A origem do dinheiro

altUm mecanismo engenhoso

Couro, penas, peixe seco, sal grosso, aguardente, tabaco. Tudo isto já foi moeda corrente. Porém, a que resultou mesmo foi outra: o dinheiro falso, uma criação da Grécia Antiga que ainda hoje trazemos na carteira.

O dinheiro é um mecanismo engenhoso: permite que uma manicure compre pão sem ter de arranjar as unhas ao padeiro. Podemos resumir a sua essência numa palavra: fé. Basicamente, a fé de que vamos conseguir trocar os papéis que estão na nossa carteira ou os números que aparecem no site do nosso banco por coisas para comer, vestir e habitar.

No entanto, esta é uma noção incompleta. O dinheiro só é digno desse nome quando obedece a dois critérios: tem de ser uma coisa que toda a gente queira e não pode ser algo muito abundante (se não for escasso, não tem grande valor; se não tem valor, não é dinheiro).

Pense numa coisa que toda a gente quer ter. Água, por exemplo. Não podemos viver sem ela, por isso a água cumpre muito bem o primeiro critério. Mas não obedece ao segundo: é só ir à beira do rio ou à torneira da cozinha e ter a que quiser. Há demasiada abundância de água para que ela possa servir como dinheiro.

Agora, pense em comida. Já é diferente. Ao longo de toda a história da humanidade, a comida encaixou‑se sempre perfeitamente nos dois critérios. Primeiro, toda a gente precisa de comer, claro. Segundo, nunca foi simples produzi‑la a partir da terra. Caçar, então, é pior ainda. A comida sempre foi algo relativamente raro. Por isso, foi a primeira coisa a servir de dinheiro, e não apenas antes da invenção da moeda: antes do surgimento do ser humano.

Os chimpanzés são prova disso. Os machos dão carne às fêmeas em troca de sexo. Não é exatamente um comércio, no sentido “toma lá, dá cá”. Dividir o resultado de uma caçada com as macacas é um dos gestos que os machos têm para tentarem conquistá-las. Trata‑se da comida, a moeda mais antiga do mundo, a pagar o serviço mais antigo do mundo.

Quando o ser humano apareceu na Terra, as coisas não mudaram muito. Armado até aos dentes com lanças, fisgas, facas de marfim e um cérebro gigante, o Homo sapiens firmava‑se como o maior predador de sempre. Havendo caça, crescíamos e multiplicávamo‑nos à vontade. Depois, o ser humano foi percebendo que podia plantar alguma coisa para ter alimentos nas épocas de pouca caça.

Cada população foi desenvolvendo a sua agricultura e a sua pecuária de um modo particular. Nos lugares mais férteis, as coisas foram muito rápidas, e já conhecemos o resto da história: sem ter de passar o dia a caçar, a humanidade arranjou tempo livre para criar a escrita e a matemática, construir cidades... Porém, esta é uma explicação simplista. O legado mais profundo da agricultura foi outro: criou o dinheiro.

Dinheiro de argila

A imagem de cada um a produzir na sua horta para a sociedade é ficção. O que a agricultura fez foi levar as desigualdades sociais a um patamar inédito. Numa tribo de caçadores, os homens mais fortes e os líderes mais astutos obtinham vantagens, mas ninguém conseguia estar muito acima dos outros. Quase não armazenavam comida: caçavam de dia, comiam à noite e acordavam para caçar novamente.

Até se podia acumular uma certa riqueza, sob a forma de armas melhores ou prioridade na divisão de comida e de mulheres: acontece, ainda hoje, em todas as sociedades que mantiveram o modo de vida dos caçadores‑recoletores, como as tribos da Amazónia e de África; por isso, os antropólogos deduzem que no passado não fosse diferente. Esse grau de desigualdade podia ser péssimo para quem acabasse mal‑armado, mal‑amado e mal‑alimentado. Ainda assim, estavam todos mais ou menos no mesmo barco. Se a caçada fosse boa, toda a gente comia. Se fosse má, toda a gente morria. Se alguém conseguisse mais carne do que os outros, até podia usá-la como dinheiro para pagar algum favor, seguindo o exemplo dos chimpanzés, mas no dia seguinte começaria novamente do zero. Sem a possibilidade de acumular uma quantidade razoável de riqueza, a ideia de dinheiro não se aplica.

As plantações mudaram essa história. Quem possuía terras férteis tinha o poder. Comia, bebia e vestia o que quisesse, e tinha como produzir muito mais do que precisava. Quem não tinha a sua porção de terra estava numa situação pior. Eram cada vez mais os territórios ocupados pelas quintas, e praticamente já não havia caça em certas regiões. O que fazer, então? Trocar trabalho por comida.

Isso tinha dois lados. Primeiro, o mau: um grande proprietário agrícola podia facilmente ter dúzias de escravos a fermentarem o seu vinho, a cozerem o seu pão e a construírem a sua mansão de pedra em troca de migalhas – bastava manter um exército de seguranças bem alimentados para evitar um motim. Agora, o lado bom: homens que antes viviam a correr de um lado para o outro, atrás da caça, estavam a fermentar vinho, a cozer pão e a construir casas. Pela primeira vez na história do planeta, surgiam trabalhos altamente especializados. Deu tão bom resultado que nunca mais deixámos de viver assim, qualquer que fosse o sistema de governo.

Era trabalho em troca de comida? Era. A comida acabou por desempenhar exatamente o mesmo papel que o dinheiro tem hoje. Se alguém fosse um padeiro ou um construtor de casas melhor do que os outros, tendia a receber um naco maior do excedente de grãos e de carne do seu patrão, o latifundiário (figura que com o tempo receberia o nome de “rei”). Desta maneira, essa pessoa podia acabar por ter mais alimentos do que poderia consumir. Tinha o seu excedente particular. Se quisesse ter o seu próprio padeiro e vestir casacos de pele, trocava um pouco desse excedente por serviços e produtos deste tipo. Quem fizesse casacos de pele melhores podia vender tantas peças que teria também o seu excedente. E a coisa nunca mais acabava, como de facto não acabou.

Como se pode imaginar, andar por aí carregado com sacos de comida para trocar por outros produtos não era muito prático. Os babilónios, um povo que viveu no Crescente Fértil há quatro mil anos, criaram uma forma de resolver esse inconveniente e inventaram duas coisas que hoje conhecemos ainda melhor: as notas e os bancos. Não eram exatamente notas nem exatamente bancos. Depositavam‑se os sacos de grãos que se possuía em silos de armazenamento mantidos pelo rei (os “bancos”) e em troca recebia‑se uma placa de argila em que estava gravada a quantidade de mercadorias lá deixada. Essas placas eram as “notas” com que as pessoas passaram a pagar os serviços e a comprar coisas. Era dinheiro puro. Se se tivesse muitas dessas placas no cofre de casa, era‑se rico. Podia‑se comer, beber e vestir o que se quisesse.

Os mais abonados aprenderam a fazer as placas gerarem mais placas sem terem de se esforçar: emprestavam a juros. Se alguém precisasse de dez placas para comprar uma vaca, um desses banqueiros da Antiguidade poderia emprestar‑lhas, mas exigiria que lhe pagasse, depois, doze placas, com uma parte dos lucros que se conseguisse com o leite da vaquinha.

altOuro, prata e tabaco

As placas de barro da Babilónia podiam ser uma ideia genial, mas não foi a que vingou. O problema é que o lastro do dinheiro acabava por se estragar. Os grãos, às tantas, apodrecem e, nessa altura, as placas de argila deixavam de ter valor. Para que o dinheiro se tornasse mesmo dinheiro, era preciso que estivesse sob a forma de algo que durasse muito e que também respeitasse aqueles dois pré‑requisitos que a comida preenchia: ser algo relativamente raro e que toda a gente quer.

O sal cumpria esse papel. O seu valor intrínseco era o seguinte: num mundo sem frigoríficos, o que fazer para preservar a carne? Salgá‑la. Por isso, o sal era algo com procura praticamente tão garantida como a própria comida. Também era relativamente raro, já que o processo para o extrair do mar ou das minas não é simples.

Além de não apodrecer, tinha uma excelente vantagem sobre os grãos: era fácil de transportar. Desse modo, era natural que assumisse o papel de dinheiro, e foi isso mesmo que acabou por acontecer em várias culturas da Antiguidade. Resultou tão bem que ainda hoje os patrões nos pagam em sal, pelo menos etimologicamente falando. “Salário” era a remuneração que os legionários romanos recebiam sob a forma de sal, e a palavra ficou.

Couro, peixe seco, penas de certas aves, conchas bonitas, aguardente: praticamente qualquer coisa que muita gente quisesse e não fosse fácil de obter já foi usada como dinheiro. Até depois da invenção do dinheiro, e até no tempo e no espaço em que o nome do dinheiro já era “dólar”.

No estado norte-americano da Virgínia, por exemplo, o tabaco foi a moeda corrente mais usada desde a sua fundação como colónia, em 1607, até 200 anos depois, quando os Estados Unidos já eram um país rico e estabelecido. Era com tabaco que as pessoas faziam compras, pagavam impostos e... compravam as esposas: “Os galantes rapazes da Virgínia corriam para o porto quando um barco chegava de Londres, cada um deles com um rolo do melhor tabaco nos braços, e traziam de volta noivas jovens e virtuosas”, escreveu um cronista da época, o reverendo Parson Weems. “Além de galantes, os jovens tinham de ser fortes, já que os rolos pesavam mais de 50 quilos”, comentou Robert Chalmers, um economista do século XIX.

As formas exóticas de dinheiro só vingaram em situações muito específicas (no caso da Virgínia, não valia a pena trocar a mercadoria por moedas: como eles importavam praticamente tudo o que não fosse tabaco, era mais fácil pagar diretamente com esse produto). O que se tornaria o grande veículo universal de troca era outra coisa. O primeiro metal usado em grande escala pela humanidade, aquele que acabaria por fazer o papel das atuais notas foi justamente o cobre.

Como o cobre derrete a uma temperatura relativamente baixa (1000 ºC) e não é assim tão raro, foi o primeiro metal a substituir pedras e marfim na confeção de armas, por volta de 5000 a.C. Essas armas eram muito mais eficientes do que as antigas; por isso, quem tinha o cobre tinha o poder. Alguém não possuía uma parcela de terra? Era só juntar um grupo com espadas e lanças de cobre e roubar as terras a outra pessoa. Precisava de defender a sua gleba? Arranjasse cobre. Em tempos de paz, o cobre também era valioso, fosse na forma de caldeirões e panelas, fosse na forma de enfeites. Até era o mais comum. A humanidade produziu mais colares e brincos do que armas, e continua a produzir.

Imaginemos que tínhamos algo difícil de produzir (experimente minerar uma montanha de cobre...) e que toda a gente queria. Com uma vantagem sobre os sacos de grãos, o sal ou qualquer outra mercadoria: durava muito mais. Podia-se acumular cobre à vontade, e ele continuava ali, sem se estragar. Um soberano que trocasse grãos por cobre, para fazer espadas e colares, não perdia nada. Num momento de escassez, podia derreter uma parte do metal, transformá‑lo em barras e usá‑lo para comprar mercadorias a outros reinos. E era algo que podia ser passado de mão em mão através das gerações. As barras de cobre tornaram‑se a primeira moeda universal e, quando começaram a misturar cobre com estanho para fazer um metal mais resistente, muito melhor para forjar armas, esse derivado também se tornou moeda: o bronze.

altMetal inútil, mas precioso

Quando falamos em dinheiro,  o fator raridade é mais importante do que o fator utilidade. O ouro, por exemplo, não serve para nada além de deixar claro perante toda a gente que possuímos algo extremamente raro em casa, no pulso ou ao pescoço. É tão escasso que, se reuníssemos todo o ouro minerado na história da humanidade e o juntássemos num bloco maciço, teríamos apenas um cubo com 20 metros de lado. Isso dá a área de um prédio de sete andares, ou 142 mil toneladas, e é o que a Vale, a segunda maior companhia mineira do mundo, extrai de minério de ferro em seis horas.

Parte desse ouro perdeu‑se (em naufrágios, por exemplo) ou tornou‑se algo mais útil do que joias, como partes de peças industriais ou componentes de circuitos. A estimativa é de que 122 mil toneladas do metal continuem a circular na forma de investimento ou de joias. Ou seja, um Rolex pode ter um pouco de metal que já foi parte de uma moeda do Império Romano e outro tanto que já foi a próteses dentária de um mineiro do século XIX, cujo cadáver foi violado no cemitério por ladrões de dentes de ouro... Até os lingotes que os bancos centrais mantêm como uma parte das suas reservas podem ter metal que já esteve na taça Jules Rimet, o criador do Campeonato do Mundo de Futebol.

A prova de como os metais foram importantes no papel de dinheiro continuam em todo o lado. Várias moedas de hoje têm nomes que têm a ver com eles. A libra esterlina, por exemplo. Libra (pound, no original) é cerca de meio quilo; “esterlina” é um adjetivo para o grau de pureza da prata. Uma libra esterlina, então, significa literalmente “meio quilo de prata da boa”. Hoje, essa quantidade de prata custa muito mais do que uma libra esterlina: custa mais ou menos 20 libras (25 euros), mas a referência ancestral continua lá.

A moedinha número 1

Outra vantagem dos metais é que tudo passou a ter preços muito claros. Um documento egípcio de 1000 a.C. que regista a transação financeira para a compra de um boi ilustra muito bem isto mesmo. O animal valia 50 debens (4,5 quilos) de cobre. O comprador, porém, só tinha cinco debens, e completou o resto em alimentos e vestuário, como se fazia antes da ascensão dos metais, mas no documento esses produtos também aparecem cotados em debens de cobre: banha (30 debens), óleo (cinco debens) e roupa (dez debens) perfazem os 45 que faltavam. Cada coisa passou a ter um valor traduzido para uma unidade monetária, mas a maior revolução ainda não tinha acontecido: a criação do dinheiro virtual, o que temos na carteira.

É difícil saber se temos na mão uma embalagem de 100 ou de 125 gramas de presunto. Se o objeto em questão é presunto, 25 gramas a mais ou a menos não fazem grande diferença. Com ouro, prata ou cobre, é outra história. Por isso, qualquer transação financeira tinha de envolver uma balança, o que cria dois problemas. Primeiro, não é fácil depender da presença de uma balança sempre que formos comprar alguma coisa. Segundo, o comerciante pode desequilibrar a balança para dizer que o metal do cliente é menos pesado do que ele afirma, ou o consumidor pode chegar com metais “sujos”, cheios de outros minérios que não valem nada incrustados lá no meio.

Por volta de 600 a.C., o governo da Lídia, uma cidade‑estado que ficava na atual Turquia, resolveu acabar com a confusão fundindo metais preciosos em forma de pepitas com peso e grau de pureza predeterminados e imprimindo uma gravura em cada uma das peças, como um selo de autenticidade. Esta ideia mudaria tudo.

O papel das moedas na economia foi muito importante. Para entender como a moeda serviu de solução, temos de começar pelo problema. Imagine um governo que depende de ouro e prata para cunhar as suas moedas. Esse governo precisa de minerar o ouro e a prata para fazer dinheiro. Se a mina se esgota, é necessário muito tempo até encontrar outra e extrair novamente o metal precioso. Entretanto, a quantidade de moedas no mercado vai diminuindo com o tempo: as moedas não ficam para sempre no mesmo sítio. Se se compra algo de fora, a um comerciante estrangeiro, as moedas vão parar a outro país e ficam por lá, circulando na forma de metal precioso (ouro é ouro em qualquer lugar).

Quando a quantidade de moedas diminui, a economia mingua. As pessoas têm menos dinheiro no bolso, por isso compram menos coisas. Se as pessoas vão menos às compras, os produtores ficam com a colheita encalhada (e a estragar‑se), os tecelões fazem menos roupas, em suma: o país fica mais pobre. Pior: quem contraiu dívidas não consegue pagá-las. Como há menos dinheiro em circulação, o devedor nunca consegue ganhar o que precisava para pagar uma dívida feita quando o dinheiro era abundante, mas quem emprestou não quer saber: exige o que lhe devem, e daí ao caos é um pulo.

Para evitar uma desgraça, o governo minera mais ouro e prata, cunha moedas novas e lança dinheiro virgem na economia. O governo enche alguns bolsos, os favorecidos passam a gastar o dinheiro novo na praça e a economia ganha fôlego. Começa a circular mais moeda, aumenta a produção de riqueza, os devedores conseguem juntar o dinheiro para limpar o nome na praça e tudo volta ao normal.

Guerra ou barbárie

Porém, mais tarde ou mais cedo, as minas esgotavam-se. Era o fim. Ou o governante começava uma guerra com o país vizinho para lhe saquear ouro e pôr as suas contas em dia, ou esperava para ver o seu povo regredir à barbárie. No entanto, as moedas cunhadas pelo governo abriam perspetivas para uma terceira via. Uma saída genial, na verdade, descoberta pelos gregos de Atenas.

Desde sempre, uma parcela dos atenienses vivia da plantação de trigo e outra da produção de azeite e vinho. O solo da região, porém, nunca tinha sido bom a produzir cereais. No início, isso era uma situação confortável para quem plantava trigo. Quando uma coisa é escassa, é mais cara. É a lei da oferta e da procura. O problema de uns começou com a sorte dos outros. Os produtores de azeite e vinho estabeleceram comércio com agricultores do Leste (onde hoje fica a Rússia), e lá a terra era outra. Como os parceiros do Leste tinham trigo à vontade, os produtores de azeite e vinho de Atenas exportavam um pouco do óleo e do cobiçado entorpecente que produziam em troca de muitos grãos. Quem vivia dos ce­reais ficou sem ter a quem vender e a sociedade acabou por se dividir, com os produtores de azeite e vinho a ficarem ricos e os de cereais a viverem de créditos.

Os juros dispararam. Era cruel, mas fazia sentido: muitos produtores de trigo estavam à procura de financiamento justamente para começarem eles próprios a produzir azeite e vinho e venderem-nos no mercado internacional. Se os produtores tradicionais iam financiar os seus futuros concorrentes, era natural que cobrassem caro por isso.

As dívidas dos agricultores pobres cresceram ao ponto de se tornarem impagáveis. Quitar débitos dando uma parte das próprias terras tornou‑se uma solução comum. Quem devesse demasiado tinha de dar as mulheres e os filhos como escravos, e foi o que aconteceu, mas era demais. A escravidão era parte da vida no mundo grego. O comum, porém, era manter servos estrangeiros, capturados nas guerras. Para um ateniense que nasceu livre, nada poderia ser mais degradante do que tornar‑se escravo.

Era uma bomba‑relógio. Os nobres que governavam Atenas começaram a ter medo de uma revolução popular. Os endividados, com medo de verem os seus filhos fazerem trabalhos forçados para os ricos e as suas mulheres nas camas deles, poderia levantar‑se contra o estado e pôr um tirano no trono. Para salvar o pescoço, apontaram Sólon, um aristocrata conhecido pela sua inteligência, para assumir o poder e tentar resolver o problema.

A sua primeira medida, em 594 a.C., foi proibir a escravidão como forma de pagamento de dívidas. Usou, inclusivamente, dinheiro público para comprar os parentes dos devedores que tinham sido vendidos como escravos a outras cidades‑estado. Isso acalmou os ânimos, mas a essência do problema continuava na mesa: desigualdade acentuada e dívidas.

Os agricultores pobres queriam o perdão total dos débitos e uma reforma agrária − um pedaço das terras onde se plantava vinho e azeite para eles. No entanto, inverter a balança, tirando aos mais ricos o que de facto era propriedade deles, só passaria a revolta para o outro lado, e a estabilidade do governo ateniense continuaria em perigo. Por isso, Sólon resolveu tratar o assunto do ponto de vista estritamente económico.

Em teoria, ele podia usar dinheiro do estado para comprar a produção dos mais pobres, que pagariam as suas dívidas com esse dinheiro. Não seria a salvação completa da lavoura, mas faria as coisas voltarem a entrar nos eixos. O problema é que o estado não tinha tanto dinheiro. Nem o estado, nem as minas de prata de onde Atenas tirava a matéria‑prima para a confeção das suas moedas. Solução? Algo que parece desonesto mas, na verdade, foi uma inovação tão importante para a economia como a teoria da gravidade para a física ou a da evolução para a biologia. Podemos chamar‑lhe “teoria da desvalorização”.

A essência da ideia: as pessoas acreditavam nas moedas cunhadas pelo governo porque o estado garantia que elas eram de ouro ou de prata puros, mas Sólon desprezou esse pormenor. Como o povo confiava nas moedas, elas não precisavam de ser totalmente puras. O que o estado dissesse que era dinheiro seria aceite como tal. Para pôr mais dinheiro no mercado, bastava usar moedas falsas.

Mais ou menos falsas, para dizer a verdade. Sólon mandou misturar metais mais baratos na matéria‑prima das moedas para produzir mais dinheiro com a mesma quantidade de prata. Uma moeda de prata passou a ter só 73% deste minério; o resto era cobre. Se estava cunhado que a moeda pesava um óbolo (1,05 gramas) de prata, ou um dracma (seis óbolos), era uma moeda de um e pronto. A quantidade de prata que continha não era importante.

Se a população não engolisse o plano económico de Sólon, seria o fim da moeda, e provavelmente de Atenas, mas resultou. Sólon passou a usar os dracmas com cobre no meio das compras do governo, injetando dinheiro na economia. Com mais dinheiro a circular, mais gente podia comprar coisas, incluindo trigo, e os agricultores de cereais ganharam um motivo para produzir mais. A moeda nova também serviu para financiar novas plantações de azeite e vinho e para fortalecer o comércio com o estrangeiro. Atenas ficava mais forte e rica do que antes, e Sólon deixaria pavimentado o caminho para outra medida sua: a criação da democracia. Tudo graças ao dinheiro falso.

altMoeda imaginária

Somos iguais aos gregos do século VI a.C. Acreditamos que o dinheiro vale o que está impresso nele. Uma nota de 20 euros é uma nota de 20 euros. O facto de o banco emissor não lhe dar 20 gramas de prata nem uma saca de trigo, se o leitor aparecer com uma delas no guichê, não tem a menor importância. O que interessa é que alguém vai estar interessado em vender‑lhe a quantidade de prata ou de trigo que 20 euros pagam. Se, por algum motivo, faltarem notas de 20 euros, e as empresas extratoras de prata e os produtores de trigo estiverem para perder todos os seus clientes, o governo injeta mais notas de 20 euros no mercado antes de tudo regredir à barbárie.

Isto está sempre a acontecer. No início de 2002, quando o escudo foi substituído fisicamente pelo euro, havia quase 247 mil milhões de euros em notas e moedas a circular pelas nações aderentes à moeda comum. Era a quantidade total nas carteiras das pessoas e nos cofres dos bancos. Em outubro de 2011, as notas e moedas em circulação já valiam mais de 837 mil milhões, dos quais 19 mil milhões eram da responsabilidade do Banco de Portugal.

Agora, repare: entre 2002 e 2011, os preços subiram, em média, 20% em Portugal. O que custava 100 euros passou a custar 120. Parece muito em apenas uma década, mas essa impressão desaparece diante do facto de o fornecimento de moeda ter crescido 240%. A diferença entre o crescimento da quantidade de moeda em circulação e o aumento dos preços, na prática, mostra quanto cresceu a produção. Cada português de 2011 podia comprar mais coisas do que em 2002, mesmo com tudo a custar mais.

Neste exemplo, aconteceu o mesmo que tinha ocorrido na Atenas de Sólon. Com mais dinheiro no mercado, a produção de bens e serviços aumentou. O dinheiro extra serviu de estímulo. Com toda a gente a produzir mais, as pessoas, pelo menos em média, passaram a comer melhor, a trocar de carro mais cedo, a comprar casas... Desde a adesão à Comunidade Europeia, o PIB de Portugal sextuplicou.

A ilusão de que o dinheiro tem valor, seja ele feito de prata misturada com outros metais, seja de papel higiénico com um holograma estampado, cria coisas concretas, e nunca foi tão simples usar dinheiro novo para incentivar a produção de riqueza. O dinheiro de hoje nem sequer de papel é feito. O que circula mesmo pela economia são números em ecrãs de computador. Havia 837 mil milhões de euros na forma de notas e moedas em outubro de 2011, mas o total de dinheiro na Zona Euro é muito maior. Se somarmos todas as contas à ordem, os depósitos a prazo, os fundos de tesouraria, as aplicações no mercado monetário, vai dar perto de 9,8 biliões de euros.

Os bits e a inflação

Tudo tão virtual como uma música em mp3, o que não deve ser uma surpresa para si. O seu salário é o quê? Provavelmente só lhe vê a cara na forma de números no site do banco. A empresa onde trabalha transfere os números das contas dela para a sua e o leitor usa esses números para pagar o cartão de crédito e as contas do mês. O dinheiro não precisa de se materializar; se isso tivesse de acontecer, não  haveria notas suficientes para toda a gente. Mesmo assim, continua a ser dinheiro, por um motivo básico: esses bits são mantidos como um recurso escasso, tão escasso como metal precioso ou sacas de trigo.

É quase tão impossível entrar no sistema de um banco e digitar zeros a mais na sua conta como seria fabricar ouro ou comida a partir do nada. Como o sistema é fiável, os números virtuais são realmente difíceis de obter. Temos de trabalhar para alguém ou abrir um negócio, tal como qualquer babilónico ou membro das primeiras sociedades agrícolas.

Isso é o suficiente para que um restaurante no Rio de Janeiro aceite como pagamento um pouco dos números que alguém obteve a trabalhar em Portugal, o bastante para que os bits do sistema bancário sejam vistos como um meio universal de troca. Um meio tão bem recebido como as barras de cobre e as sacas de trigo já foram um dia. Se fosse fácil para qualquer pessoa obter a quantidade de bits de dinheiro que quisesse, eles não seriam dinheiro. Seriam só bits, sem valor algum.

E então? Como é que o governo põe dinheiro novo na praça para fazer a economia girar? Pagando as obras públicas com dinheiro novo, do mesmo modo que na Antiguidade, pode ser uma forma. Mas isso é hoje pouco relevante, numa realidade em que a iniciativa privada gasta e emprega mais do que o governo. Agora, a injeção de dinheiro tem de ser mais direta, mais na veia. Isso acontece quando o Banco Central força uma baixa nos juros. O efeito de diminuir os juros é exatamente o mesmo que injetar mais moeda na praça através de obras públicas, como se fazia antigamente, porque os juros são o preço do dinheiro.

A ideia de “preço do dinheiro” parece redundante num primeiro momento. Apesar de pagarmos juros quando financiamos um bilhete de avião ou um televisor, geralmente não pagamos para ter o dinheiro do pão e do leite. Trabalhamos, recebemos o dinheiro e gastamo-lo. No entanto, o dono da empresa onde trabalha provavelmente está sempre a pagar dinheiro. É comum nas empresas pedir dinheiro a juros até para satisfazer as despesas do dia a dia, como os salários. Se o lucro futuro for muito maior do que aquilo que se gastou com os juros, então valeu a pena.

Um corte de juros irriga a economia de dinheiro nas duas pontas: a do consumo e a da produção. Com juros mais baixos, o consumo cresce e os gastos das empresas para produzirem os bens de consumo diminuem. Depois, uma coisa alimenta a outra: quanto maior a produção, menor o preço; quanto menor o preço, maior a produção. Os lucros engordam, os salários aumentam, o consumo cresce. A produção sobe para responder aos novos consumidores e o ciclo recomeça.

O efeito visível disto é que os preços diminuem ao longo do tempo. Não os preços em dinheiro. Por um mecanismo inerente ao modelo económico que se firmou no mundo depois da Segunda Guerra Mundial, esses sobem sempre. O que diminui, quando a economia cresce, é o número de dias que uma pessoa precisa de trabalhar para comprar alguma coisa. Em Portugal, um quadro médio no setor da construção que ganhasse a média salarial da categoria em 1989 precisava de trabalhar 24 meses para comprar um Renault 5 GT. Hoje, alguém da mesma profissão compra um Renault Clio GT com o ordenado de nove meses.

Sem a possibilidade de irrigar um país com dinheiro novo, nada disto seria possível. O problema é saber a dose certa, porque, se houver demasiado dinheiro, a certa altura, as pessoas perdem a crença fundamental nele. Essa fé pode ser grande, mas não move montanhas, e já acabou muitas vezes. O fim da crença no valor do dinheiro destruiu o Império Romano, serviu de escada a Hitler, quase lançou o Brasil do terceiro para o quarto mundo e pode estar em gestação agora mesmo, em qualquer lugar.

A.V.

 

Mineradores de bits

O comércio de moeda virtual no mundo dos videojogos enriquece pessoas no mundo real e mostra o que é realmente o dinheiro. A regra de que qualquer coisa difícil de obter e que toda a gente queira pode ser usada como dinheiro é tão fundamental que também se aplica fora do sistema financeiro. É o que acontece em World of Warcraft (WoW), um jogo de computador em que cada pessoa tem um avatar e interage com outros jogadores pela internet.

Mais de dez milhões de pessoas participam no jogo. O mundo do WoW é parecido com o mundo real. Não se é ninguém sem dinheiro. Dinheiro virtual, mas que é preciso trabalhar para conseguir.

Se se vencer uma luta dentro do jogo, por exemplo, ganha-se algumas “moedas de ouro” e podemos usá-las para comprar armas e roupas novas para o nosso avatar, coisa que aumenta o nosso estatuto perante os outros jogadores. Há vários jogos parecidos. Em alguns, podemos explorar matéria-prima, usar os comandos do jogo para produzir utensílios de valor e vendê-los para obter mais moedas.

Com dinheiro suficiente, conseguimos financiar um castelo virtual para o nosso avatar, por exemplo. Um luxo. A sede de obter mais moedas de ouro, e mais estatuto, criou um mercado que extrapolou o mundo virtual. Jogadores de WoW, e de outros jogos parecidos, que tinham acumulado muito dinheiro virtual, começaram a receber ofertas pelas suas moedas de ouro − ofertas em dinheiro a sério. Um jogador chegava e oferecia cem dólares por dez mil moedas do jogo. Nessa altura, o vendedor transferia as moedas de ouro dentro do jogo e recebia os dólares na sua conta bancária. O mercado ficou tão grande que se profissionalizou.

Lee Caldwell, um empresário norte-americano, criou em 2002 uma empresa dedicada a produzir moedas virtuais em jogos como o WoW e a vendê-las no mundo real. Reuniu vários jovens para passarem o dia a jogar e a acumular moedas de ouro, em troca de um salário. Era um trabalho monótono: escavavam montanhas virtuais em busca de minério de ferro, fundiam o metal para produzir armas e vendiam-nas em troca de moedas de ouro. Lee ficava com o trabalho de entrar em contacto com outros jogadores (em fóruns e sites de leilões) para trocar essas moedas por dinheiro a sério.

O trabalho de cada funcionário rendia-lhe 1500 dólares por mês. Como eles recebiam apenas 450 dólares de salário, Lee conseguia 233 por cento de lucro mensal sobre o trabalho de cada um. O negócio rendia 40 mil dólares mensais ao empresário.

O segredo, neste caso, é que ele explorou o abismo económico entre os Estados Unidos, onde estava a maior parte dos compradores de moedas de ouro, e o México, onde Lee montou a empresa. Os 450 dólares mensais valiam quatro vezes o salário mínimo mexicano naquela época.

Quando a febre por esses jogos atingiu o auge, por volta de 2005, empresas destas apareceram como cogumelos na China (também graças à mão de obra barata). Exércitos de chineses passavam a noite a juntar moedas de ouro virtuais em barracões com centenas de computadores para que os seus chefes as vendessem aos jogadores abonados e maníacos por estatuto virtual no outro lado do mundo.

 

A sua vida e o PIB

A diferença entre um PIB que cresce cinco ou sete por cento ao ano parece desprezível, mas não é: no caso de um aumento de 7% ao ano, o PIB duplica em dez anos; a um ritmo de 5%, leva 15 anos. Diminuindo esse número para o ritmo moroso a que o Brasil crescia nos anos 80, a diferença fica ainda mais clara.

Naquela época, o PIB aumentou, em média, 1,7% ao ano. Se ficasse para sempre nessa toada suave, seria preciso quase meio século para o PIB duplicar. A diferença é grande: quando a economia duplica de tamanho, a tendência é o leitor ver-se com um carro e uma casa que, antes, custavam duas vezes o que podia pagar.

 

NR - Este artigo é uma adaptação do primeiro capítulo do livro Crash – Porque É que as Economias Vão ao Fundo, do jornalista brasileiro Alexandre
Versignassi (Livros d’Hoje, Lisboa, 2012, http://alturl.com/iorg8).

 

SUPER 170 - Junho 2012


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Why should I upgrade to Internet Explorer 7? Microsoft has redesigned Internet Explorer from the ground up, with better security, new capabilities, and a whole new interface. Many changes resulted from the feedback of millions of users who tested prerelease versions of the new browser. The most compelling reason to upgrade is the improved security. The Internet of today is not the Internet of five years ago. There are dangers that simply didn't exist back in 2001, when Internet Explorer 6 was released to the world. Internet Explorer 7 makes surfing the web fundamentally safer by offering greater protection against viruses, spyware, and other online risks.

Get free downloads for Internet Explorer 7, including recommended updates as they become available. To download Internet Explorer 7 in the language of your choice, please visit the Internet Explorer 7 worldwide page.