O grande rei escondido

altA linda história de Inês, contada e aumentada por poetas e prosadores, escondeu a obra deste rei, que foi um dos melhores governantes que Portugal já teve.

Vai sendo tempo de fazer justiça a D. Pedro I. Para isso, ser-nos-á necessário vê-lo através do "nevoeiro" criado pelo episódio de Inês de Castro – tanto no que se refere à lenda como à própria história. Não deveremos (nem poderíamos) ignorar esse episódio, mas devemos e podemos colocá-lo na sua justa perspetiva. Acima de tudo, não podemos nem devemos deixar que se mantenha em esquecimento, na memória dos portugueses, o que o país ficou a dever a este rei, ainda que uma boa parte da sua obra fosse depois destruída pelo seu filho e sucessor, D. Fernando I, que também teve boas qualidades, mas cuja atuação, nos domínios da guerra e da diplomacia, foi desastrosa.

A reputação de D. Pedro tem sofrido, antes de mais, por perder-se nos meandros do seu envolvimento amoroso com Inês de Castro, apesar de nesse domínio ele ter também um papel romântico – e desde logo atraente – de amante destroçado pelo infortúnio e pela severidade paterna. Porém, outros episódios da sua vida, nomeadamente os que ilustram o apego à justiça, contribuíram para lhe diminuir a estatura política e histórica. A par da tradição romântica da paixão por Inês, foi-se tecendo uma "lenda" de impetuosidade, de loucura, de crueldade e instabilidade psíquica. Assim, por exemplo, Herculano escreveu que D. Pedro foi "um doido com intervalos lúcidos"; e Júlio Dantas, que era médico, achou-se no direito de fazer um diagnóstico terrível que desembocava na epilepsia.

altNão há dúvida de que parece ter existido algum excesso na vida do oitavo rei da primeira dinastia portuguesa: excesso nos sentimentos, sobretudo, e excesso, também, em algumas das suas ações. Porém, para entender D. Pedro I – tanto quanto nos é possível – e para ter uma ideia mais exata e justa da sua estatura como governante, é preciso tentar olhá-lo de mais perto e enquadrá-lo na época em que reinou.

É preciso, ainda, ter em conta que a sua história está misturada com a sua lenda e que tem havido alguma tendência para tomar esta por aquela. Um exemplo eloquente é o do episódio do bispo do Porto, que Fernão Lopes relata, certamente por tê-lo colhido na tradição oral: ao saber que o bispo dormia com uma mulher casada, que ele fora roubar ao seu marido, D. Pedro encheu-se de fúria; mandou chamar o prelado, fechou-se com ele, sem testemunhas, despiu-o e, brandindo um chicote, forçou-o, com ameaças, a confessar o crime. Preparava-se então para chicoteá-lo quando alguns dos seus conselheiros, que tinham conseguido entrar no aposento, o dissuadiram, com grandes rogos, de fazer tal coisa.

O único senão, neste episódio, é sabermos que o Porto só teve um bispo durante o reinado de D. Pedro I e que esse bispo foi D. Afonso Pires, que exerceu o cargo entre 1359 e 1372. Não há notícia de qualquer conflito entre ele e o rei. Aliás, D. Afonso Pires teve sempre fama de ser virtuoso.

Haverá ainda outros exemplos de imaginação popular transformada em história, mas é preciso, também, tomar em consideração os costumes da época. Na verdade, D. Pedro I de Portugal não pode comparar-se, em crueldade e sobretudo em vidas destruídas, a Pedro I de Castela, seu contemporâneo e sobrinho. Em toda a Europa se passava o mesmo, e a Guerra dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra, não veio tornar mais brandos os costumes – bem pelo contrário.

 

SUPER 221 - Setembro 2016

Leia a SUPER numa das nossas versões digitais:

http://www.superinteressante.pt/digital

 


( 1 Voto )
 

GuiaTV

Escolha abaixo o canal.

Canal:

Data:

You need Flash player 6+ and JavaScript enabled to view this video.

Playlist: 0 | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11

Your are currently browsing this site with Internet Explorer 6 (IE6).

Your current web browser must be updated to version 7 of Internet Explorer (IE7) to take advantage of all of template's capabilities.

Why should I upgrade to Internet Explorer 7? Microsoft has redesigned Internet Explorer from the ground up, with better security, new capabilities, and a whole new interface. Many changes resulted from the feedback of millions of users who tested prerelease versions of the new browser. The most compelling reason to upgrade is the improved security. The Internet of today is not the Internet of five years ago. There are dangers that simply didn't exist back in 2001, when Internet Explorer 6 was released to the world. Internet Explorer 7 makes surfing the web fundamentally safer by offering greater protection against viruses, spyware, and other online risks.

Get free downloads for Internet Explorer 7, including recommended updates as they become available. To download Internet Explorer 7 in the language of your choice, please visit the Internet Explorer 7 worldwide page.