Ladrões industriais

Com e sem computadores

altApoderar-se dos segredos dos rivais é algo tão velho como a humanidade, e tem vindo a aumentar: a era digital proporcionou novas ferramentes aos espiões, quer ajam por vingança quer sejam toupeiras perfeitamente infiltradas.

No século VI, Justiniano tinha um problema com a China. Aquele país produzia e comercializava um dos materiais mais valiosos do mundo: a seda. O imperador, que estabelecera a sede do Império Romano em Bizâncio (que passara a chamar-se Constantinopla), não conseguia assegurar o abastecimento do caríssimo tecido devido às guerras fronteiriças. Até que recebeu alguns monges chineses, que se ofereceram, por determinado preço, a viajar até ao seu país e regressar com todos os segredos do processo de elaboração. Não só cumpriram a missão como voltaram trazendo larvas de bichos-da-seda escondidas em canas de bambu. Assim, Justiniano conseguiu criar o seu próprio mercado, obtendo enormes lucros e arrebatando o monopólio aos chineses.

É habitual pensar-se que o interesse em roubar segredos comerciais é coisa do capitalismo moderno, mas a verdade é que sempre existiu onde quer que houvesse dinheiro e produtos valiosos pelo meio. Aconteceria novamente no século XVIII, quando o jesuíta francês François Xavier d'Entrecolles se introduziu numa fábrica de porcelana chinesa e conseguiu conhecer os seus métodos. Voltou a acontecer no século seguinte, quando o botânico escocês Robert Fortune se disfarçou de chinês para se poder infiltrar no país e levar para a Índia (então sob domínio britânico) os segredos sobre o cultivo e a elaboração do chá.

Entre os monges e agentes disfarçados da Antiguidade e o atual pesadelo da ciberespionagem, percorreu-se um longo caminho, mas sempre com a mesma finalidade.

Comunicação, armas e energia

altQualquer empresa pode ser vítima destas infiltrações, mas alguns campos atraem mais interesse do que outros. Um relatório apresentado ao Congresso dos Estados Unidos, em 2011, pelo Centro de Contra-inteligência e Segurança Nacional (NCSC, na sigla em inglês) revelava os setores mais expostos à voracidade dos espiões: tecnologias de informação e comunicação; dados sobre recursos naturais escassos; tecnologia militar, sobretudo a relativa à navegação marítima ou aérea, com os veículos aéreos sem tripulantes (drones) em primeiro lugar; campos empresariais de rápido crescimento, como a energia limpa e tudo o que diz respeito ao setor da saúde.

O relatório referia-se principalmente a operações lançadas por governos estrangeiros ou por ciberativistas, mas não nos devemos esquecer de que boa parte da espionagem industrial é obra de empresas que procuram obter uma vantagem ilegal sobre a concorrência através do acesso aos seus projetos e sistemas de trabalho confidenciais. Por vezes, conseguiram-no, e continuaram infiltradas durante anos. Outras vezes, a empresa espiada, após descobrir o esquema, prefere não o denunciar, para não manchar a própria reputação e alarmar os acionistas e investidores. Por isso, os números sobre o volume e os efeitos económicos da espionagem industrial são difíceis de concretizar, embora todos os peritos que consultámos concordem que cresceu de forma espetacular graças às ferramentas da sociedade digital.

O FBI, por exemplo, fala em prejuízos na ordem dos 19 mil milhões de dólares para a economia norte-americana, só em 2012. A verdade é que as forças de segurança concentram grande parte dos seus esforços no combate à ciberespionagem.

Técnicas ancestrais

altQuase parece que ninguém espiolhava a empresa do vizinho antes da chegada dos computadores, mas nada mais distante da realidade. Bruce Goslin possui uma ampla experiência no campo da contra-espionagem. Trabalhou catorze anos na CIA, antes de mudar para o setor privado e dirigir uma filial da K2 Intelli-gence, uma companhia que presta serviços de informação e segurança corporativa e que é herdeira da agência Kroll, pioneira na transferência dos serviços das agências de detetives para o meio empresarial.

Goslin esclarece que não se deve confundir a espionagem industrial com a obtenção de informações sobre a concorrência, "que consiste em observar as empresas rivais, analisar o meio e detetar novas tendências ou inovações no mercado, o que é perfeitamente legal". Ao recordar as técnicas de espionagem aplicadas antes da era digital, porém, revela os extremos a que alguns estavam dispostos a chegar para descobrir os segredos da concorrência.

"A maneira mais simples era comprar o que o concorrente fabricava e analisá-lo", declara, acrescentando: "No entanto, também era importante saber como tinha sido fabricado. Nessa altura, ou se contratava a pessoa que montara a fábrica para fazer uma igual com o mesmo equipamento, ou se identificava os engenheiros e técnicos de produção para lhes oferecer um salário maior." A segunda estratégia é hoje afetada (embora não tenha desaparecido) pelas cláusulas de confidencialidade dos contratos.

Outras práticas já se integravam na espionagem pura e dura, como conseguir entrar numa fábrica e fotografá-la: "Era preciso esconder a máquina fotográfica numa mala ou em qualquer aparelho", recorda Goslin. Havia também táticas mais desagradáveis, como o dumpster diving, isto é, a imersão no lixo. Tanto para saber se um funcionário levava para casa informação confidencial como para roubá-la, o procedimento era o mesmo: examinava-se tudo o que havia no lixo e pagava-se mesmo uma quantia ao condutor do camião do lixo para separar e entregar determinados sacos.

 

SUPER 221 - Setembro 2016

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