Um milagre da escrita

altEstudado, analisado, dissecado e, não poucas vezes, imitado, Eça continua a resistir. A sua prosa é hoje tão viva e fresca como há 100 anos. Um caso único.

Rios inteiros de tinta e, mais modernamente, milhões de gigabytes têm sido consumidos para escrever sobre José Maria de Eça de Queirós. Não vamos tentar, sequer, resumir tudo isso. O que importa, muito além de todos os estudos e ensaios académicos, é relembrá-lo aos portugueses e mostrar, a quem não o lê, um pouco do muito que está a perder por vias de tal inércia.

Antes de mais, um breve resumo da sua vida: nasceu em 1845, na Póvoa de Varzim, e foi batizado em Vila do Conde – o que é já, de certo modo, uma primeira ironia (ainda involuntária, embora) da parte de alguém que viria a usar o humor como brilhante arma de arremesso: a Póvoa e Vila do Conde são vizinhas muito próximas, porém rivais acirradas. Ao nascer numa e ser batizado na outra, fez com que cada uma solenemente o declarasse como património seu.

Os pais foram José Maria d'Almeida Teixeira de Queirós, magistrado, deputado e par do reino, e Carolina Augusta Pereira d'Eça, mas, horror e embaraço: não eram casados, o bebé José Maria foi registado como "filho de mãe incógnita". Curiosa situação jurídica para uma criança que não fora enjeitada nem posta na roda e de quem, portanto, seria mais fácil, por óbvias razões, desconhecer o pai do que a mãe. Fosse como fosse: o Dr. Teixeira de Queirós e D. Carolina Augusta só se casaram quando Eça tinha quatro anos e, mesmo assim, o reconhecimento completo como filho só foi feito 36 anos mais tarde, na altura do seu próprio casamento.

Com cerca de dez anos, foi internado no Colégio da Lapa, no Porto. Aí, terá sido aluno (disciplina de francês) do filho do diretor: José Duarte Ramalho Ortigão, que viria a ter o seu lugar nas letras portuguesas e que viria, também, a ser seu grande amigo e colaborador (O Mistério da Estrada de Sintra e As Farpas). Em 1861, foi para Coimbra e matriculou-se na Faculdade de Direito. Conviveu com Antero de Quental, participou na agitação intelectual que nesse tempo empolgava os jovens académicos e formou-se em 1866. Nesse mesmo ano, estreou-se na escrita – com um folhetim, género literário muito honroso e fértil, que viria mais tarde a ser radiofonicamente abandalhado e depois abandonado, nesta nossa era de telenovela estupidificante. Eça viria a ser um grande folhetinista; vários romances seus foram inicialmente publicados neste "formato".

Os primeiros textos saíram na Gazeta de Portugal e seriam, mais tarde, reunidos sob o título de Prosas Bárbaras, que Eça tinha escolhido, em conversa com Jaime Batalha Reis, para o caso de eles virem a ser publicados em livro. Depois, em fins de 1866, Eça estreou-se como jornalista ao ser escolhido para dirigir o jornal O Distrito de Évora, o que o levou para o Alentejo – mas por menos de um ano: além de ser o diretor do jornal, era também o seu único redator, o que, convenhamos, é inadequado. Regressou, pois, a Lisboa e começou a exercer advocacia, mas também este ofício não lhe agradava. Para abreviar estas apressadas notas biográficas, aponte-se a viagem ao Oriente (1869) com o conde de Resende, seu amigo, um breve cargo administrativo em Leiria e a entrada na carreira diplomática: cônsul em Havana (1872), em Newcastle (1874), em Bristol (1878) e em Paris (1888). Viria a morrer na sua casa de Neuilly em 1900.

A magia da escrita...

altO leitor interessado em extensa biografia poderá facilmente completar este curtíssimo resumo. Os dados biográficos inseridos servem, sobretudo, para ver como a vida e a obra do escritor se entrelaçam: como qualquer bom romancista, Eça levou para a ficção muito do que aprendeu na vida. Segundo se pensa, a sua condição de filho ilegítimo tardiamente reconhecido levou-o a considerar as possíveis consequências de um afastamento da família e a terrível possibilidade de um incesto – que surge em A Tragédia da Rua das Flores e Os Maias; da viagem ao Egito e à Palestina viria a nascer A Relíquia; a permanência em Leiria forneceu o cenário para O Crime do Padre Amaro; um percalço com a sua bagagem, descarregada por engano em Alba de Tormes (Espanha), e a propriedade da sua mulher, a Quinta de Vila Nova em Santa Cruz do Douro (Baião), criaram, em A Cidade e as Serras, o solar e a quinta de Tormes, que aliás se chamava Torges no conto (Civilização) que serviu de rascunho ao romance.

No fundo, o que importa, aqui, é chamar a atenção para a obra de Eça de Queirós e começar por aquilo que é, sem dúvida, o seu maior atrativo e que marca indelevelmente o seu lugar na literatura: a qualidade incomparável da sua prosa. Dizemos "incomparável" porque venceu já um século sem perder cor, nem ritmo, nem um só grama de encanto.

Geralmente, considera-se que Eça de Queirós foi um dos mestres do realismo em Portugal; admitamos que sim, mas... "Mas", porque a sua importância na ficção portuguesa ultrapassa os limites das escolas literárias. De resto, não poderemos chamar-lhe um realista "puro". Aliás, literariamente, nunca foi "puro". As Prosas Bárbaras são ainda marcadas pelo romantismo, porém já nelas brilham (contra a opinião do próprio escritor, na sua maturidade; daí chamar-lhes "bárbaras") o ritmo, a ironia e um vocabulário que, formalmente simples, é usado com tal mestria e vigor que cria no leitor como que uma "impressão visual". Muito curiosamente, nesta sua capacidade de descrição quase cinematográfica, Eça liga-se a um outro genial precursor, quatro séculos mais velho: o Fernão Lopes da Crónica de D. João I. O medieval Fernão Lopes, compreensivelmente, é bem menos acessível; quanto a Eça de Queirós, é, por assim dizer, imediato.

Continuando: após esse começo ainda romântico, temos a "fase dura", O Crime do Padre Amaro (certamente o mais "feroz" de todos os seus livros), O Primo Basílio, A Relíquia, A Capital, Os Maias – porém, frequentemente, o seu realismo tempera-se com outros aromas, como (ainda e sempre) a ironia e mesmo, por vezes, um certo lirismo. Enfim, na última fase da sua vida, com obras como A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras, Eça, o animal urbano e elegante por excelência, mostrou-se algo desiludido com a civilização, a moda e o progresso, pareceu acordar para o encanto rural português, para a vida simples, os valores éticos tradicionais… Porém – uma vez mais, porém… – não pôs de lado a crítica social nem a ironia.

Eça é, acima de tudo, Eça. Depois dele, a ficção portuguesa nunca mais foi a mesma.

O seu maior contributo, repete-se, terá sido lavar, arejar a prosa. As suas personagens não fazem tiradas oratórias – falam com naturalidade e vivacidade. Em vez de procurar vocábulos rebuscados e eruditos, constrói a escrita com palavras correntes, mas usa-os com infinita arte. Um exemplo, colhido em A Relíquia, o momento em que Raposo, o protagonista, na companhia do sábio alemão Topsius, desembarca em Jaffa, na Palestina, e conhece Paulo Potte, o seu guia na Terra Santa: "Topsius maravilhou-se com o seu saber bíblico. Eu, com palmadas pelo ventre, chamei-lhe logo – meu gajo! E, depois de valentes apertos de mão, fomos para o Hotel de Josaphat firmar o nosso contrato, bebendo vasta cerveja."

Beber vasta cerveja! Formalmente, é incorreto, está claro, mas não haverá modo mais expressivo para descrever a cena, para colocar o leitor à mesa do bar do hotel, com Raposo e Topsius e Potte. O mesmo se pode dizer desta passagem: "O serviço começou por ostras de Ning-Pó. Exímias! Absorvi duas dúzias com um intenso regalo chinês" (O Mandarim). As ostras, exímias?! Absorvidas?! Pois, mas a imagem, a evocação, a sensação são imediatas, o leitor como que sente na boca a delícia, o sabor das ostras de Ning-Pó…

A escrita de Eça de Queirós é tão envolvente e atraente que, dizem alguns críticos, encobre as fraquezas do romancista: uma certa superficialidade, tanto nas personagens como na trama dos romances e mesmo na crítica social; e um largo desconhecimento do Portugal profundo, do povo português – o Prof. Agostinho da Silva, por exemplo, faz notar que Eça conhecia bem menos a realidade portuguesa do que Júlio Dinis.

 

SUPER 220 - Agosto 2016

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