Lágrimas para quê?

altSalgadas ou amargas, mas muito saudáveis

Os estudos demonstram que chorar possui saudáveis efeitos psíquicos, fisiológicos e sociais.

Quando a ministra italiana do Trabalho, Elsa Fornero, apresentou numa conferência de imprensa, em dezembro, as duras medidas que o seu governo teria de impor, desatou a chorar. Quer fosse impelida pela frustração, a impotência ou a tristeza, a imagem deu a volta ao mundo e foi mais comentada, inclusivamente, do que o pacote de cortes adotado.

O facto é que o pranto é uma forma de comunicação chamativa e excecional, exclusiva do Homo sapiens. Ao investigar as suas raízes evolutivas, Oren Hasson, biólogo da Universidade de Telavive (Israel), chegou à conclusão de que nos tornamos mais indefesos quando as lágrimas nos turvam a visão. Por outras palavras, lançam a mensagem de que estamos a “baixar a cabeça e admitir precisar de ajuda”; desse modo, despertamos sentimentos de empatia nos outros. O pranto contribui, assim, para fortalecer as relações humanas e tornar a comunidade mais coesa, conclui Hasson na revista Evolutionary Psychology.

Uma experiência recente desenvolvida por Michelle C. Hendriks, da universidade holandesa de Tilburg, parece dar-lhe razão: tanto homens como mulheres mostram-se mais predispostos para prestar apoio a pessoas chorosas, mesmo quando admitem que lhes desagradam e que vê-las nesse estado lhes provoca emoções negativas. Todavia, nem todas as choradeiras são devidas a causas psicológicas. Os cientistas distinguem entre as lágrimas irritantes, provocadas por substâncias químicas, como os eflúvios produzidos por cortar uma cebola, e as emocionais, que correm pela face ao ver um filme dramático, após uma rutura sentimental ou quando sofremos uma dor física intensa.

O curioso é que a composição dos dois tipos de secreção é radicalmente diferente. Quando são provocadas por um elemento externo, contêm, sobretudo, cloreto de sódio. Porém, se forem lágrimas de emoção, incorporam uma boa dose de cloreto de potássio e manganês, neurotransmissores (endorfinas), hormonas (prolactina e adrenocorticotropina) e um analgésico natural, a leucina-encefalina. William H. Frey, bioquímico do Centro Médico St Paul-Ramsey (Minnesota), assegura que este cocktail tem a inequívoca assinatura química de uma alteração sentimental. Por exemplo, a elevadas concentração de manganês no cérebro tem sido associada à depressão crónica, enquanto a adrenocorticotropina está ligada ao stress e à ansiedade.

Ansiolítico natural

Em resumo, a finalidade tanto de um simples soluço como de um autêntico berreiro seria expulsar uma parte das substâncias prejudiciais ao organismo. A ser verdadeira a hipótese, explicaria por que motivo as pessoas saudáveis são mais propensas a chorar e mostram uma atitude mais positiva relativamente a essa manifestação de pesar ou de emoção do que aquelas que sofrem, por exemplo, de úlcera ou de colite crónicas, duas doenças muito ligadas ao stress.

Ainda em relação ao seu efeito terapêutico, destaca-se um estudo com quase 5000 homens e mulheres adultos de 30 países, efetuado por Jonathan Rottenberg  e os seus colegas da Universidade do Sul da Florida. Revela que numa pessoa tensa, com o coração acelerado e abundante transpiração, o pranto exerce um efeito calmente e desacelera tanto o ritmo da respiração como o cardíaco.

Parece que Aristóteles tinha toda a razão quando afirmava que “chorar limpa a mente”; uma desintoxicação que deixaria mesmo um rasto aromático com efeitos surpreendentes. Neurobiólogos do Instituto Weizmann (Israel) observaram que vários homens apresentavam uma diminuição drástica da excitação sexual no cérebro depois de serem convidados a cheirar um frasco de lágrimas “emocionais” femininas. Além disso, a perceção do sex ­appeal também diminuía enquanto viam fotos de rostos de mulheres, assim como os seus níveis de testosterona. A prolactina poderá estar por detrás deste fenómeno. De facto, também explicaria a razão pela qual as mulheres são mais propensas a chorar durante a gravidez e após atingir um orgasmo, situações em que disparam os níveis daquela hormona.

Uma língua para cada choro

Seja qual for a sua função, nem todos fazemos beicinho com a mesma frequência. Um estudo realizado há uma década revelou que, em média, as mulheres adultas choram cinco vezes mais do que os homens. Por outro lado, a revista Journal of Social and Clinical Psychology acaba de publicar um relatório que indica novos números. Por exemplo, que 62 por cento das vezes vamos abaixo em casa. Ou que uma em cada três choradeiras ocorre entre as 22 horas e a meia-noite. Quanto à companhia, em 35% dos casos, estamos sozinhos quando nos desfazemos em lágrimas, mas 36% das vezes são parentes próximos que nos rodeiam. No que se refere à duração do húmido episódio, a média situa-se entre os cinco e os sete minutos, se for desencadeado pela dor ou a tristeza, e apenas dois minutos, nos raros casos em que choramos de alegria.

Além disso, somos capazes de chorar em diferentes idiomas. Um estudo da Universidade de Wurzburgo (Alemanha) assegura que os recém-nascidos emitem sons distintos em função da sua língua materna. Por exemplo, os bebés franceses tendem a exprimir-se com um perfil ascendente, enquanto os alemães costumam berrar em tom descendente, mais parecido com o idioma germânico.

Por fim, um dado curioso: estudos absolutamente credíveis concluem que o filme mais lacrimogéneo da história é O Campeão (1979), que ultrapassa mesmo a dilacerante morte da mãe de Bambi (1942). De facto, a sequência final do primeiro (não vamos revelá-la aqui) é utilizada em experiências psicológicas para os indivíduos se verem obrigados a recorrer à caixa de lenços de papel.

E.S.

 

SUPER 170 - Junho 2012


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