Bem-vindo à cidade 3.0

altDocumento: Mundo digital

Além de transformar os mercados e os meios de comunicação, a revolução digital altera a própria essência da democracia.

Nos primeiros compassos do século XX, o ainda remoto ano 2000 era visto como uma espécie de utopia tecno-social. De algum modo, todos estavam convencidos de que andaríamos em carros voadores, comeríamos alimentos em cápsulas, colonizaríamos a Lua e teríamos ao nosso serviço uma legião de andróides que fariam por nós as tarefas mais pesadas e desagradáveis. Afinal, a esperada revolução acabou por não ser nada disso. Pelo contrário, verificou-se de forma muito mais discreta. Todavia, produziram-se alterações tão profundas na nossa civilização que, na opinião de muitos historiadores da ciência, só podem ser comparadas às que foram desencadeadas pela descoberta do fogo.

Ninguém estava verdadeiramente preparado para a chegada da cultura digital, fruto da convergência entre a microelectrónica, a informática e as telecomunicações. O fenómeno surgiu como um desses “cisnes negros” de que fala Nassim Nicholas Taleb, especialista em matemática financeira: eventos imprevistos cujo impacto pode alterar o curso da história. Começou há cerca de 30 anos, quando se iniciou a produção em massa dos primeiros computadores pessoais. A progressiva miniaturização dos componentes, a inclusão de microprocessadores em cada vez maior número de dispositivos e o desenvolvimento de programas de gestão e de redes com capacidade para colocar rapidamente máquinas em contacto com outras deu origem a um mundo hiperligado, dominado pelas tecnologias da informação e onde, segundo as últimas estimativas do grupo de análise Internet World Stats, perto de 2000 milhões de pessoas utilizam a internet para comunicar entre si e interagir das mais diversas formas.

A digitalização produziu, além disso, uma mudança radical em algumas tecnologias que já estavam bem implantadas. Assim, em 1982, começaram a ser comercializados os primeiros discos compactos. Num abrir e fechar de olhos, o novo suporte tornou obsoletas as fitas de vídeo e as cassetes, que se deterioravam prematuramente e não permitiam um acesso tão rápido à informação. Hoje, o próprio CD entrou em declínio, ultrapassado por dispositivos mais pequenos, potentes e versáteis, como as memórias USB. Algo de semelhante ocorreu no mundo da fotografia. Em 2009, a Kodak anunciou que ia deixar de fabricar a gama de películas Kodachrome, um dos seus ícones e uma referência na história da fotografia: os rolos tinham-se tornado coisa do passado, relegados para o fundo das prateleiros pelos cartões de memória das câmaras digitais.

A derradeira manifestação do fenómeno é uma nova geração de engenhos portáteis que aumentam as funcionalidades de diferentes aparelhos electrónicos. É o caso dos tablet PC, como o iPad da Apple, e dos smartphones, que, para além de reproduzir e gravar imagens e sons, servem também de telefone, consola de jogos, editor de textos e escritório móvel, e permitem o acesso instantâneo à internet.

A penetração dos “telefones inteligentes”, em especial, está a ser tão espectacular que, segundo um estudo recente da consultora britânica Coda Research, especializada em novas tecnologias, nos próximos cinco anos irão vender-se 2500 milhões de unidades em todo o mundo, o que transformará esses dispositivos num produto de consumo tão importante como a televisão. A empresa de analistas Forrester Research confirma a tendência e assegura que um terço dos europeus deverá aceder habitualmente à internet, em 2014, através dos seus smartphones, e não apenas para navegar pela rede. De facto, os progressos tecnológicos estão a alterar gradualmente tanto a forma de acesso como as diferentes utilizações que fazemos da internet.

altO fim da “web”

Alguns especialistas advertem que a titânica World Wide Web, um sistema de visualização de documentos integrado por mais de um bilião de páginas que forma, actualmente, a coluna vertebral da rede, parece estar a abrir caminho a um novo tipo de experiência online. Segundo Chris Anderson explicou à revista Wired: “A pessoa levanta-se de manhã e verifica o correio electrónico recebido no seu iPad. Durante o pequeno-almoço, dá uma vista de olhos às novidades no Twitter e no Facebook. Enquanto se dirige para o escritório, utiliza o telefone para escutar um podcast [um ficheiro multimédia]. Depois, já no trabalho, mantém uma videoconferência através do Skype e consulta as notícias RSS [uma síntese, em tempo real, dos canais de informação subscritos pelo utilizador]. De regresso a casa, ouve música transmitida pela emissora Pandora [um serviço de rádio pela internet] e prepara-se para desafiar os amigos para uns jogos através de uma ligação Xbox Live. Resumindo: passou todo o dia na internet, mas não na Web.”

A Apple, com as suas 25 mil aplicações para o iPad e mais de 130 mil para o iPhone (e o férreo domínio que exerce sobre o software desenvolvido para os todos os seus dispositivos), é o navio-almirante desta nova tendência, que acaba por se tornar, sem dúvida, mais restritiva para o utilizador do que a WWW.

“Embora adoremos a Web tal como sempre foi até agora, aberta e sem barreiras, estamos a trocá-la por serviços mais simples e elegantes que, simplesmente, funcionam”, indica Anderson. Contudo, essa perda de liberdade não tem de ser forçosamente negativa. Os editorialistas da revista The Economist destacam, por exemplo, que os utilizadores dos dispositivos portáteis da Apple têm acesso a muitos serviços da internet através de aplicações, em vez de recorrer a um navegador. A companhia decide quais podem ser instalados, mas os clientes renunciam de boa vontade a um pouco de autonomia, pois ganham em segurança e facilidade de utilização.

Muitos desses serviços seguem o modelo da Web 2.0, um conjunto de tecnologias concebidas para fomentar a interactividade e a participação dos utilizadores através de comunidades, blogues, sistemas de avaliação de conteúdos... Alguns autores, como o historiador e empresário Andrew Keen, opinam que esta tendência espalha a anarquia, enfraquece a autoridade dos especialistas e torna-se, de modo geral, empobrecedora. O programador e escritor Paul Graham, uma das 25 pessoas mais influentes da internet, segundo a revista BusinessWeek, defende, pelo contrário, que estes sistemas contribuem decisivamente para promover a democracia, pois trata-se de um fenómeno que, além disso, também permite a qualquer amador produzir conteúdos ao nível de um profissional ou de uma empresa.

altDemocracia em linha

Com efeito, a rede pode ampliar o poder dos cidadãos e fazer que a própria sociedade se envolva nas tomadas de decisão políticas. Por um lado, é cada vez mais fácil consultar online a informação oficial, e as autoridades já permitem o cumprimento, pelo computador, de numerosos trâmites. Todavia, segundo Jim Dempsey, um dos responsáveis do Centro norte-americano para a Democracia e a Tecnologia, não se trata apenas de melhorar o acesso electrónico aos serviços públicos, isto é, ao e-Governo. O que verdadeiramente interessa é a participação activa dos utilizadores.

Assim, por exemplo, a Agência de Protecção do Ambiente dos Estados Unidos propôs aos cidadãos, há alguns meses, enviarem propostas sobre como combater o brutal derrame de crude no Golfo do México. “Agora, o cidadão pode organizar-se e colocar directamente questões aos seus representantes. Nas democracias, o activismo online, como o que se verifica através do Facebook e de outras redes sociais, já demonstrou que pode influenciar as políticas nacionais. Isso deve-se, fundamentalmente, ao facto de a arquitectura técnica da internet facilitar a comunicação entre indiví­duos. Ao contrário dos jornais, da rádio ou da televisão, trata-se de um meio descentralizado. Qualquer indivíduo com um computador ou com um telemóvel pode participar num debate público”, explica Dempsey.

Até na sopa

De acordo com o relatório E-Government Survey 2010, elaborado pelas Nações Unidas, a Coreia do Sul é o estado que melhor integrou a tecnologia na administração pública, o que permitiu melhorar a sua eficácia e transparência. Naquele país, praticamente todos os serviços públicos estão disponíveis online e são controlados em tempo real. Segundo o ranking de 2010 da Comissão Europeia (CE), Portugal é o quarto melhor país da União Europeia em sofisticação de serviços públicos online. Embora datado deste ano, baseia-se em dados de 2007, os quais mostram que, no prazo de três anos, o país passou da cauda da Europa para um meritório quarto lugar.

A outra face da moeda reflecte a postura de certos regimes autoritários, como a China, que demonstrou não só poder impedir o acesso a determinados sites (bastando para isso controlar as ligações e o tráfego da internet) como, também, saber utilizar a rede para vigiar com maior facilidade os activistas políticos. Num artigo para a Newsweek, Joshua Kurlantzick, da equipa de análise norte-americana Council on Foreign Relations, assinala que “as autocracias chegam a recorrer a cibercomentadores profissionais para apoiar os governos e ameaçar os opositores; a China tem cerca de 250 mil”.

Já em 2008 a luxemburguesa Viviane Reding, actual comissária para a Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania da CE, destacava, num discurso sobre o futuro da economia da internet, a necessidade de reforçar a cooperação internacional para melhorar três aspectos essenciais: aumentar a segurança geral da rede, evitar ciber-ataques como o que fez a Estónia entrar em colapso em 2007 e estudar os riscos para a privacidade que futuras inovações online possam implicar, nomeadamente a denominada “internet das coisas”.

Este último conceito surgiu no final da década de 1990, no seio do grupo de investigação Auto-ID Center, do MIT. Trata-se, essencialmente, de utilizar chips para identificar um objecto, incluir informação relevante sobre este e ligá-lo a outros por radiofrequência. A questão parece simples, mas as implicações são avassaladoras. Um frigorífico equipado com a tecnologia poderia detectar se um alimento ultrapassou o prazo de validade; saberíamos onde se encontra qualquer coisa em qualquer altura; os nossos veículos conheceriam os lugares de estacionamento livres mais apropriados para as suas características; os médicos teriam acesso instantâneo ao nosso historial clínico em caso de emergência...

Contudo, apesar das aparentes vantagens, a comunicação entre objectos coloca questões importantes. Por um lado, não foi esclarecido como afectará os direitos fundamentais dos cidadãos. Por outro, os cibercépticos temem que os seres humanos acabem por se sentir obsoletos num mundo em que as máquinas controlam cada vez mais coisas. A resposta de alguns peritos não deixa margem para dúvidas: temos de nos actualizar e unir-nos a elas; temos de transformar-nos em ciborgues.

 

Para saber mais

http://www.iot2010.org Página da conferência internacional sobre a “internet das coisas”, que terá lugar em Tóquio, entre 29 de Novembro e 1 de Dezembro.

http://www.casaleggio.it/thefutureofmedia O minidocumentário Prometeus - A Revolução dos Meios apresenta um futuro no qual os meios tradicionais desa­pa­receram e a vida virtual é o maior mercado do mundo (desactive as legendas em alemão).

 

O dinheiro vivo tem os dias contados

O temporal que atinge a economia mundial não existe na rede. O comércio electrónico deverá crescer 19 por cento na Europa este ano, de acordo com um estudo da Kelkoo, um site especializado em comparar os preços praticados pelo retalho na internet. Com efeito, o volume de negócios do comércio online atingiu 144 mil milhões de euros, o que representa 4,7% da facturação total do sector. Alemanha, França e Reino Unido são responsáveis por 70% do total das vendas online na Europa. O êxito do comércio digital, cada vez mais fácil, rápido e seguro, e dos sistemas de transacção electrónica como o PayPal (que permite aos utilizadores transferir dinheiro através da internet em vez de usarem cheques ou vales postais), alargou o debate sobre a con­ve­niên­cia de continuar a recorrer a dinheiro real. De facto, muitos consumidores já preferem realizar as suas operações exclusivamente com cartões bancários; em países como o Japão ou a Coreia do Sul, já se tornou habitual fazer compras com o telemóvel, e algumas comunidades suecas propõem abertamente a eliminação do dinheiro para melhorar a segurança dos cidadãos.

No que todos os peritos estão de acordo é que a extinção do papel-moeda não irá chegar de um dia para o outro. Ainda existem importantes desafios, como interceptar o pagamento fraudulento pela internet ou a duplicação de cartões, que as legislações de muitos países não contemplam ou não sabem como enfrentar. Os sistemas electrónicos de pagamento obrigam os utilizadores a identificar-se, um requisito que poderia tornar as compras e vendas mais transparentes e dificultar a circulação de dinheiro sujo. Para outros, todavia, trata-se de uma intromissão inaceitável na privacidade do indivíduo. De acordo com a Talaris, uma empresa especializada no tratamento do dinheiro e dos seus ciclos comerciais, o papel-moeda é universalmente aceite e não está sujeito a gastos ou comissões pela sua utilização, o que lhe proporciona uma nítida vantagem sobre outros meios de pagamento.

 

SUPER 151 - Novembro 2010


( 0 Votos )
 

Últimas publicações

Publicações relacionadas

GuiaTV

Escolha abaixo o canal.

Canal:

Data:

You need Flash player 6+ and JavaScript enabled to view this video.

Playlist: 0 | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11

Your are currently browsing this site with Internet Explorer 6 (IE6).

Your current web browser must be updated to version 7 of Internet Explorer (IE7) to take advantage of all of template's capabilities.

Why should I upgrade to Internet Explorer 7? Microsoft has redesigned Internet Explorer from the ground up, with better security, new capabilities, and a whole new interface. Many changes resulted from the feedback of millions of users who tested prerelease versions of the new browser. The most compelling reason to upgrade is the improved security. The Internet of today is not the Internet of five years ago. There are dangers that simply didn't exist back in 2001, when Internet Explorer 6 was released to the world. Internet Explorer 7 makes surfing the web fundamentally safer by offering greater protection against viruses, spyware, and other online risks.

Get free downloads for Internet Explorer 7, including recommended updates as they become available. To download Internet Explorer 7 in the language of your choice, please visit the Internet Explorer 7 worldwide page.