| Uma década de medo |
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Uma das razões para a crise de então era ainda a ressaca dos atentados de 11 de setembro do ano anterior, cujas feridas continuavam por sarar e justificavam o facto de dedicarmos o Documento dessa edição ao medo e à insegurança. Foi nessa altura que, perante a falta de confiança dos cidadãos, a qual se expressava (também) numa contração da economia mundial, os governos e as organizações internacionais incentivaram ao consumo, baixando os juros de referência, estimulando o recurso ao crédito, etc. Essas sucessivas injeções de sangue fresco nas veias da economia global alcançaram o objetivo pretendido: muitas nações regressaram rapidamente a uma fase expansionista da sua economia. Porém, todas as moedas têm duas faces: por cada frigorífico ou automóvel exportado pela Alemanha, aumentou-se mais um pouco a dívida privada dos países periféricos, embriagados com o acesso fácil ao dinheiro. É como nas tabernas: para que o dono fique rico, é preciso que haja alcoólicos. Se o dono baixar o preço do copo-de-três, para atrair mais clientela, é socialmente responsável pelo aumento do alcoolismo? A sua fortuna fica manchada? Dez anos passados, vivemos de novo (ou ainda estamos a viver?) em insegurança. Desta vez, porque, em quase todos os cantos do globo, soam as trombetas da escola (económica) de Chicago: é preciso reduzir o papel dos estados na economia e na sociedade e deixar que seja o mercado a organizar-se. Isto significa, principalmente na Europa, reduzir ou eliminar a rede de apoio a que costuma chamar-se “modelo social europeu”. Quem governa a Europa quer substituir esse modelo pelo vácuo norte-americano. É por conhecer as consequências que muita gente sente medo e insegurança.
SUPER 169 - Maio 2012 ( 1 Voto ) |
O canto superior direito da capa da SUPER 49, publicada há precisamente dez anos, ostentava a promoção de um concurso para celebrar o quarto aniversário da revista. Isto quer dizer que completamos, com a edição que tem nas mãos, mais um ano de vida, agora o 14.º. Curiosamente, escrevíamos no editorial: “Para todos os nossos leitores, parabéns pela persistência, mesmo nestes tempos de crise!” Repare-se: isto foi em 2002.