Dissidentes digitais

altDocumento: Mundo digital

Alguns dos grandes especialistas em novas tecnologias consideram que a internet prejudica os processos de criatividade e aprendizagem, e que a Web 2.0 é uma perda de tempo.

Com as suas constantes distracções e interrupções, a rede está a transformar-nos em pensadores dispersos e superficiais.” O escritor Nicholas Carr, um dos enfants terribles da contracorrente digital, está convencido de que a internet possui efeitos devastadores nas nossas aptidões cognitivas e reduz drasticamente a capacidade de concentração. Além disso, diferentes estudos parecem confirmar que os textos cheios de hiperligações são mais difíceis de compreender do que os tradicionais, e que as pessoas viciadas no sistema multitarefa (essa forma de abordar vários assuntos em simultâneo tão característica do mundo online) são menos criativas e produtivas.

Carr defendeu, em “Is Google Making Us Stupid?”, um artigo muito debatido que publicou na revista The Atlantic em meados de 2008, que a internet nos transforma em simples descodificadores de informação. “Graças à tecnologia, talvez estejamos a ler mais do que nas décadas de 1970 e 80, mas fazêmo-lo de tal forma que a nossa capacidade para interpretar os textos e estabelecer associações mentais cararacterísticas da leitura atenta permanece quase inactiva.” Um estudo desenvolvido no University College de Londres sobre a “geração Google” (a dos nascidos depois de 1993) e sobre o seu modo de acesso à informação defende, essencialmente, a mesma ideia. O ensaio destaca que a maior parte dos internautas não costuma visitar mais de duas ou três páginas de um meio digital, e que poucas vezes lá volta; pelo contrário, prefere saltitar constantemente entre sites.

O autor não é o único a considerar que a omnipresença do digital pode afectar a nossa capacidade de reflectir, resolver problemas ou mesmo recorrer à imaginação. Entre os apóstolos do cibercepticismo, o nova-iorquino Jaron Lanier é, talvez, o mais excêntrico (exibe viçosas madeixas rastafáris e é um ávido coleccionador de instrumentos musicais exóticos, que também aprende a tocar) e o mais influente. Com efeito, em 2010, este informático teórico, pioneiro da realidade virtual, foi considerado pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes a nível mundial.

Em 2006, Lanier causou grande agitação com o ensaio Maoísmo Digital, no qual afirmava que a rede já não liga pessoas verdadeiras, mas serve de suporte a grandes colectivos anónimos (por exemplo, a Wikipédia), aos quais se atribui, erradamente, uma absoluta infalibilidade. Agora, em You Are Not a Gadget, Lanier acusa a internet de travar a criatividade e de reduzir as expectativas dos indivíduos.

Um espaço para o cinismo

Na sua opinião, a Web 2.0, denominação que alude às tecnologias online que fomentam a interactividade e a participação, transformou-se numa massa informe em que se torna impossível reconhecer o talento e se vêem, de modo geral, comentários com muito poucos argumentos, e também onde reina o cinismo. Segundo Lanier, a suposta liberdade que a Web 2.0 parece favorecer é mais para as máquinas do que para os seres humanos. “Os comentários nos blogues e os vídeos com brincadeiras insípidas podem parecer inofensivos mas implicam, no seu conjunto, um enorme exercício de comunicação fragmentada e impessoal que degrada a interacção entre pessoas. Quando se escreve sobre um tema quente, os utilizadores limitam-se a agrupar-se em bolhas, nas quais reforçam simplesmente os seus pontos de vista.”

O escritor norte-americano Lee Siegel, autor de Against the Machine – Being Human in the Age of the Electronic Mob, vai ainda mais longe e fala do apogeu do blogofascismo. Na sua opinião, a retórica da blogosfera está dominada pelo insulto e pela intimidação. Sublinha, igualmente, que a Web 2.0 destrói a autoridade dos especialistas e afecta de forma muita negativa o progresso da sociedade e da cultura, sendo a sua razão de ser, simplesmente, promover a concretização dos objectivos de diferentes interesses comerciais.

Por sua vez, Lanier também denuncia que o colectivismo de que a Web 2.0 faz gala tem dado origem a um negócio cultural insustentável. “Se pretende saber o que está a acontecer numa sociedade, basta-lhe seguir o dinheiro. Se a Web se inclina mais para a publicidade do que para a arte ou o jornalismo, é por estar mais interessada na manipulação do que na beleza ou na verdade. Tudo isso deu origem a um novo tipo de contrato social. Nele, os autores, jornalistas, músicos e artistas têm de tratar os frutos do seu intelecto como peças a entregar gratuitamente à mente-colmeia da Web. A reciprocidade adquire a forma de autopromoção. Deste modo, a cultura transforma-se em mera publicidade”, assevera Lanier.

Estas conclusões não agradaram a todos. Na revista digital Slate, o divulgador Michael Agger assinala que as ideias de Lanier e dos seus colegas se destinam a uma elite tecnológica que já não tem tanto peso como há alguns anos. “Agora, o impulso está concentrado na democratização da Web e das suas aplicações, como se pode ver no Flickr ou nas redes sociais Twitter e Facebook.”

Um relatório para o Wall Street Journal elaborado por Clay Shirky, um consultor especializado no impacto das tecnologias online, destaca que, actualmente, a maior parte dos conteúdos são da responsabilidade de amadores que mal conhecem as práticas profissionais dos meios; para os críticos, são “medíocres e degradam os critérios mínimos de qualidade”. É o que tem acontecido, insiste, sempre que se multiplicam as publicações: “Actualmente, através do YouTube, podemos ver, 24 horas por dia, vídeos cheios de historietas inúteis, mas as aplicações da tecnologia que realmente poderiam mudar o mundo estão ainda nos primórdios. É algo que também aconteceu na história dos meios em suporte de papel: os romances eróticos chegaram um século antes das primeiras revistas científicas.” De facto, sempre houve pensadores que se mostraram reticentes em relação às novas tecnologias. Sócrates, segundo narra Platão no diálogo Fedro, lamentava o desenvolvimento da escrita. Temia que as pessoas deixassem de exercitar a memória e se tornassem esquecidas.

 

SUPER 151 - Novembro 2010


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