que o conheceram. Pou­cos reis portugueses, ou melhor: poucos reis europeus terão mos­trado reunir tantas qualidades intelectuais e humanas. Ten­do em conta que ele nunca se exi­miu aos deveres do cargo de che­fe do estado, é surpreenden­te o leque de atividades que conse­guiu desenvolver: pintura, cerâmica, fotografia, oceanografia, ictio­lo­gia, ornitologia. Era também – mes­mo na maturidade, apesar do seu físico – um bom desportista. Acres­cente-se que falava fluente­men­te francês, inglês, alemão, ita­liano e espanhol, além de ter es­tu­dado latim e grego clássico.

No desenho e na pintura, D. Car­los tinha como antecessor, na fa­mí­lia, o seu avô, D. Fer­nan­do II, muito frequentemente de­sig­nado co­mo “rei artista”. O ne­to, porém, su­plantou-o em qua­lidade. Aluno de Teodoro da Mo­ta, Enrique Ca­sa­nova e Miguel Ân­gelo Lupi, não só aproveitou as li­ções dos seus mes­tres como foi ca­paz de desen­vol­ver o seu próprio estilo. Fez mais: pôs também es­se talento ao ser­viço da ativi­da­de científica que desenvolveu.

Um exemplo: na sua época, a or­nitologia, na península Ibérica, es­tava, por assim dizer, na idade da pedra – em Espanha era quase ine­xistente e em Portugal havia me­nos de uma dezena de ornitó­lo­gos. Um deles era o rei, que não só estudou as espécies exis­ten­tes co­mo as desenhou. Assim veio a sur­gir o seu Catálogo Ilus­tra­do das Aves de Portugal, con­cluí­do quando tinha 24 anos, embora só publicado mais tarde:
já desde os treze anos que ele recolhia dados que des­tinava a um futuro museu de or­nitologia.

Temos, portanto, o desenho, a pin­tura e a ornitologia como ­áreas em que D. Carlos brilhou, por mérito próprio. O quadro, porém, ficaria gravemente incom­ple­to sem a oceanografia e sem os estudos sobre as pescas por ele rea­lizados. Refira-se, aliás, que, em matéria de oceanografia, o rei – assinando sobriamente como “D. Carlos de Bragança” – viu tra­balhos seus premiados no es­tran­geiro, incluindo um primeiro pré­mio conquistado em Itália. As cam­panhas oceanográficas do ia­te real Amélia estão abun­dan­te­mente documentadas. No­te-se que, para além do seu gos­to pes­soal, o monarca visava ob­jetivos prá­ticos: os dados reco­lhidos de­ve­riam ser aplicados no aperfei­çoa­mento das pescas nacionais. Tanto assim que, de 1896 a 1903, D. Carlos estudou muito atenta­men­te as épocas de passagem de vá­rias espécies de peixes pelas águas portuguesas e esses estudos mos­traram ser úteis durante um lon­go período. O material recolhi­do durante as campanhas ocea­no­gráficas foi doado ao Aquário Vas­co da Gama, no Dafundo, fun­da­do pelo rei.
Enfim, interessa recordar a sua li­gação com os jovens intelectuais seus contemporâneos. Nomeada­men­te, com o famoso grupo “Os Vencidos da Vida”, que incluía, en­tre vários outros, Ramalho Or­tigão, Eça de Queirós, Guerra Jun­queiro, Oliveira Martins e o fu­tu­ro marquês de Soveral.

Em maio de 1886, sendo ainda prín­ci­pe real, D. Carlos casou-se com a princesa Maria Amélia de Or­léans (um casamento de amor e não de política, a propósito…) e o ca­sal instalou-se no Palácio de Be­lém. Aí, o jovem príncipe recebia os seus amigos “Vencidos da Vi­da” – que, descrentes do rumo que a política portuguesa levava, o in­ci­ta­vam a adotar um maior in­ter­ven­cionismo por parte da co­roa.

altMestre em diplomacia

É ao chegar a este ponto que po­deremos ouvir o coro dos críti­cos: pois, pois, dirão; o senhor até se­ria um bom artista e um bom cien­tis­ta, mas em política foi um de­sas­tre. Afinal, ele era o rei, o chefe do estado, e o que fez? Criou um di­ta­dor, João Franco; dei­xou que o país ficasse à beira da bancarrota. Além dos seus gas­tos extrava­gan­tes, houve ainda o escândalo dos adiantamentos à Ca­sa Real, a ques­tão da Lista Ci­vil!
É curioso: embora haja quem faça estas críticas sinceramente, por pouco ou nenhum conheci­men­to, também há ainda, passado um século, quem as faça por um não muito honesto propagandis­mo.

Poucos soberanos terão sido tão caluniados, em vida e depois da morte, como D. Carlos I. A en­xurrada começou logo no início do seu reinado, um início ex­tre­mamente difícil. D. Carlos foi acla­mado em outubro de 1889 e lo­go no ano seguinte sobreveio o ul­timato inglês. Foi um maná para a propaganda republicana, que apro­veitou a onda de indignação po­pular e de ódio à Inglaterra para atacar a família real, que acu­sa­va de anglofilia. Ao facto de o rei ter imediatamente devolvido a Londres todas as suas condeco­ra­ções inglesas não foi dada rele­vân­cia. Da mesma forma, ainda hoje é quase desconhecido um ou­tro facto: quando, por causa do ultimato, foi patrioticamente lan­ça­da uma subscrição nacional pa­ra reforço da marinha de guerra, um quarto do total reunido foi da­do pela família real, tendo o rei à cabeça, obviamente.

Com uma persistência e uma ha­bilidade pouco vulgares, o mo­nar­ca empenhou-se em “limpar” a ima­gem do país na cena interna­cio­nal. Para isso, visitou diversos paí­ses e em todos soube criar ami­zades e conquistar admiradores. Por seu turno, recebeu vários che­fes de estado estrangeiros: Eduar­do VII de Inglaterra, que fez a sua primeira visita oficial, co­mo rei, vindo a Portugal; Afonso XIII de Espanha; o imperador Gui­lherme II da Alemanha; o pre­si­dente Loubet de França; o rei do Sião (a moderna Tailândia). É di­fí­cil, hoje, apreender o significa­do destas visitas de estado, tal como elas eram vistas no século XIX, mas bastará dizer que o rei de Por­tugal se tornou muito popular nos países que visitava, graças ao seu encanto pessoal. Com isso, cla­ro está, o verdadeiro beneficiá­rio era o país.

Um país que não entendia o seu so­berano, ou que o entendia mal. É verdade que, diante das multidões, D. Carlos se retraía por timidez e parecia distante, ou mesmo ar­rogante, o que, segundo aqueles que o conheceram de perto, era com­pletamente falso. A pro­pa­ganda republicana, por um lado, e a inépcia e mesquinhez dos qua­dros dos partidos, por outro, eram causas muito mais eficazes pa­ra a falta de popularidade do rei no seu próprio reino.

Na impossibilidade de analisar, aqui, a situação política e social por­tuguesa nos finais de oitocentos, diremos, simplesmente, que se esgotara a fértil dinâmica da Re­generação e que o rotativismo par­tidário deixara de funcionar. Ve­rificava-se também um fe­nó­me­no muito semelhante à si­tua­ção atual nas democracias eu­ro­peias: os partidos estavam va­zios de ideologia e cheios de car­rei­ris­tas. No caso de Portugal, no sécu­lo XIX, havia (como hoje) um pes­si­mismo generalizado. Num texto no­tável (“D. Carlos, os anos equívo­cos”) publicado há anos no livro A Mo­narquia Portugue­sa, Augusto Fer­reira do Amaral aponta, como cau­sa provável de tal pessimismo, o défice em matéria de eco­no­mia e de instrução (o que, hoje, tam­bém não nos será estranho, des­graçadamente). Resumindo: a che­fia do estado era uma missão par­ticularmente difícil, que exigia ab­negação, espírito de sacrifício e muita coragem, e a D. Carlos I não faltaram essas qualidades.

O que lhe faltou foi o apoio da­que­les que tinham obrigação de o pres­tar. Monárquicos e republi­ca­nos en­carniçaram-se contra ele. Olhemos de perto as prin­ci­pais acu­sa­ções de que foi (e é) al­vo…

 

SUPER 219 - Julho 2016

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