Os cúmplices

altQuem ajuda os tiranos?

Um dirigente cruel não consegue executar toda a maldade sozinho: precisa do apoio de colaboradores e, frequentemente, de boa parte da sociedade. As razões que levam cidadãos aparentemente comuns e bem-intencionados a colaborar com a perversidade podem ser tão díspares como o medo, o oportunismo ou a submissão ao poder.

Na sua visita ao campo de concentração de Auschwitz, o papa Bento XVI afirmou que o povo alemão tinha sido utilizado como instrumento pelo nazismo. “Estou aqui como filho do po alemão, filho de um povo por cima do qual um grupo de criminosos chegou ao poder através de promessas mentirosas, em nome de expectativas de grandeza e de recuperação da honra da nação e da sua relevância; com promessas de bem-estar e, também, com a força do terror e da intimidação”, sublinhou o papa, visivelmente emocionado diante de um dos cenários mais terríveis do Holocausto.

Todavia, terá o povo alemão sido realmente vítima de um engano? Há quem pense que nenhuma ditadura se impõe e se mantém durante tantos anos sem o auxílio de uma parte importante da sociedade. O historiador Daniel Jonah Goldhagen, autor de Os Verdugos de Hitler, afirma que parte do povo alemão não foi vítima da perfídia do regime nacional-socialista mas, pelo contrário, colaborou ativamente no genocídio dos judeus: “Houve pelo menos cem mil alemães que contribuíram diretamente para a morte dos judeus, embora creia que o número de pessoas envolvidas no extermínio possa ascender a meio milhão.”

Goldhagen assegura que muitos desses assassinos não eram membros das SS, mas alemães comuns, gente vulgar. Se agiram como verdugos, não foi por um sentido inato de obediência, nem pelas pressões que Hitler e os seus sequazes exerceram. “O genocídio foi um projeto nacional”, denuncia este professor de história da Universidade de Harvard (Estados Unidos).

Significa isso que alguns povos estão mais vocacionados para o mal do que outros? A resposta é negativa. Não há nada num alemão que o torne pior do que um chileno ou um francês. Frequentemente, também se esquece que houve alemães que lutaram contra os nazis. A cultura germânica deu à luz cientistas de enorme valor, músicos geniais e grandes pensadores. Os alemães não foram os inventores do ódio contra os judeus. De facto, o Holocausto representou o apogeu de séculos de antissemitismo em toda a Europa.

Laurence Rees, diretor criativo da BBC e especialista em documentários históricos sobre a Segunda Guerra Mundial, recorda que as autoridades britânicas das ilhas de Jersey e Guernsey (único território do Reino Unido ocupado pelos alemães) permitiram que os seus concidadãos judeus fossem deportados para os campos de concentração, em 1943.

O que teria acontecido se a Gestapo e as tropas da Wehrmacht tivessem ocupado Londres? Teria havido tanto colaboracionismo em Inglaterra como na França ocupada? Não houve centenas ou milhares de franceses, italianos, espanhóis, suecos e cidadãos de outros países europeus a colaborar com o regime de Hitler? Claro que sim. Podemos dar-nos ao luxo de esquecer os anos negros do nazismo e omitir os apoios sociais com que contou?

altA ditadura sanguinária de Pol Pot

É verdade que os cambojanos sofreram a selvática ditadura do sanguinário Pol Pot entre 1975 e 1979. Em quatro anos, o país asiático perdeu dois dos seus sete milhões de habitantes. Todavia, este horror, que paralisou boa parte da população, não podia ocultar a existência de uma corte de cúmplices que ajudaram o ditador a manter-se no poder. O último líder dos Khmers Vermelhos, Ta Mok, o Carniceiro, morreu em julho de 2006: companheiro e sucessor de Pol Pot (que faleceu em 1998), foi, na opinião de muitos historiadores, o maior criminoso do século XX, a par de Estaline e Hitler. A guerrilha maoísta cambojana tinha conseguido montar uma terrível engrenagem genocida e repressora que fomentava a denúncia. As crianças espiavam os adultos para acusá-los de crimes contra o povo, embora as denúncias fossem quase sempre inventadas. Entre as diversas proclamações dos ­Khmers Vermelhos, há uma que se destaca como especialmente paradoxal: “Esta é uma revolução sem mortos.” Posteriormente, surgiriam as valas comuns com os restos das vítimas.

Os líderes guerrilheiros asseguravam que necessitavam apenas de um milhão de “bons revolucionários” para pôr de pé a nova sociedade que pretendiam construir. O destino dos restantes cambojanos era a morte. Kang Jek Iev, antigo comandante da prisão de Tuol Sleng, foi julgado e condenado, em julho de 2010, por crimes contra a humanidade, assassínio e tortura. A pena foi aplicada pelo tribunal internacional instituído pelas Nações Unidas e pelo governo do Camboja, mas o réu apresentou recurso para uma instância superior. Outros antigos cabecilhas dos Khmers Vermelhos só viram os seus julgamentos começar em julho deste ano, ao mesmo tempo que têm surgido algumas críticas internacionais ao tribunal apoiado pela ONU, por poder vir a sucumbir a pressões governamentais.

Circunstâncias semelhantes ocorreram na Rússia com a política de terror aplicada por Estaline ao povo soviético. Milhares de cúmplices tornaram possível a existência desse regime totalitário que assassinou milhares de pessoas. A ânsia de prosperar e o apego ao poder de burocratas, polícias e militares garantiram a permanência do ditador no Kremlin. Curiosamente, o poderoso e temível Estaline era um homem paranoico que se sentia ameaçado por fantasmas inexistentes.

Recluído no interior do Kremlin, o ditador via em toda a parte agentes duplos, espiões e inimigos. Quando decretava a detenção de qualquer funcionário, as pessoas partiam do princípio de que devia ser um inimigo do povo. Os acólitos de Lavrenti Beria, que chefiava a polícia secreta soviética (NKVD), torturavam brutalmente os desafetos ao regime. Fabricaram provas que implicaram milhares de russos em supostos crimes contra o povo.

Por que será, então, que os membros do Politburo não se insurgiram contra Estaline? Como se explica esse culto da personalidade de um tirano que mergulhou o país numa verdadeira orgia de assassínios? Alguns historiadores defendem que a complexa teia de cúmplices que Estaline teceu em seu redor colocou nas suas mãos o controlo absoluto da nação. “Quem tentasse opôr-se a acusações e suspeitas sem fundamento, esgrimidas contra inocentes, acabava por tornar-se vítima da repressão”, assegurava o relatório que Nikita Kruschev apresentou perante o XX Congresso do PCUS, em 1956, três anos após a morte do ditador.

Com aquele texto demolidor, o qual mostrava o líder soviético como um déspota cruel, intolerante e incompetente, Kruschev acusou publicamente os cúmplices de Estaline. No entanto, esqueceu-se de que tanto o seu silêncio e os seus receios como os de outros altos funcionários e militares foram o que verdadeiramente conservou o ditador no poder durante tantos anos. “Estaline instaurou um terror completamente arbitrário. Qualquer pessoa podia ser denunciada como inimiga do povo. O medo transformou muitos russos em delatores. Não havia uma regra fixa na repressão”, explica Laurence Rees.

A história do século XX demonstra que algumas ditaduras conseguiram impor-se devido à colaboração ativa da população. Nesse mecanismo infernal, porém, também intervêm outros fatores determinantes, como o radicalismo religioso e o paternalismo. Apesar de ter causado a morte de milhões de compatriotas, Estaline foi considerado como “pai” e “benfeitor” do povo russo. Outros ditadores permaneceram no poder através do terror, como Idi Amin Dada, o ditador do Uganda que mostrava as execuções dos inimigos na televisão. Esta força brutal continua a ser exercida, atualmente, pelo líder do Uzbequistão, em cujos cárceres apodrecem milhares de dissidentes.

altUma colónia para benefício próprio

O que todos os regimes totalitários costumam possuir em comum é a estrutura política. Chegados ao poder, o ditador e a sua camarilha distribuem pequenas parcelas de riqueza pelos cúmplices. Banqueiros, empresários, militares, médicos, advogados, polícias, jornalistas, intelectuais e altos funcionários recebem as migalhas do grande bolo controlado pelo déspota de serviço. Os julgamentos de Nuremberga demonstraram que Hitler obteve o inestimável apoio de médicos, juízes e empresários.

Em 1876, o rei Leopoldo II da Bélgica contou com um apoio semelhante para concretizar o seu projeto de colonizar e explorar a atual República Democrática do Congo, território vasto e riquíssimo que foi brutalmente administrado por uma legião de funcionários, exploradores e aventureiros sem escrúpulos. Depois de despojá-los da sua condição humana, os colonos europeus escravizaram os habitantes africanos e submeteram-nos a trabalhos tão aviltantes e extenuantes que muitos não conseguiram sobreviver. Geógrafos, ativistas humanitários, militares, empresários e funcionários tinham tornado possível o sonho faraónico de Leopoldo II de fundar uma colónia africana para benefício próprio.

Sob o pretexto de incluir a Bélgica no clube das nações mais poderosas do mundo, o monarca conseguiu tornar-se imensamento rico. Nos seus delírios de grandeza, Leopoldo II propôs a criação de grupos de crianças para reforçar a exploração agrícola, mineira e de madeira na colónia. A feroz repressão ceifou a vida de cinco milhões de congoleses. A terrível voragem de saques, violações e assassínios no Congo belga foi descrita por Joseph Conrad no romance O Coração das Trevas, uma história terrível que viria a ser adaptada ao cinema anos depois (embora a ação fosse transferida para o Vietname), por Francis Ford Coppola, no filme Apocalypse Now (1979).

As instituições financeiras, as grandes empresas e os governos de muitos países também foram cúmplices dos crimes perpetrados pelas ditaduras mais sangrentas do século XX. Se os nazis conseguiram pôr a salvo parte do ouro e dos fundos financeiros que roubaram aos judeus foi graças ao contributo de alguns bancos suíços. E as multinacionais norte-americanas Ford e IBM fizeram ouvidos de mercador às críticas de que o regime nazi era alvo nos Estados Unidos. O seu objetivo era fazer negócios lucrativos com Berlim. As embaixadas do Velho Continente não deixaram transparecer grandes reparos aos crimes de Leopoldo II no Congo. O mesmo se poderá dizer da atitude passiva da sociedade norte-americana de finais do século XIX perante a expoliação de terras e a brutal repressão exercida pelo exército sobre as tribos autóctones.

altUm terço do orçamento para a coroação

O antropólogo Alberto Sánchez Piñol, autor de Palhaços e Monstros, um livro que traça o perfil dos principais tiranos africanos do século XX, sublinha que foram os pára-quedistas franceses os responsáveis pelo golpe de estado na África Central que permitiu a subida ao poder do sanguinário Bokassa. “Não é de estranhar que o ditador africano prestasse homenagem aos seus modelos e se coroasse imperador ao estilo de Napoleão”, assinala Piñol. Em 1977, Bokassa tornou-se, com a aprovação do governo francês, imperador do novo Império Centro-Africano. O custo da sumptuosa cerimónia ascendeu a 150 milhões de francos, um terço do orçamento nacional do país. Meses antes da coroação, os ministros de Bokassa haviam solicitado ajuda internacional para combater a fome que afligia a população devido à seca.

Tal como Paris apoiou ditadores africanos, Washington auxiliou déspotas de todos os géneros. Richard Labévière, autor do livro Os Dólares do Terror – Os Estados Unidos e os Islâmicos, afirmou que Bin Laden foi “um produto dos Serviços Secretos americanos”. O primeiro encontro ocorreu em 1979, quando o futuro responsável pelo ataque terrorista contra o Pentágono e as Torres Gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, contactou a embaixada norte-americana em Ancara. Com o auxílio da CIA, Bin Laden organizou uma guerrilha de combatentes para dar cobertura aos mujahidin, os afegãos que combatiam os soviéticos.

Assim como muitos alemães levaram Hitler ao poder, outros povos também se lançaram nos braços de regimes totalitários. Tomás Eloy Martínez recorda que grande parte da sociedade argentina contribuiu para cimentar a ditadura imposta pelo general Videla em 1976. Na opinião do escritor, os seus crimes não teriam sido possíveis “sem o consentimento ou mesmo a aprovação entusiástica de quase toda a sociedade”.

Eloy Martínez afirma que os debates que se realizaram no país “dissimularam ou evitaram o facto de que havia, no quotidiano da Argentina, algo de perverso e doentio, e que essa perversão ainda pode prosseguir, latente, sob outros sinais”. É o que também pensam alguns intelectuais chilenos, os quais recordam o apoio dado por parte da burguesia de Santiago do Chile à ditadura de Augusto Pinochet.

O antigo presidente da Argentina, Carlos Kirchner (marido da atual chefe de estado, Cristina Kirchner), declarou, num discurso em que recordava os males do regime totalitário de Videla (condenado à prisão perpétua em Dezembro de 2010): “Não foi apenas da responsabilidade castrense, pois também os setores dominantes da vida económica e cultural contribuíram para construir essa Argentina submetida a uma estreita, mesquinha e exploradora conceção do mundo.”

No discurso, proferido perante uma audiência de militares, Kirchner afirmou ser indispensável uma reflexão séria sobre o triste período: “Um povo que não pense no seu passado e não o elabore corre o grave risco de repeti-lo”, sublinhou.

Tal expiação de pecados foi posta em prática pelos alemães no final da Segunda Guerra Mundial. As críticas de que foi alvo o escritor alemão Günter Grass por ocultar que pertenceu, aos 17 anos, às Waffen-SS (as tropas de elite do nacional-socialismo) não intimidaram o Prémio Nobel da Literatura. Grass continua a defender a necessidade de analisar, de forma crítica, os pecados cometidos pelo regime hitleriano durante a Segunda Guerra Mundial, “Devemos conhecer o que o nazismo fez, para a história nunca poder repetir-se”, afirma o autor de O Tambor.

Talvez esse exercício de memória histórica seja a fórmula secreta capaz de impedir o aparecimento de futuros ditadores.

F.C.

 

Intelectuais fascinados

Os escritores Curzio Malaparte, Gabriele d’Annunzio, Luigi Pirandello, Oswald Spengler, Ernst Jünger e o filósofo Martin Hei­deg­ger comungaram com o fascismo e o nazismo. Louis Ferdinand Céline, autor do magnífico romance Viagem ao Fim da Noite, foi um destacado antissemita que apoiou com fervor o Terceiro Reich. Obras monumentais do escultor alemão Arno Breker, o artista preferido de Hitler, decoravam o Estádio Olímpico de Berlim. Além disso, as instalações desportivas foram retratadas com mestria por Leni Riefenstahl, a grande cineasta do regime nacional-socialista. Se os nazis tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial, as esculturas de Breker teriam enfeitado a faraónica capital alemã que o Führer sonhava criar com o auxílio do arquiteto Albert Speer.

Conhecidos intelectuais de esquerda, seduzidos pela propaganda do Komintern, também fizeram a apologia do regime totalitário de Estaline. Apenas alguns, como Albert Camus ou André Gide, abandonaram a tempo a sua militância inicial. A escritora Marguerite Duras deixou o Partido Comunista francês, enquanto Sartre (que apoiaria, anos depois, a revolução cultural maoísta) era considerado “perigoso” por Moscovo. Em geral, todavia, os intelectuais ocidentais foram sempre mais “compreensivos” com os crimes do comunismo. Porquê?

 

O fundamentalismo religioso

Em alguns períodos da história, o fundamentalismo religioso desempenhou um papel determinante na perseguição e morte de “descrentes, ateus e infiéis”. A mentalidade ultraconservadora de frei Tomás de Torquemada durante o seu mandato como inquisidor-geral marcou a política interna dos Reis Católicos, em Espanha. Toda a sociedade entrou numa atmosfera sufocante de suspeitas, delações e detenções, com um horizonte sombrio. Dois anos antes da sua morte, Osama Bin Laden advertia os fiéis de que o zakat (contribuição anual obrigatória de cada muçulmano) teria de ser destinado, “única e exclusivamente”,  ao financiamento da Jihad, ou Guerra Santa. Solicitou igualmente aos imãs que pedissem apoio moral e material para os combatentes. O líder da Al-Qaeda recordava que “o homem culpado só é feliz se receber o seu castigo”. Anos antes do ataque a Pearl Harbour, o imperador japonês Hiro Hito, que era considerado uma espécie de deus vivo no seu país, abençoou os militares sanguinários que invadiram a Manchúria e estabeleceram um regime totalitário que martirizou e assassinou milhares de chineses.

 

Edição especial Os Maus da História


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