América: Quem chegou primeiro?

altNovas pistas para resolver uma velha questão

Novas teorias defendem que polinésios, vikings e chineses visitaram a América antes de Colombo. Arqueólogos e antropólogos procuram as provas.

Em Dezembro de 2007, o director do Museu de História Natural de Con­cep­ción, no Chile, retirou de uma caixa poeirenta uma dezena de caveiras que tinham sido desenterradas, no século passado, na ilha de Mocha, situada a 30 quilómetros da costa meridional do país. Depois de analisá-las, a antropóloga Lisa Matisoo-Smith, da Universidade de Otago (Nova Zelândia), concluiu que “as características indicam que poderiam ser de origem polinésia”. Juntamente com o seu colega chileno José Miguel Ramírez, da Universidade de Valparaí­so, Lisa Matisoo-Smith pediu autorização às autoridades insulares para procurar vestígios arqueológicos que confirmem a possível chegada de povoadores provenientes das ilhas da Oceânia à América do Sul antes de Colombo.

A teoria não é nova. Em 1947, o já falecido explorador e antropólogo norueguês Thor Heyerdahl navegou 7000 km, do Peru às ilhas Tuamotu, no Pacífico Sul, numa kon-tiki, uma jangada de madeira e cana construída de forma tradicional, para provar que os primitivos habitantes da América teriam conseguido viajar até à longínqua Polinésia, assim como os polinésios poderiam, por sua vez, tê-lo feito em sentido contrário. Embora a aventura da kon-tiki tivesse tido alguma repercussão popular, a comunidade científica sentenciou que não fornecia qualquer prova de presumíveis contactos entre ambas as culturas.

Todavia, as caveiras de Mocha e uma variedade de batata de origem americana, que se cultiva ancestralmente na Nova Zelândia, sugerem o contrário, segundo Patrick V. Kirch, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que analisou espécimes antigos dos tubérculos. Estes eram cultivados há 8000 anos no planalto peruano e acreditava-se, até agora, que tinham sido os espanhóis a levá-los para a Ásia, após a descoberta da América. Nesse caso, porém, como seria possível haver batatas na Nova Zelândia na época pré-colombiana? Kirch acredita que foram exportadas da América do Sul pelos polinésios. Mais coincidências: há uma estranha semelhança entre as canoas chilenas e taitianas, e um capitão inglês observou, em 1839, que os dois povos usam palavras semelhantes (kialu e kialoa) para designá-las.

Em 2007, a revista Proceedings of the National Academy of Sciences publicou um artigo de Alice Storey, da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), que reforça a tese. A nova prova apresentada é um pequeno osso de frango encontrado no Chile. Testes de ADN e de carbono-14 mostraram que a galinha araucana prosperou na América do Sul entre 1321 e 1407, e que os seus antepassados viveram, há mais de mil anos, numa remota ilha do Pacífico. Este indício deita por terra a ideia de que as primeiras aves de capoeira que chegaram ao Novo Mundo foram levadas pelos conquistadores espanhóis. Para Alice Storey, o osso de frango é a primeira prova concludente da presença polinésia na América na época pré-colombiana. No entanto, parte da comunidade científica mantém-se céptica enquanto não for localizado algum vestígio de povoamento humano que demonstre a presença de nativos da Oceânia na América do Sul. Se as escavações na ilha de Mocha forem para a frente, talvez essas provas apareçam.

altOdisseia nórdica

Quem parece ter chegado mesmo à América antes de Colombo foi o povo viking, como acaba de confirmar um estudo genético internacional. Em 1960, já fora localizado em Leif­bun­dir, na Terra Nova (Canadá), o povoado de L’Anse aux Meadows, que poderá corresponder ao acampamento do explorador islandês Leif Eriksson (c. 970–1020), filho de Erik, o Vermelho. Alguns historiadores identificam-no com a “Vinlândia”, a colónia supostamente fundada pelos vikings na América do Norte por volta do ano 1000.

Outros especialistas sugerem que a Vinlândia não se situava na Terra Nova, mas mais a Sul, na zona ocupada pelos actuais estados do Massachusetts e de Rhode Island, mas não há indícios arqueológicos que possam confirmar a teoria. Não é também provável a origem viking da torre de Newport, em Rhode Island, a qual teria sido erguida por Leif Eriksson, segundo o antiquário dinamarquês e estudioso da história nórdica Carl Christian Rafn. Em vez disso, estudos arqueológicos indicam que se trataria de um forte defensivo construído pelo governador Benedict Arnold em 1675.

Correu igualmente a versão de que uma pedra com caracteres rúnicos, encontrada em 1898, no Minnesota, pelo agricultor de ascendência sueca Olof Ohman, era de origem viking, pois narrava a história de escandinavos que habitavam a Vinlândia em 1362. A pedra chegou a ser exposta no Museu Nacional de Washington, em 1948, mas descobriu-se depois que se tratava de uma cópia tosca feita pelo próprio Ohman e um amigo, os quais se limitaram a imitar os caracteres rúnicos de um almanaque sueco do século XVIII.

Era também falso o mapa da Vinlândia, supostamente datado de 1440 e apresentado pela Universidade de Yale em 1964, que mostrava parte da costa norte-americana e da Gronelândia. Análises feitas à tinta demonstraram que continha dióxido de titânio, produto que só começou a ser utilizado a partir de 1920.

Seja como for, embora pareça evidente que houve vikings na Terra Nova e, provavelmente, noutros pontos do Nordeste do continente americano, o certo é que não comunicaram a sua descoberta aos restantes europeus, nem tiveram a intenção de colonizar de forma permanente o Novo Mundo. Desembarcaram, sem dúvida, mas, quando viram que aquelas terras não lhes iriam proporcionar grandes proventos, abandonaram-nas.

altInformação privilegiada

Já foi também sugerida a possibilidade de fenícios, árabes ou africanos terem ancorado as suas embarcações, antes de Colombo, ao largo das costas do novo continente. O missionário espanhol frei Bartolomeu de Las Casas assegurava que o navegador genovês tinha recebido informação sobre a existência da América de um marinheiro desconhecido que lhe morreu nos braços, hipótese igualmente defendida pelo historiador Juan Manzano, convicto de que Colombo conhecia de antemão a melhor rota para efectuar a travessia.

A necessidade de procurar uma via atlântica para chegar à China ou à Índia adquiriu especial importância para os europeus após a queda de Constantinopla nas mãos dos turcos. O novo bastião otomano interrompeu a Rota da Seda, através da qual as especiarias chegavam à Europa, e arruinou venezianos e genoveses, que há anos controlavam o comércio dos valiosos produtos. O bloqueio fez disparar o preço das especiarias no mercado, pelo que os mercadores do Velho Continente procuravam outra forma de obtê-las.

Em 1488, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, o que abria caminho para o Oriente através do Índico. Em 1500, Pedro Álvares Cabral alcançou o centro nevrálgico das especiarias, o que iria render a Portugal fabulosos lucros; mais importante ainda, ao desviar-se da rota na viagem de ida, descobria o Brasil. Com efeito, a viagem de circumnavegação de África era tão longa e penosa que os portugueses procuravam formas mais directas de chegar à Índia e à China. Seria possível fazê-lo através do Atlântico?

Lendas de marinheiros falavam de uma ilha chamada Antilia, situada para além dos Açores. Surgia em alguns mapas pré-colombianos, de forma quadrangular e com numerosos ancoradouros para os barcos poderem atracar. O astrónomo e cosmógrafo florentino Paolo del Pozzo Toscanelli recomendava a ilha como local de aprovisionamento, mas ninguém conseguia fornecer provas conclusivas da sua existência.
Em Setembro de 1479, Colombo casou com Filipa Moniz Perestrelo, uma jovem portuguesa nobre, filha de Bartolomeu Perestrelo, o primeiro capitão donatário de Porto Santo, onde ficaram a viver. Por essa altura, o genovês contactou com diversos navegadores portugueses ligados às descobertas na costa africana, de onde vinham notícias de terras para Ocidente, carregadas de mistério.

Em busca da Ásia

Em Porto Santo, também corriam histórias sobre estranhas descobertas na própria ilha. Havia quem garantisse que o mar lançara à costa os cadáveres de dois indivíduos de raça desconhecida, de pele acobreada e pómulos asiáticos. Diziam igualmente ter ouvido falar de uma grande ilha do outro lado do Atlântico, que bem poderia ser a mítica Antilia. É provável que todos esses rumores e histórias, assim como velhos mapas encontrados em casa do sogro, tivessem inspirado Colombo ao ponto de começar a planear a viagem.

Em 1477, as classes ilustradas europeias já sabiam que a Terra era redonda, razão pela qual D. João II decidiu consultar Toscanelli sobre a possibilidade de chegar à Índia atravessando o Atlântico. O astrónomo florentino fez chegar um mapa a Lisboa em que se avistava terra para além dos Açores; pensava que o Japão estaria a 3000 milhas náuticas do arquipélago de Cabo Verde, quando a distância real é de 10.600. É difícil acreditar que os marinheiros portugueses, que já navegavam bem para Sul do equador, acreditassem naquele valor para o grau de longitude. Entretanto, Colombo muda-se para Castela com uma cópia do mapa de Toscanelli. Como chegara às suas mãos? Teria copiado o original após D. João II se ter recusado a financiar-lhe a viagem?

O facto é que o genovês, após o seu fracasso em Lisboa, apresentou o projecto aos Reis Católicos e, após árduas negociações, conseguiu que a rainha Isabel apoiasse e financiasse a expedição. Porém, se triunfou na missão não foi graças ao mapa de Toscanelli, mas por a América se encontrar a meio do caminho. Se o continente não existisse, Colombo e os seus homens não teriam tido provisões suficientes para sobreviver, pois o percurso até à China era muito mais longo do que ele supunha.

Seja como for, sabia, efectivamente, que havia terra do outro lado do Atlântico, embora pensasse que fazia parte da Ásia. Parece também provável que estivesse na posse de informação precisa sobre os ventos alísios, cuja influência facilita a chegada às costas americanas. E, se conhecia esses dados, era por já os ter visto em documentos ou mapas. Quem teria elaborado essas cartas náuticas? Teriam sido marinheiros perdidos que tinham alcançado acidentalmente aquelas terras?

A linha amarela

Gavin Menzies, antigo comandante da Armada britânica e estudioso da história, afirma que os autores dos referidos mapas eram navegadores chineses, que descobriram a América 70 anos antes de Colombo. A informação privilegiada teria chegado às mãos de alguns cartógrafos italianos e, posteriormente, às do navegador genovês. Pelo menos, é isso que assegura no controverso livro 1421 – O Ano em que a China Descobriu o Mundo.

O promotor da proeza teria sido o imperador Yongle, o qual, além de ordenar a construção da Cidade Proibida, transformou o país asiático na maior potência marítima da época, com uma impressionante frota de juncos sob o comando de Zheng He, um eunuco muçulmano de dois metros de altura. Segundo Menzies, os almirantes que ele comandava exploraram o Sueste asiático e descobriram a Austrália, a América e a Antárctida. Aparentemente, as caravelas de Magalhães ou Colombo teriam parecido chalupas ao lado das embarcações chinesas, cujo navio-almirante possuiria um mastro de cem metros de altura. Graças ao seu poderio naval (milhares de barcos de guerra equipados com armas de fogo e mais de 5000 chalanas), a China ergueu um império comercial que incluía o Sueste asiático, a Manchúria, a Coreia e o Japão.

Segundo Menzies, em 5 de Março de 1421, uma esquadra composta por 200 navios de 150 metros de comprimento e milhares de homens dirigiu-se para Sul, seguindo ordens do imperador, com a missão de explorar todo o globo e estabelecer laços comerciais com outras culturas. Dado que a viagem ia ser longa, levavam cereais, sementes, água potável e animais vivos, incluindo frangos, cães e cavalos para o transporte em terra firme. Sob instruções de Zheng He, a frota dividiu-se em quatro secções que navegaram juntas até Malaca, onde permaneceram algumas semanas para abastecer os barcos. Enquanto Zheng He regressava à China, os outros almirantes viajaram até ao Cabo da Boa Esperança, onde cada um seguiu uma rota diferente. Segundo os documentos referidos por Menzies e estudiosos chineses, as três frotas conseguiram chegar à América.

O almirante Hong Bao teria cruzado o estreito de Magalhães, rumando à Antárctida em Fevereiro de 1422. Zhou Man teria alcançado as costas da Patagónia e prosseguido pelo Chile, Peru, Guatemala, México e Califórnia, onde se teria visto obrigado a abandonar parte dos seus homens. Entretanto, a frota de Zhou Wen teria atravessado as Caraíbas e chegado até à baía do Massachusetts. Três quartos dos homens teriam morrido ou sido abandonados em povoados africanos e americanos.

Haverá dados fiáveis para sustentar uma teoria tão controversa? Se os marinheiros chineses chegaram à América, por que não teria Pequim aproveitado para colonizá-la? Qual a razão de não haver documentos a testemunhar semelhante proeza? Menzies afirma que, quando os sobreviventes regressaram ao seu país, no Outono de 1423, descobriram que este tinha mudado para sempre. A China sofrera uma grande crise económica que afectou a saúde de Yongle, e os mandarins estavam a desmantelar o aparelho imperial. A partir dessa altura, já não haveria mais viagens épicas para promover trocas comerciais e descobrimentos. O país asiático mergulhava numa longa noite de solidão. Os almirantes foram destituídos, os barcos foram desmontados e os mapas, as cartas náuticas e os documentos que registavam as façanhas das frotas chinesas seriam destruí­dos por ordem dos mandarins. Os êxitos de Yongle caíram no esquecimento.

“Se os imperadores que o seguiram não tivessem optado pela xenofobia e pelo isolamento, a China (e não a Europa) ter-se-ia tornado senhora do mundo”, assegura o britânico. A teoria que defende é atraente, mas não deixa de ser rejeitada pelo mundo académico, por falta de provas credíveis.

O que ninguém discute é que os ameríndios, primeiros povoadores da América, foram caçadores de origem asiática que atravessaram o estreito de Bering há mais de dez mil anos. De igual modo, os indícios parecem confirmar a chegada de nativos polinésios às costas do Chile, na época pré-colombiana, e também que o islandês Leif Eriksson partiu da Gronelândia para Ocidente e chegou à América há um milhar de anos. No entanto, a pouca informação a que deram origem demonstra o escasso eco que as suas aventuras teriam tido na altura. Esse papel ficou para os europeus do século XV.

F.C.

 

Mestiçagem entre vikings e ameríndios

Segundo um estudo publicado, em 2010, no American Journal of Physical Anthropology, por investigadores espanhóis e islandeses e da empresa Code Genetics, a análise do ADN mitocondrial de quatro famílias islandesas e respectivos antepassados (até 1700) revela que eles partilhavam a linhagem C1e, exclusiva dos ameríndios.

Dado que, “devido ao clima extremo, a Islândia esteve isolada do mundo desde o século X, esses genes ameríndios devem ter sido levados por uma mulher, pois permaneceram no ADN mitocondrial, que se transmite por via feminina”, explica Carles Lalueza-Fox, um dos biólogos autores do estudo. O mais provável é que os vikings que chegaram à América por volta do ano 1000 tivessem sequestrado uma jovem índia e, depois, decidido levá-la no regresso à Islândia. Actualmente, cerca de 80 islandeses do Sul do país partilham a sua linhagem. Os arqueólogos pretendem procurar na região alguma sepultura anterior a 1492 que possa conter ADN com a sequência americana. Seria a prova definitiva desta teoria da mestiçasem.

 

Mapuches e maoris, primos direitos

Os mapuches são um povo nativo que habita o Sul do Chile, nomeadamente as regiões da Araucânia e de Los Lagos e a ilha de Chiloé. São cerca de 600 mil indivíduos que possuem uma língua e uma cultura próprias; não se conhece ao certo a sua origem, embora haja quem os relacione com a possível chegada de navegadores vindos do outro extremo do Pacífico.

O antropólogo chileno José Miguel Ramírez chama a atenção para diversas coincidências entre a cultura mapuche e a cultura maori da Nova Zelândia, descendente de antigos povos polinésios. Por exemplo, os dois povos possuem uma série de artefactos em comum, como os projécteis de obsidiana, as mocas, esculturas antropomórficas de pedra e diversas palavras quase idênticas. Partilham igualmente algumas tradições, pois tanto os mapuches como os polinésios celebram o Ano Novo por ocasião do aparecimento das Plêiades (grupo de estrelas na constelação do Touro) após o solstício de Inverno, e jogam uma espécie de hóquei sobre a erva, chamado pai pai nas ilhas do Pacífico e palin no Chile. Ramírez acredita que os polinésios chegaram ao seu país vindos da ilha de Páscoa, “empurrados pela corrente de El Niño, cujos ventos se dirigem para território mapuche”.

 

SUPER 153 - Janeiro 2011

 

NR - Este artigo foi objecto de uma carta publicada na SUPER 155: Cheng Ho e Gavin Menzies


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