Descobrir Balsa

altUma das maiores cidades romanas do seu tempo

Em Agosto, Portugal ruma ao Algarve. Boa altura para lembrar que há por ali muita história, nem sempre bem preservada. O geógrafo Luís Fraga da Silva leva-nos a conhecer uma das maiores urbes romanas do seu tempo.

Balsa foi uma importante cidade romana, que existiu na freguesia de Luz (concelho de Tavira, distrito de Faro), nos terrenos litorais hoje designados por Torre d'Aires, Antas e Arroio, tendo Pedras d'El-Rei, Luz, Rato e Pinheiro como subúrbios. É citada nas listas de cidades do Império Romano (por Pompónio Mela e Plínio-o-Velho, no século I, e por Ptolomeu, no século II), posteriormente como etapa de um dos Itinerários de Antonino (roteiro de estradas e rotas navais do século III) e, já após o fim do Império do Ocidente, na Cosmografia do Anónimo de Ravena (século VII, mas baseada em documentos muito mais antigos).

A história urbana de Balsa romana inicia-se no século I a.C. e termina no século V ou VI da nossa era. Teve o seu apogeu urbanístico no século II, chegando a ocupar uma área de cerca de 47 hectares, excluindo subúrbios e necrópoles. Era assim uma cidade de considerável dimensão no Império Romano, muito acima da média urbana da província da Lusitânia, a que pertencia. Destacava-se relativamente a Olisippo (Lisboa), Ossonoba (Faro) e Conimbriga (Condeixa-a-Velha), então respectivamente com 26, 22 e 24 ha, e era oito vezes maior do que os 5,5 ha da zona amuralhada da Tavira medieval! Cidade portuária litoral, sede de civitas, isto é, de uma autonomia municipal, que abrangia todo o Algarve Oriental entre Bias e o Guadiana, cunhou moeda própria em meados do século I a.C., no início da ocupação romana efectiva.

altOrigens

O seu nome é de provável origem fenícia, tal como o de outras cidades romanas do Sul peninsular, como Gades (Cádis), Baelo (Bolonia), Carteia (San Roque) e Malaca (Málaga). O primitivo povoado fenício localizava-se em Tavira, no morro de Santa Maria, onde existiu entre os séculos VIII e VI a.C., altura em que foi violentamente destruído. O sítio chamar-se-ia originalmente B'LŠ[..], correspondendo ao nome de uma divindade fenícia.

O fim da ocupação fenícia provocou um abandono temporário do local, que voltou a ser ocupado em meados do século V, transformando-se então num florescente povoado piscatório, conserveiro, metalúrgico e comercial, ligado ao apogeu do "Círculo do Estreito" e ao período tartéssico (assim chamado em honra do mítico reino de Tartessos, encontrado pelos navegadores gregos aqui no Extremo Ocidente). Esse povoado é designado "Tavira turdetana" pelos arqueólogos.

Na segunda metade do século IV, o sítio sofreu uma série de ataques e profundas destruições, acabando por ser de novo abandonado. Esta fase de violência, que atingiu todo o Golfo de Cádis, marca o fim do período Tartéssico e o início da influência cartaginesa.

Após o abandono, o centro do povoamento transfere-se para o ópido do Cerro do Cavaco, um pouco a Norte de Tavira. Neste local, que foi amuralhado, encontraram-se os indícios mais significativos dos séculos III e II a.C., nomeadamente alguns dos vestígios romanos mais antigos do território português. Infelizmente a zona arqueológica foi destruída antes de ter sido convenientemente explorada. A entidade territorial de então, pequeníssimo estado independente, chamar-se-ia já Balsa, nome por que aparece referida pela primeira vez nas moedas no século I a.C.

Os balsenses eram um povo indígena, pertencente ao grande grupo étnico dos turdetanos. Pensa-se que Balsa, assim como outras comunidades turdetanas do litoral, tenha estado submetida de algum modo ao poder cartaginês. Permanece obscura a sua relação com os cónios, povo que dominava o Baixo Guadiana e o Algarve Oriental aquando da chegada dos romanos e que constitui a única entidade política organizada registada nas fontes da época.

Pensa-se também que o primeiro enclave portuário romano, no sítio da Torre d'Aires, só tenha sido fundado na sequência da "Guerra dos Piratas" de 67 a.C, comandada por Pompeu Magno. O seu lugar-tenente, encarregado das operações na área atlântica, foi Tibério Nero, pai do imperador Tibério. A parte naval da campanha terá porém estado sob o comando de Lúcio Manlio Torquato. Este e o seu irmão Tito Manlio Torquato, outro comandante de Pompeu, pertenciam a uma antiga estirpe senatorial romana, célebre desde os tempos semilendários do ataque gaulês a Roma, em 387 a.C. Era uma família de almirantes que se distinguiu na 2.ª Guerra Púnica e já com interesses na Hispânia desde então. Será a partir desta época que os Manlii expandem esses interesses navais e fundiários na área do Golfo de Cádis, cujas ramificações locais encontraremos em Balsa duzentos anos mais tarde.

Os legados pompeianos terão sido responsáveis, nos anos seguintes, pelas cunhagens de moeda em várias cidades da zona, entre as quais as de Balsa, Ossonoba e Baelo. Os elementos conhecidos indicam que os balsenses terão tomado o partido de Pompeu Magno na guerra civil que o opôs a César. De facto, a representação de barcos de guerra nas moedas balsenses indicia ter existido em Balsa uma força naval auxiliar (isto é, constituída por indígenas não romanos) durante ou após a "Guerra dos Piratas". Os balsenses integrar-se-iam assim na extensa rede de povos marítimos clientes de Pompeu e dos seus filhos, numa zona que manteve a sua lealdade até à derrota final dessa família.

Os vestígios mais recentes do povoado do Cavaco (a Balsa pré-romana) são desta época. Desconhece-se quando foi abandonado mas é mais provável que o tenha sido por ordem dos legados de César ou de Augusto, tal como sucedeu em muitos outros lugares. As derrotas de Pompeu por César em 45 a.C. (na batalha de Munda) e, posteriormente, do seu filho Sexto por Marco Agripa e Octávio (Augusto) em 36 a.C. (na batalha naval de Nauloco) foram determinantes para o destino dos balsenses e de inúmeros outros povos e cidades. A comunidade indígena foi reconstituída no novo local romano de Balsa, sob a forma de uma civitas estipendiaria. Esta era a forma romana da servidão tributária, reservada aos indígenas que assumiram uma posição hostil ao partido romano vencedor.

Neste grau mínimo de autonomia, a comunidade sobrevivia devido ao arbítrio e interesse do poder romano, sem direitos políticos, civis e fundiários, regendo-se internamente pelas suas leis ancestrais, na medida em que elas não contrariassem as leis romanas. A despromoção a civitas estipendiaria, acompanhada da mudança forçada de assentamento para um lugar que se manteve pobre e pequeno até meados do século I, revela o castigo dos balsenses, sem dúvida originado por uma resistência armada pró-pompeiana. Terá sido uma situação semelhante à então ocorrida nas cidades da Sicília, pelos mesmos motivos.

altDesenvolvimento e apogeu

A partir de inícios do século I, a cidade inicia um extraordinário desenvolvimento urbanístico, associado ao crescimento económico e demográfico do Sudoeste Peninsular. Terá tido uma segunda fase de crescimento no reinado de Cláudio I (41–54 d.C.), com a reconstrução resultante de um megassismo então ocorrido e, sobretudo, com as novas oportunidades decorrentes da integração da Mauritânia (Marrocos actual) no Império, graças às fáceis e rápidas ligações marítimas com o Algarve.

Das fases da sua urbanização é possível reconhecer uma importante zona portuária, com um porto interior e um molhe artificial, dois fóruns, um teatro, um possível anfiteatro, dois circos (hipódromos), certamente activos em épocas distintas, duas termas e duas fábricas de produção de conservas de peixe. Reconhecem-se ainda arruamentos principais e uma extensa área edificada organizada em vários bairros, parte dos quais com a forma regular característica das urbanizações romanas. Nos arredores destacam-se uma barragem e um aqueduto, duas necrópoles, fornos industriais e várias villas (quintas residenciais) suburbanas, para além de uma rede de estradas, que irradiava do centro urbano, e de significativas marcas de centuriações. Estas eram a forma característica do cadastro romano dos campos, em que as propriedades tinham limites regulares e perpendiculares entre si.

A provável existência de uma "cidade dupla", com dois centros cívicos, justapostos paralelamente à margem e acompanhados de sistemas de arruamento distintos, e a posição progressivamente mais periférica de edifícios e terrenos de espectáculos, revela um crescimento urbano progressivo, com uma importante fase planificada, posterior à cidade inicial nascida na colina, junto ao porto. Este apogeu urbano deve ser associada à colonização/imigração que terá acompanhado a concessão do direito latino às cidades hispânicas, pelo imperador Vespasiano, em 78 d.C. Essa concessão transformou Balsa de uma cidade peregrina estipendiária numa res publica (um município romano) de direito latino.

Nestas comunidades mistas de romanos e súbditos provinciais, os cidadãos livres mais ricos e notáveis e respectivas famílias tornavam-se cidadãos romanos após exercerem magistraturas municipais, dando origem em poucas gerações a uma elite dirigente totalmente romanizada. Este processo de assimilação formava, na realidade, cidadãos romanos "de segunda classe", pois não podiam votar nem concorrer a eleições em Roma e as suas terras provinciais estavam submetidas a imposto. Respondiam, além disso, com a garantia dos seus próprios bens pelo equilíbrio financeiro e cumprimento das obrigações fiscais devidas pela comunidade ao poder central. Apesar destas limitações, as famílias destas elites romanizadas monopolizavam um enorme poder político, económico e social sobre as populações e territórios das suas circunscrições.

Os restantes cidadãos balsenses, pertencentes ao censo urbano, embora não romanos, possuíam importantes e invejáveis privilégios: o direito à posse da terra e a uma identidade política e jurídica; o direito de exercer actividades económicas no território do Império; a constituir família legalmente reconhecida; a instituir herdeiros; a serem protegidos e alimentados pelas instituições municipais a que pertenciam. Tinham, além disso, o direito político de eleger os magistrados locais.

Este processo permitia um árduo mas possível percurso de acesso à cidadania romana a uma minoria descendente de escravos libertos ricos. De facto, embora os libertos estivessem impedidos de ascender ao senado municipal (e pertencer assim à ordo decuriónica), os seus filhos já não sofriam dessa limitação e os seus netos (ou os filhos, em certas condições) podiam concorrer às magistraturas portadoras da cidadania romana.

A mudança de estatuto foi acompanhada por uma inovação radical do quadro urbano e por novas leis municipais, também responsáveis por uma nova divisão dos campos. Embora nada tenha sobrevivido da lei municipal de Balsa (que estaria fixada em placas de bronze no fórum da cidade), as suas consequências são ainda visíveis nos vestígios das centuriações rurais já referidas.

A fundação do município latino Flávio de Balsa atraiu elementos de origens modestas, de várias partes do Império, nomeadamente de regiões de língua grega e do Norte de África. Em altura indeterminada, ter-se-ão também aqui instalado libertos, clientes ou familiares de poderosas famílias senatoriais e equestres da Bética, ligadas ao favor da dinastia imperial reinante (como deve ter sido o caso dos Anii). Terão sido elas os patronos políticos e financeiros da expansão urbana e económica de Balsa.

As inscrições epigráficas de Balsa são exemplares na ilustração do evergetismo municipal, que era uma forma de mecenato político, em que alguns cidadãos particulares, ricos e frequentemente de origem modesta, ascendiam política e socialmente através de doações e obras públicas feitas em seu nome à cidade e à população. No caso de Balsa, registam-se os casos de dois cidadãos – Lúcio Cássio Celer e Gaio Licínio Badio – que oferecem parte do revestimento decorativo do edifício do circo, e de um terceiro – Annio Primitivo – que oferece um espectáculo público de pugilato e uma batalha naval simulada.

Há que destacar, nesta época, a importância da família Manlia nos destinos de Balsa, cujos membros deixaram importantes vestígios epigráficos, em diferentes escalões sociais: Tito Manlio Marcial foi talvez o organizador do município latino balsense. Tito Manlio Faustino foi o mais alto magistrado local (duúnviro) por duas vezes, tendo ele ou um seu ascendente adquirido a cidadania romana por esse motivo. Tito Manlio Eutiches e Tito Manlio Eutichio foram libertos dos descendentes do primeiro e Tito Manlio Lacon de um desses ramos mais ilustres.

Balsa desenvolve então uma extensa rede de ligações regionais, estabelecendo-se como porto-charneira entre o centro da Lusitânia e as costas do Sul da Península e do Norte de África. O apogeu da cidade está assim ligado aos transportes marítimos que uniam a Lusitânia à Bética (actual Andaluzia), a África e a Roma. Os seus armadores faziam parte da imensa infra-estrutura de transportes imperiais, indispensáveis ao escoamento dos recursos explorados localmente, ao abastecimento das cidades e do exército e à colecta fiscal anual.

A importação de trigo, azeite fino, vinho e produtos manufacturados e a exportação de metais, conservas de peixe, lã e corantes constituíam o cerne da actividade económica de Balsa e dos restantes centros urbanos do Algarve romano. As marcas de ânforas atribuí­das aos produtores de garum (pasta de peixe condimentada) do território balsense aparecem assim em diversos pontos do Império. Outros produtos que se sabe terem existido não deixaram marcas arqueológicas, pelo que é impossível avaliar a sua importância local.

Nesse período, a sua dimensão, a riqueza do equipamento urbano, os privilégios e iniciativa da sua classe mercantil naval e as então excepcionais condições portuárias faziam de Balsa a maior e mais importante cidade romana do Algarve. Foi uma situação novamente conhecida por Tavira muito mais tarde, no século XV, por razões bastante semelhantes, como porto concentrador do abastecimento e retaguarda de protecção miliciana das fortalezas portuguesas em Marrocos.

altDeclínio e desaparecimento

Balsa teve, contudo, o destino de Tongobriga (Freixo, Marco de Canavezes), Conimbriga (Condeixa-a-Velha), Eburobrittum (Senhor da Pedra, Óbidos), Mirobriga (Santiago do Cacém), Ammaia (Aramanha, Marvão), Italica (Santiponce, Sevilha, Espanha), Baelo (Bolonia, Tarifa, Espanha), Carteia (San Roque, Cádis, Espanha), Lixus (Larache, Marrocos), Volubilis (Wilaya de Meknès, Marrocos) e de muitas outras cidades romanas peninsulares e norte-africanas, que decaíram e desapareceram com o Mundo Clássico que as tinha gerado.

O seu declínio foi longo, com fases de relativa recuperação económica e episódios destrutivos. As razões deste fenómeno são demasiado complexas, polémicas e mal documentadas para serem resumidas em poucas palavras. Foi um processo que se inicia ainda no último quartel do século II, com razões gerais que se foram alterando, de índole financeira, política, económica, social, fiscal e demográfica. A estas juntaram-se episódios de epidemias (em 165–175 e 251–270), sismos frequentes e, talvez, revoltas regionais e razias de piratas.

Um ponto de viragem fundamental ter-se-á dado quando as elites senatoriais da Hispânia e do Sul da Gália sofrem um golpe devastador com a vitória de Sétimo Severo sobre Clódio Albino, em 197. Para além da sua liquidação física, uma parte decisiva dos seus bens foi confiscada pelo novo imperador e foram destruídas as suas redes familiares de influência política e financeira. Em termos muito gerais, a iniciativa geopolítica do Ocidente do Império desloca-se então para os potentados africanos.

Balsa e muitas outras cidades devem ter perdido então os seus apoios ao mais alto nível e visto desarticularem-se e abandonarem-se importantes estruturas sociais e económicas, decisivas para a riqueza local. A crise económica e social, com repercussões demográficas, poderá porém ser anterior, desde o reinado de Marco Aurélio (161–180).

As consequências são manifestas de forma generalizada no registo arqueológico subsequente de Balsa e de numerosas cidades do Sudoeste Peninsular e da Mauritânia Ocidental, reflectindo um quadro material de degradação monumental, empobrecimento urbano e abandono de estruturas produtivas, nomeadamente de fábricas de salga e, possivelmente, de manufacturas locais de cerâmica.

A ordo decuriónica, grupo social que constituía a espinha dorsal da comunidade e garante da sua solvência fiscal perante o poder central, perdeu privilégios, influência e riqueza desde os inícios do século III e uma sequência de vicissitudes impediu a adaptação da cidade aos novos tempos do Baixo Império.

De entre as causas particulares da sua decadência poderá destacar-se o assoreamento do porto e da barra, destruindo um pilar fundamental da sua viabilidade económica futura e do seu interesse como sede de administração provincial. Outra razão, mais imediata, foi a incapacidade de rodear-se de muralhas em dois momentos críticos da sua história: após as razias dos maurii (mauritanos), que assolaram o Sul da Bética em 171–178 e podem ter atingido a costa algarvia; e, ainda na segunda metade do século III, com a "Peste de S. Cipriano" (255–270) e a pirataria que sucedeu à invasão de francos (cerca de 260 a 298), altura em que sofreu uma grave conjuntura de insegurança (talvez um ataque), manifestada na ocultação de um tesouro de anéis e 300 moedas num esgoto das termas da Torre d'Aires.

A retoma económica e construtiva consequente à reorganização política e administrativa de Diocleciano (iniciada na região a partir de 299), que deixou marcas arqueológicas de reactivação da indústria de salgas, revelou-se insuficiente a médio prazo. Perante uma conjuntura irreversível de decadência urbana, o grande sismo ocorrido na segunda metade do século IV (talvez em 382) pode ter sido fatal para Balsa, assim como foi para Baelo e para Gades, vindo esta última a renascer séculos mais tarde.

Balsa tornou-se assim uma cidade inviável como lugar seguro a partir das grandes invasões de 411, devendo o seu fim como lugar central datar da primeira metade do século V, época de grande insegurança na região. Perdendo funções urbanas e população, transformou-se progressivamente, nos séculos seguintes, numa carcaça de ruínas abandonadas, que evoluiu posteriormente para quintas rurais e campos agrícolas cobertos de vestígios arrasados. Alguns materiais de construção viriam a ser reutilizados, em Tavira, 700 anos depois!

O seu destino foi assim tragicamente distinto da cidade vizinha e quase gémea de Ossonoba (Faro), que se tornou o centro urbano mais importante (quiçá o único) do Algarve no Baixo Império, concentrando funções administrativas, portuárias e económicas. A sede episcopal cristã desta cidade, pólo crescente de poder desde o século IV, garantiu a sua sobrevivência como centro político durante séculos críticos para o urbanismo peninsular. Permitiu-lhe assim um renascimento posterior, que originou a actual cidade de Faro.

Com a decadência de Balsa, o urbanismo do Algarve Oriental entrou num longo período crepuscular, que só terminaria no século XII com o nascimento da nova cidade islâmica de Tavira, no mesmo local dos velhos povoados fenício e turdetano. A memória de Balsa já então se tinha perdido, sendo o nome omisso em todas as fontes árabes medievais conhecidas, que citam no entanto lugares habitados pouco importantes. De facto, os vestígios dessa época são irrelevantes e o famoso episódio semilendário dos "sete cavaleiros" da Crónica da Conquista do Algarve revela que a antiga área urbana era então um descampado próprio para a caça, sem dúvida coberto de ruínas que estarão na origem do nome "Antas".

Este nome, muito provavelmente baseado na sobrevivência de colunas ainda unidas por lintéis, será já de origem portuguesa, posterior portanto à conquista. Ele corresponde apenas a uma pequena parte das ruínas da cidade (a actual zona das "Ondas" e "Ondinhas"), onde se localizava o que se presume ser o novo centro cívico da época Flávia, com um fórum e o teatro já referidos.

No século XVII, constrói-se nas imediações a torre chamada de Aires Gonçalves, ainda hoje existente, para proteger a barra do Pinheiro dos ataques dos corsários magrebinos. Dá o nome à posterior quinta da Torre d'Aires, cuja residência actual data apenas de meados do século XIX. O espírito romântico da época depressa transformou esse nome em Torre de Ares, numa associação fantasiosa ao remoto passado balsense, pois nem a torre é romana nem tem nada a ver com um fictício culto do deus Ares/Marte.

Redescoberta e nova destruição

Balsa só volta a ser referida no século XVI, acompanhando o interesse humanista pelas obras da Antiguidade Clássica. André de Resende, no seu livro As Antiguidades da Lusitânia, localiza-a cautelosamente em Tavira, opinião que viria a ter numerosos seguidores. O sítio da cidade só viria a ser redescoberto na década de 60 do século XIX, por Sebastião Estácio da Veiga e Augusto Teixeira de Aragão, numa época em que o desenvolvimento agrícola do Algarve teve como consequência a aceleração da destruição dos vestígios milenários e a sua paradoxal posta a descoberto. Desde então, as ruínas de Balsa têm sido alvo de pilhagens e depredações permanentes, sem nunca terem beneficiado de uma intervenção arqueológica adequada à dimensão e importância do local.

O nível arqueológico enterrado manteve-se, porém, virtualmente intacto até finais da década de 70 do século XX, quando a quinta da Torre d'Aires começou a ser radicalmente subsolada e a maior parte da quinta das Antas foi loteada para urbanizações. Pode assim falar-se, sem exagero, de uma segunda destruição de Balsa, levada a cabo no nosso tempo, que prossegue ainda nos dias de hoje, à custa da construção e expansão de enormes moradias em plena zona arqueológica!

Sobrevivendo à pilhagem generalizada, subsistem valiosos objectos romanos provenientes de Balsa em diversas colecções arqueológicas públicas e privadas, destacando-se os reunidos no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, na sua maioria provenientes do espólio de Estácio da Veiga e originalmente destinados ao seu Museu Arqueológico do Algarve.

Apesar da violência destas destruições, Balsa mantém o interesse de ser a única cidade romana do Algarve que não teve uma continuidade urbana, podendo estar ainda enterrada ou submersa uma parte significativa da sua área edificada.

Num Algarve muito pobre em vestígios e conhecimentos do seu passado romano, Balsa poderia ser a "jóia da coroa" do legado romano da região. Caso exemplar de cidade da Hispânia e da província da Lusitânia no apogeu do Império Romano, Balsa é também um tema incontornável da história do território que é hoje o concelho de Tavira.

É com tristeza que vemos ser ignorado e desperdiçado o potencial científico e cultural deste raro tesouro patrimonial, em perigo iminente de uma liquidação definitiva. Desde 2004 que a associação Campo Arqueológico de Tavira tenta sensibilizar a Câmara Municipal local para a necessidade de um Centro Interpretativo de Balsa Romana e para a integração explícita de Balsa na política territorial e cultural do concelho. Infelizmente, essas tentativas não tiveram sucesso até hoje, e Balsa continua ainda (também) enterrada nos lodos da ignorância histórica, do atraso cultural profundo e dos obscuros interesses imobiliários.

L.F.S. 

Para saber mais

http://www.balsa-romana.com A evolução do conhecimento sobre Balsa.

Balsa, Cidade Perdida. Luís Fraga da Silva, Campo Arqueológico de Tavira e Câmara Municipal de Tavira, 2007. Este artigo é uma adaptação da sua "Introdução".

SUPER 148 - Agosto 2010


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